O diário de Rafael: como o amor pode transformar a vida de um aluno autista

O primeiro contato de Rafael Lopes com a escola foi quando ele tinha apenas um ano de idade, em São Paulo, onde vivia com a família. Uma novidade da primeira infância, e o início das memórias afetivas. Porém, nos dias seguintes da frequência escolar, a professora identificou algo diferente no menino e chamou seus pais, os autônomos Ronaldo Lopes, de 39 anos e Renata Correia, de 33 anos, para uma conversa. O primeiro diagnóstico observado era a falta de socialização da criança com os amigos e o desinteresse para realizar as atividades escolares. A família foi orientada a buscar especialistas, o que acabaram conseguindo quando mudaram-se para Garuva.

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Com três anos de idade, uma consulta foi realizada com o neurologista. Renata recebeu o diagnóstico de autismo do filho, algo que confirmava suas suspeitas observadas desde que Rafael tinha 8 meses de vida. “Não pelo autismo, exatamente, mas por conta de alguns atrasos. Principalmente, quando se temos já um filho, por mais que nenhum filho é igual ao outro, eram nítidos os atrasos”, contou. 

Um passo à escola

Durante a pandemia da Covid-19, Rafael passou uma parte do ano letivo em casa, construindo de forma amorosa e compreensiva com sua mãe e seu pai uma rotina de estudos da primeira série. O processo ia super bem. O menino conheceu as letras e aprendeu a juntá-las em sílabas e depois em palavras, alfabetizando-se de uma forma inesperada na tranquilidade de seu quarto. As contas revelavam resultados acertivos por ele e as cores transbordavam pelo papel. Mas houve uma ruptura, uma temida ruptura. Rafael deveria voltar para a escola, com o retorno das aulas presenciais em 2021.

Rafael estudando em casa. Foto: Acervo

O primeiro dia na escola foi de muito temor. O barulho, a correria e a incompreensão fez Rafael desgostar do ambiente. Uma semana na escola; outra em casa; um professor em um período; outro na semana seguinte. As alternâncias abalavam a rotina de Rafael e a serenidade dava lugar à impaciência e a agressividade. Tarefas passaram a ser desinteressantes e o colorido dos desenhos fez-se branco sulfite.

“Ele foi regredindo e os hiperfocos foram aumentados. Há hiperfocos que ajudam a criança, mas esse acabava desregulando, e o dele desregulava. Rafael começou a ficar agressivo e a ansiedade aumentou. A medicação teve que ser aumentada”, lamentou a mãe que observou uma falta de preparo da escola para trabalhar com o filho autista. 

“Ele não estava tendo muito estímulo para que fosse para a escola e gostar de ficar. Às vezes, tinha um certo bloqueio de brincar com alguém, ou chegar em alguma criança; não tinha muita interação. Então, quando ele chegava na escola, ele só gritava, não queria ficar. E, porque ele não queria ficar, alguma coisa tinha. Querendo ou não, falta de inclusão, falta de estímulo, falta de material adaptado, paciência, isso provoca muitas coisas no autista, isso era um dos fatores para Rafael não querer ficar na escola”, ressaltou.

Era mais um dia letivo quando Rafael sucumbiu a uma crise nervosa. A mãe lembra com tristeza das primeiras imagens que viu no pátio da escola, quando foi chamada às pressas pela direção.

“Foi bem triste ver ele. Quando cheguei na escola, os amigos de classe no pátio, porque ele estava na sala de aula hiperagressivo, gritando, e ninguém conseguia contê-lo”.

Renata explica que Rafael possui um hiperfoco no desenho da Lucy, do Snoopy. No dia do ocorrido, ele pediu para a professora desenhar a personagem no quadro e que todos os alunos também desenhassem no papel. A professora acabou desenhando de forma perfeita, mas alguns colegas de classe não conseguiram, o que acarretou numa crise. 

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A mãe garante que esse momento ficará para sempre em suas memórias, à medida que a ocasião tornou-se um símbolo de um novo Rafael que ela desconhecia, pois ele se tornara, também, agressivo no ambiente familiar, um reflexo acompanhado nas consultas com a psicóloga.

Andria Zuffa, psicóloga de Rafael, identificou naquele período que o menino apresentava problemas reais em seu comportamento. Segundo Andria, Rafael foi diagnosticado com rigidez de pensamentos, dificuldade em manter contato social, até mesmo em entrar no ambiente escolar e realizar atividades de alfabetização. “Tudo parecia muito desafiador para o pequeno, que apresentava muita resistência”, explicou. 

