Reportagem especial: pela primeira vez em sua história, Garuva enfrenta epidemia de dengue

Já são 270 casos confirmados da doença no município

O número de contaminados pela dengue cresceu de forma preocupante em Garuva, nas últimas semanas. O assunto tornou-se tema principal de publicações em redes sociais dos moradores da cidade, com relatos de famílias inteiras contaminadas pelo vírus transmitido pelo mosquito Aedes aegypti.  

O que estava em especulação tornou-se uma grave realidade com a divulgação da Secretaria Municipal de Saúde sobre os números de contaminados pela doença em Garuva: só este ano, foram 393 casos notificados, 270 confirmados e 79 ainda aguardam o resultado dos exames.

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Com o número elevado de casos, o Diretório de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina (Dive/SC) classificou o município de Garuva no dia 17 de abril em situação de epidemia de dengue. Segundo a Unidade de Vigilância em Saúde de Garuva, é a primeira vez, em sua história, que o município vive uma epidemia de dengue.

Além do município, Joinville, Blumenau, Florianópolis, entre outras, também estão na lista das 51 cidades em epidemia de dengue no Estado.

Outra classificação da Dive onde o nome de Garuva surge é em municípios considerados infestados pelo mosquito da dengue. De acordo com o levantamento divulgado pelo Diretório em abril, foram identificados 140 focos da larva do mosquito no município. Atualmente, este número pode ser ainda maior.

O combate

Francisca Alrileide Mesquita Guerra é enfermeira em Garuva e responsável pelo setor epidemiológico, ela explica que há um trabalho estadual contra a dengue em Santa Catarina, organizado por agentes de combate à endemias que realizam atividades operacionais, como a colocação de armadilhas feitas com pequenos pneus com água em pontos estratégicos de domicílios numa distancia de, aproximadamente, 200 metros entre uma e outra. Semanalmente, a água dos pneus é vistoriada.

“Se houver a presença de larvas, elas são coletadas e encaminhas para a regional de Saúde, em Joinville, que vai fazer a análise e vai confirmar se, realmente, é larva do mosquito Aedes ou não. Uma vez que se confirma as larvas da dengue, essa água é eliminada e feito uma ‘flambagem’ no pneu, colocando álcool e fogo, e é feito uma espécie de pente fino naquela microárea para ver as condições ambientais, entulhos de materiais que possam provocar o acúmulo de água”, esclarece.

Paralelo a esse trabalho, a enfermeira destaca que, quando há a confirmação de um caso de dengue, a vigilância sanitária faz uma varredura em torno da área onde o infectado mora, para procurar possíveis criadouros.

AgenteS de Saúde de Garuva em varredura para identificar possíveis larvas do mosquito da dengue. Foto: Divulgação

Outro reforço no combate à doença é a pulverização com inseticida em áreas com mais incidência de dengue, ação que a Prefeitura de Garuva vem realizado nos últimos meses. No caso do município, o grande número de contaminados concentram-se no Centro e no bairro Giorgia Paula.

Francisca também explica que, quando há identificação de casos em áreas afastadas das regiões com maior índice de casos, é feito uma varredura para identificar se o indivíduo se contaminou em sua localidade ou nos locais com mais incidência da doença. Com a identificação de casos nestas áreas afastadas é feita a aplicação de inseticida com uma bomba manual.

Dengue em reprodução

De acordo com o Ministério da Saúde, a fêmea do mosquito deposita seus ovos nas bordas dos recipientes com água limpa e parada. Dois ou três dias após o contato com o líquido, os ovos viram larvas e dias depois chegam na fase da pupa. Esse ciclo dura cerca de 48 horas e, ao término, se transformam em mosquitos adultos. 

Mosquito Aedes Aegypti. Foto: Divulgação

Os ovos do mosquito são muito resistentes e sobrevivem até mesmo por um ano em um local seco. Quando este local recebe água limpa, em cerca de meia hora de submersão este ovo pode se desenvolver. O Aedes aegypti leva em média 10 dias para se desenvolver e vive durante 30 dias. Uma única fêmea produz de 60 a 120 ovos em cada ciclo reprodutivo e pode ter mais de três ciclos durante sua vida.

Ainda segundo o Ministério da Saúde, a contaminação ocorre quando o mosquito pica uma pessoa infectada e adquire junto com o sangue o vírus da doença. Ao picar uma outra pessoa, ele contamina-a introduzindo o vírus, o qual tornou-se portador, em sua corrente sanguínea.

A enfermeira complementa que, como Garuva está infestada pelo mosquito da dengue, surge um grande número de casos positivos da doença. Ela reforça que a comunidade tem um papel fundamental e emergencial para quebrar o ciclo de reprodução do mosquito no município.

