Perdi Meu Corpo — Crítica (Netflix, 2019)

Perdi Meu Corpo
Animação Francesa disputa o Oscar

Ao ler o título do filme pensamos em uma história de terror ou ficção científica, como se a alma tivesse descarnado do corpo e vagasse por aí. Após assistir ao trailer e ler a sinopse, descobrimos algo bem diferente. Perdi Meu Corpo trata sobre a nossa percepção do mundo, escolhas, destino e sobre como tudo isso molda nossa personalidade. Um longa voltado acima de tudo para o existencialismo.

Fragmentado

O roteiro de Perdi Meu Corpo trata sobre Naoufel (Hakim Faris) um jovem apaixonado por Gabrielle (Victoire Du Bois) e uma Mão decepada com vida própria. A trama acompanha esses dois personagens de maneira não linear.  Enquanto a mão caminha pela cidade, vemos a vida do jovem passar. As primeiras cenas acompanhamos seu crescimento e as dificuldades em lidar com os problemas da vida adulta, enquanto a Mão tenta sobreviver com os perigos da cidade.

Todo roteiro parece trabalhar por meio da sutileza, a narrativa não quer explicar a história, mas mostrá-la e deixar o espectador completar a trama. As falas são resumidas, sem grandes diálogos, mas as cenas carregam uma grande força. A Maioria é construídas por meio de planos detalhes ou closes. Isso deixa as mensagens mais sugestiva, percebemos a mudança na vida de Naoufel em pequenos fragmentos do filme: O braço quebrado, a praia, os óculos no chão e a mosca.

O ritmo do filme é ditado pela distância dos planos, as cenas mais tensas e mais rápidas são as mais próximas, as da Mão, por exemplo. Entretanto as mais lentas e melancólicas são as mais distantes e abertas, como a que ele conversa com o chefe ou entrega a pizza no prédio. Descansamos os olhos na abertura da objetiva e os temos tensos quando está cada vez mais próxima.

Indiferente do plano, o filme parece ser contado de um ponto de vista fragmentário. São poucas as cenas que dizem tudo em um grande plano aberto. Os ângulos sempre restringem nosso campo de visão. Em algumas cenas do pai e da mãe Naoufel não conseguimos os ver por inteiro, nem o local onde eles estão. Isso nos provoca uma sensação de desconforto, esperando um ângulo contrário ou um plano que mostre mais.

Membro Fantasma

A jornada da Mão pela cidade em busca do seu corpo não é nada aterrorizante, nem grotesco, ao contrário sentimos empatia e torcemos pelo êxito. Os momentos mais tensos do filme estão justamente na busca da mão pelo seu corpo, pulando de prédios, enfrentando ratos e cães. Em nenhum momento se explica explicitamente o motivo da mão estar onde está e ir onde ela vai, nem porque ela consegue estar viva sem um corpo. Mas isso não importa.

Embora o filme não trate diretamente do assunto, a Mão é uma inversão do trauma do membro fantasma. Quando uma pessoa com partes do corpo amputadas ainda sente a presença do membro ou do órgão extirpado. É como se nosso corpo não compreendesse como ficamos sem braço, algo que sempre estivemos ligados, como não podemos correr ou escrever com a mão direita. O membro arrancado não retira toda nossa vivência, aprendizado e nossos sentimentos de memória (Mais sobre o assunto aqui).

A Mão vive um trauma do corpo fantasma, não importa onde esteja o corpo, ela o sente e precisa encontrá-lo. A sensação pode ser comparada com a perda de alguém que amamos, nunca poderemos substituir essa pessoa, mas também não conseguiremos esquecê-la, infelizmente, muitas vezes, acaba nos sobrando apenas dor.

Perdi Meu Corpo está disponível na Netflix e disputa o Oscar de melhor animação em 2020.

Leia também nossa crítica sobre Democracia em Vertigem (Critica aqui), filme Brasileiro que disputa o Oscar de Melhor Documentário.