Uma segunda escola; alguém espera no portão

O ano letivo acabara calejando Rafael de traumas. Seus relatórios não eram dos melhores, principalmente a descrição de seu comportamento escolar. O ano de 2022 começara e um novo primeiro dia de aula numa nova escola o fazia reviver os medos anteriores.

Rafael iniciava seu segundo ano na Escola Municipal Professora Milene Saad Benedet, no bairro Giorgia Paula. Ainda com resquícios das experiências da escola anterior, o menino apresentava, novamente, resistência. Era tudo novo, inclusive a professora.

De cabelos ruivos e ares juvenis, esperava por Rafael no portão a recém-formada Rafaele Domingues Soveral da Silva, de 20 anos, moradora de Guaratuba. O menino seria um de seus primeiros alunos especiais, um trabalho que lhe cativou durante os meses de estágio na educação especial e atendimento educacional especializado.

Rafaele tornou-se a nova professora de Rafael. Foto: Herison Schorr

O primeiro encontro não foi dos melhores, havia desconfiança de Rafael, e talvez um pouco de medo de ambos os lados. “Qualquer palavra que eu direcionava para ele, ele só respondia não”, lembra Rafaele.

A professora admite que nos primerios dias de aula acreditou que não conseguiria lecionar para o novo aluno, que se mostrava resistente para qualquer estímulo.  “Era algo novo, mas eu estava disposta a aprender com ele”, disse.

Assim que entrou na sala de aula, Rafael sentou na última carteira e fechou-se em si. Não havia interação nem com os colegas, nem com Rafaele, mostrando resistência para realizar as atividades propostas. Quando não estava deitado no chão, saia da sala e zanzava pelos corredores da escola, repetindo palavras. Ele era acompanhado e observado pela professora, que o conhecia a cada dia.

Rafaele tentava de todas as formas apresentar-se como um novo ponto de segurança para o aluno, que ainda resistia. “De primeira instância, ele não permitia que eu mantesse contato com ele, ele queria empurrar, respondendo com o não. Eu sempre tentava ser o máximo de cativante com ele, sempre tentava explicar que a prof estava ali para ajudar, que eu ia ser a prof dele, que ele estava vindo para a escolinha e ia ficar comigo. Por mais que ele não correspondesse, eu sempre tentava ficar conversando com ele, mas, também, dava o espaço dele”, lembra Rafaele sobre os primeiros contatos com o novo aluno. 

Construindo laços

Como método de iniciação didática, Rafaele passou a identificar no comportamento de Rafael aquilo que ele mais gostava. Durante sua ecolalia, comportamento de repetir palavras, encontrou seus gostos, e, claro, descobriu que, de fato, Rafael era fã número um do desenho do Snoopy, quando ele declarava todas as falas e canções dos episódios que assistia. Havia uma chance de conhecê-lo de verdade.

“Então, aproveitei da ecolalia dele para trabalhar a escrita, o que havia regredido, com palavras chaves que eram gatilhos para ele. Eu escrevo com minha letra, dentro do espaçamento da linha, e depois peço para ele escrever, porque a ecolalia dele não é só na fala, é, também, na escrita”, explicou.

Algo diferente aconteceu. Vendo que a prof também gostava dos mesmos desenhos que ele, Rafael disse seu primeiro sim, mesmo que em gestos. Segurou firme o lápis e passou a escrever de forma repetitiva aquilo que falava e que Rafaele também escrevia. O processo auxiliava a desenvolver sua coordenação motora e também o prazer pela escrita. Foi nesse período que descobriram que Rafael era uma das únicas crianças alfabetizadas da sala.

Rafael realizando atividades escolares. Foto: Acervo

O sim passou a ser mais frequenta nos conversas entre o aluno e a professora que, intuitiva, começou a gratificar Rafael com impressões do seu desenho favorito, à medida que ele realizava as atividades. Ela conta que este processo facilitou no auxílio para o menino deixar velhos hábitos, como a questão de sempre querer sair da sala de aula ou permanecer sentado no chão. Cada sim, um desenho.

Professora Rafaele passou a cativar o aluno. Foto: Herison Schorr

Na escadinha da construção de uma nova rotina, um degrau deveria ser superado: a inserção de Rafael ao mundo das cores. O menino apresentava negação para pintar com lápis de cor, se negando a realizar os trabalhinhos com os demais colegas da classe. Rafaele passou a apresentá-lo outras formas de colorir, com tinta aquarela e giz de cera.

O aluno passou a trabalhar com as cores após incentivo da professora.
Foto: Acervo

“Eu sempre vou fazendo essa percepção do que ele gosta de um método para trazer a uma atividade que eu queira aplicar com ele”, disse. Nas pequenas mãos, o lápis de escrever ganhou a companhia do azul, vermelho, amarelo e tantas outras cores que passam, atualmente, por ali.