De dores de cabeça à hemorragia

Tudo começou com uma leve dor de cabeça, no dia 2 de maio. Algo que passou despercebido pela servidora pública do Estado, Michele Silveira de Souza, de 43 anos, por já estar acostumada com as dores que surgem periodicamente. Três dias depois, a servidora é submetida a uma cirurgia nos seios, em Curitiba. Ao chegar no hospital, Michele observou que as dores se intensificaram e sua pressão estava alterada. De acordo com o anestesista, as manifestações de seu corpo seriam resultantes da ansiedade em fazer o procedimento cirúrgico.

Ao passar pela cirurgia, voltou para casa no dia seguinte, quando outros sintomas começaram a surgir. “Fortes dores de cabeça, vômitos constantes; nada parava no estômago, nem mesmo água; febre e muita fraqueza”, afirmou.

Nos dias que se sucederam, não suportando as fortes dores, buscou por atendimento do UPA de Garuva onde o médico suspeitou de que Michele estaria sofrendo com algum tipo de infecção devido à cirurgia. Um hemograma foi realizado, constatando que seu nível de plaquetas estava baixo, o que poderia ocasionar em hemorragia pelos pontos da cirurgia que havia feito.

Ainda sofrendo com as constantes dores, Michele retornou ao hospital onde havia feito a cirurgia, e foi submetida ao teste para dengue, e o resultado deu positivo.

“Foi a primeira vez que peguei (dengue). Pra mim, foi pior de quando peguei covid. Se eu tivesse em uma situação de saúde, sem a cirurgia, acredito que não teria sido, assim, tão grave”, destacou.

Devido à doença, edemas surgiram entre os pontos que abriram, o que ocasionou hemorragias no local da cirurgia, que tornaram-se frequentes com a perda de muito sangue, prejudicando sua recuperação e deixando-a acamada por dias, pela fraqueza que sentia.

Após completar um mês dos primeiros sintomas, já recuperada, Michele afirma que, de fato, a dengue é uma doença séria, que precisa ser vista com mais rigor.

“A doença cobra muito do nosso corpo”

Os sintomas começaram no servidor público Thaffael Oliveira Corrêa, de 32 anos, num sábado, 7 de maio. Dores de cabeça intensa, costas, pernas, atrás dos olhos e febre lhe obrigaram a buscar por atendimento médico no UPA de Garuva, onde foi diagnosticado com dengue. Para aliviar as dores, foi receitado a Dipirona, o que, segundo o servidor, aliviou as dores de cabeça. Outro remédio receitado foi um remédio para amenizar as coceiras que sentiu com o surgimento de um ‘vermelhidão’ pelo corpo. Thaffael conta que precisou se hidratar muito para evitar a desidratação.

Thaffael foi um dos 270 moradores infectados pelo vírus da dengue.
Foto: Acervo

“Foi uma semana bem complicada, não consegui sair de casa e nem podia, mas assim que deu o sétimo ou oitavo dia por ali acalmou tudo. Porém, a coceira era triste. Para me recuperar, mesmo, foi essa semana de sintomas mais uns três a quatro dias meio sonolento, ainda; mas, atualmente, estou bem. A dica é se hidratar muito”, comentou.

Para Thaffael, estar infectado é uma sensação horrível. “A doença cobra muito do nosso corpo, eu, particularmente, fiquei muito mal nessa semana que tive os sintomas”. Ele destaca que, infelizmente, como as pessoas não têm cuidado com o descarte de lixo, assim como temos muitos terrenos baldios, onde os donos não se preocupam em deixar bem cuidados, era deduzível que a dengue iria chegar e se propagar por Garuva.

Descarte indevido de resíduos identificado em Garuva. Foto: Prefeitura de Garuva

“E foi o que aconteceu. Precisamos, como moradores de Garuva, ter um cuidado maior com a dengue e a proliferação do mosquito, muita coisa tem sido feita por parte da governança, para que consigamos nos livrar desse mosquito, mas precisamos da ajuda de todos os cidadãos, peço que cuidem bem de seus lares pois só quem pegou a dengue sabe o quanto ela cobra e precisamos continuar a luta contra o mosquito, acredito que, entrando no inverno, vão diminuir os casos, mas, ainda assim, temos que cuidar. É triste ver que algo tenha se espalhado na região, uma doença que apenas escutávamos na escola, mas se não cuidar corretamente, nada vai mudar”, acrescentou.

Como a dengue reage em nosso corpo?

Emmanuelle Reis atua como médica Na rede municipal de Saúde de Garuva e acompanha a chegada de contaminados pela dengue nas Unidades.

De acordo com a médica, os sintomas da doença são: febre alta de início súbito, dor de cabeça, dor atrás dos olhos, dor no corpo e nas articulações, prostração, falta de apetite, náuseas, vômitos, e exantema – um “grosseirão” – (no popular) geralmente no rosto, tronco e membros, sem poupar palmas das mãos e plantas dos pés, podendo dar muita coceira.