O primeiro não

A confiança e o respeito entre aluno e professora foi posta em teste. Se antes o desejo era pelo sim, agora, Rafaele buscava formas se ensinar o não a Rafael. Houve um pedido de um desenho fora de hora, e o não se fez presente. Teve silêncio, um tanto de surpresa da parte dele; uma resistência. A vitória chegou com a compreensão.

A professora acrescentava de forma sutil as regras à rotina do aluno, ensinado-o que havia hora para brincar, hora para estudar e hora para receber gratificações. Caso não houvesse o cumprimento das regras, as gratificações não eram oferecidas.

O acréscimo da palavra também foi primordial para dar certa independência a Rafael, que sempre acabava pedindo para a professora alguns favores, como levar o lixo na lixeira e apontar o lápis. Rafaela afirma que passou a estimulá-lo para realizar as tarefas.

“A gente tem que trabalhar isso desde cedo, para que, quem sabe, lá no futuro, ele seja um adulto independente, que não seja um adulto que é tratado como uma criança e os pais precisem fazer tudo”, explicou. 

A transformação no convívio familiar

A mudança do comportamento de Rafael como aluno também foi refletida no Rafael filho, como conta Renata. A mãe enfatiza que o filho passou a ser mais paciente e suscetível às regras. “Na realidade, esse é o verdadeiro Rafael, o de hoje”, contou feliz destacando o papel primordial do acolhimento da professora, e da boa relação entre as duas, para a construção de um pilar de confiança entre os três. A mudança de Rafael também foi percebida no consultório da psicóloga. 

Rafael brincando com os colegas de classe. Foto: Acervo

“Este ano, após voltarmos com os atendimentos, fiquei muito surpreendida com o desenvolvimento do Rafael, as mudança forem bem evidentes desde a chegada no consultório, e foram em todos os sentidos que podemos imaginar: cognitivo, social e, principalmente, emocional, demonstrando aceitação e prazer nas atividades propostas a ele, o que antes tínhamos uma dificuldade gigantesca, agora se tornou um processo lindo com muitos benefícios tanto para a estimulação quanto para o bem estar do Rafael, aonde ele demonstra, claramente, uma alegria contagiante”, destacou Andria.

A psicóloga acredita que as escolas precisam trabalhar mais com a inclusão escolar. Ela explica que esta sensibilidade faz com que compreendemos como é o funcionamento desta criança no meio social, quais suas dificuldade, quais seus potenciais.

“Assim, conseguindo fazer a elaboração do PEI – Plano de Ensino Individualizado, junto ao suporte e treinamento expecifico para as professoras das redes, assim, conseguindo estabelecer um manejo apropriado para melhor ensino e aprendizado da criança com Transtorno de Expectro Autista”.

A surpresa da declaração

A ansiedade do Rafael se despedia. A escola tornou-se interessante, divertida, esperada para a primeira aula começar. Se passaram dois meses e, pelo caminho até aqui, o menino encontrou amigos que se mostraram dispostos a estar por perto, e tê-lo como companhia. O toque foi aceito, as risadas e as brincadeiras de roda.

Rafael em uma brincadeira de roda com a turma. Gravação: acervo

Em um dia; uma supresa. Professora e aluno estavam fazendo as atividade, e Rafael se saia muito bem. Um elogio foi proferido por ela e, em seguida, o maior agradecimento que Rafaele pode receber.

“O Rafa ama você”, disse o aluno à professora.

“Para mim, foi um choque. O Rafa é uma pessoa carinhosa, mas ele tem as limitações dele. Eu não esperava assim, tão cedo. A gente vai fazer dois meses juntos, então pensei que seria um processo mais demorado. Fiquei bem emocionada e muito feliz, pois vi que estava tendo eficácia todo o processo que estava trabalhando com ele”. Rafaele agradeceu o carinho e a chance que tem de ser sua professora.

Texto: Herison Schorr

Jornalista formado pela Faculdade Bom Jesus Ielusc

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2 Comments on "O diário de Rafael: como o amor pode transformar a vida de um aluno autista"

  1. Conheço a Rafaele, trabalho com o marido dela, ela é uma pessoa exepcional! Fico feliz por ela estar tão bem e feliz, que Deus a abençoe sempre e ilumine os caminhos dessa menina maravilhosa👏👏👏❤❤❤

  2. Eliane Nagel Cristofolini | 03/04/2022 at 3:43 pm | Responder

    É lindo o processo que está acontecendo entre esses dois. Prof. RAFA estou muito honrada de fazer parte desta história

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