“Geralmente, esse grosseirão aparece quando a febre passa, complementa. Outro efeito típico da doença é o cansaço que surge quando a infecção desaparece.

A médica acrescenta que deve-se ter atenção maior com gestantes, idosos e crianças, diabéticos, portadores de asma e anemia falciforme, pois são grupos e fatores de risco para maior gravidade da doença.

Ela comenta que há quatro sorotipos do vírus da dengue e a imunidade é permanente para cada sorotipo.  Entretanto, quando há imunidade cruzada (quando a pessoa é infectada por um sorotipo e gera imunidade com sorotipos diferentes do infectado) ela pode durar, apenas, três meses.

“Este medicamento não é recomendado em caso de suspeita de dengue”

Essa é uma frase que costumamos ouvir pela TV em propagandas de medicamentos, mas, que, até então, passava despercebida. A busca por medicamentos para diminuir os sintomas da dengue pode tornar-se algo perigoso quando há a automedicação, podendo agravar a doença.

Emmanuelle explica que, para o tratamento da dengue, não há, de fato, um tratamento específico, e é receitado medicamentos apenas para amenizar os sintomas, como analgésicos e antitérmicos, dando preferência ao Paracetamol e, ou, Dipirona. A médica ressalta que o vírus da dengue infecta células responsáveis pela formação de células de defesa e sanguíneas e pelo metabolismo do ferro.

“Então, a gente evita dar qualquer medicamento que possa interferir no funcionamento da medula óssea, baixando plaquetas ou células de defesa, pois isso pode ser sinal de gravidade na dengue”, complementa.

Emmanuelle enfatiza que é de extremo perigo o uso de medicações à base de ácido acetilsalicílico (o AAS) e anti-inflamatórios, comumente presentes em caixinhas de remédios das famílias.


“Essas medicações costumam baixar os níveis das plaquetas, células responsáveis pela coagulação do nosso sangue. Na dengue, costuma ocorrer uma diminuição na contagem dessas células, podendo ocorrer sangramentos. Se a pessoa faz uso dessas medicações, pode agravar (e muito) o quadro”, alertou.


Além das medicações receitadas para diminuir os sintomas, como explicado acima do texto, Emmanuelle informa que outra indicação para o tratamento da dengue é o repouso e a constante hidratação, pois uma das complicações pode ser a desidratação, principalmente após o terceiro dia de doença.

Vacina contra dengue

Conhecida como Dengvaxia, a vacina para prevenção da dengue é feita pelo laboratório Sanofi e não está disponível no SUS, podendo custar até R$ 300. Porém, de acordo com Emmanuelle, há uma vacina sendo testada pelo Instituto do Butantan que, caso efetivada, estará disponível nas Unidades de Saúde.

A vacinação é recomendada para pessoas entre 9 e 45 anos que moram em áreas endêmicas para a dengue, tornando-se efetiva, principalmente, em uma possível segunda infecção, explica a médica, que ressalta:

“E a pessoa tem que ter certeza de que teve dengue mesmo, e não chikungunya ou zika, que trazem sintomas bem similares e também são transmitidos pela picada do mosquito Aedes aegypti”.

Dengue hemorrágica

Do terceiro ao quarto dia após o surgimento dos primeiros sintomas, podem aparecer hematomas e, em seguida, manifestações hemorrágicas. Elas começam com pequenas manchas vermelhas ou marrons, chamadas de petequias, aglomeradas debaixo da pele ou das mucosas, indicando sangramento. Outra coloração comum são os hematomas roxos que surgem repentinamente, chamadas de equimoses.

O caso piora e eleva-se para sangramentos no nariz, gengiva e pela vagina. A febre, que havia parado, geralmente, retorna, podendo ocorrer, também, dores abdominais. Para Emmanuelle, estes são sinais de alerta da dengue hemorrágica, um agravamento do quadro clássico da doença, que pode acontecer na infecção por qualquer um dos quatro sorotipos, porém, é mais comum acontecer quando a pessoa contrai dengue pela segunda vez.

Faça sua parte

Para eliminar os focos do mosquito da dengue as ações são simples: evite usar pratos nos vasos de plantas. Se usar, coloque areia até a borda; guarde garrafas com o gargalo virado para baixo; mantenha lixeiras tampadas; trate a água da piscina com cloro e limpe-a uma vez por semana; mantenha ralos fechados e desentupidos; lave com escova os potes de comida e de água dos animais, no mínimo uma vez por semana; retire a água acumulada em lajes; limpe as calhas.

É importante, também, que o morador atenda os agentes em Saúde, deixem que entrem no seu terreno para verificar possíveis focos para eliminá-los. Eles fazem uma tarefa essencial nesse momento, inclusive tirando dúvidas da população.

Texto: Herison Schorr

Jornalista formado pela Faculdade Bom Jesus Ielusc

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