No dia de São João, conheça a história do construtor das fogueiras do padroeiro de Garuva

Por 30 anos, Valentin Marcolino Casagrande esteve à frente da construção do símbolo mais emblemático da festa do padroeiro municipal

Enquanto observávamos a terra da praça Pedro Ivo Campos arder com a fogueira de São João Batista, padroeiro de Garuva, poucas imaginações surgiam sobre quem estava por trás de sua construção. Imponente, em períodos que chegou a 20 metros de altura; estaca por estaca, quanto trabalho, quanta dedicação e não ouso dizer em um tanto de judiação. A tradição da festa junina garuvense foi iluminada nos últimos 30 anos pelo saudoso serralheiro Valentin Marcolino Casagrande, conhecido pela comunidade católica do município como o verdadeiro e único construtor de fogueiras do município. 

Valentin Marcolino Casagrande fez história em Garuva construindo a fogueira de São João por 30 anos. Foto: Acervo

Ao iluminarem o passado doce da história de Garuva, um braseiro de memórias sobre o seu ‘Casa’ formou-se na presença de suas filhas e genro que o descreveram como um católico fervoroso, devoto à Santa Luzia e um verdadeiro admirador deste símbolo das tradições juninas. Casa nasceu em Criciúma, mas foi em Barra Velha, quando havia acabado de construir sua família, que as então crianças lembram de um pai que levava todos para ver o arder da fogueira de São João de Itaperiú, município vizinho. Ao mudarem-se para Garuva, o novo morador trouxe para cá aquilo que havia aprendido naquela outra terra do ‘batizador’ de Cristo.

“Ele trouxe a tradição da fogueira alta de São João do Itaperiú, pois, em Garuva, não se faziam fogueiras tão altas”, revela Elizabete Casagrande Silva. Ao chegar por aqui, mostrou suas habilidades para a comunidade da igreja, a qual, tão cedo tornou-se membro. No final da década de 80, a antiga e média fogueira de São João de Garuva tornou-se tão grandiosa quando o prazer de fazê-la, por seu novo construtor.

Na véspera do grande festejo municipal, que começa na sexta e termina no domingo, com o leilão ou sorteio para acender a fogueira, seu Casa ‘virava uma criança’, contemplando aquele trabalho que fazia com muito gosto e sem cobrar nada. Duas semanas antes, já começava a procura pelas madeiras, que eram escolhidas minuciosamente, principalmente as estacas principais, que deveriam ser perfeitamente retas, e ter entre 15 a 20 metros. A árvore escolhida para dar este fundamental suporte era o eucalipto. Com as estacas fincadas no solo da praça, cerca de dois metros chão adentro, Casa pregava tábua por tábua, tudo direitinho, nada torto, e ia preenchendo o interior da fogueira com “casqueiro”, colhido nas serralherias do município. No alto, como último elemento, colocava os fogos de artifício, os quais, também fazia questão de escolher e comprar. 

Mas, também, seu Casa virava “leão”, quando via algo não dando muito certo, meio torto, meio molhado, com as constantes chuvas que caiam sobre a fogueira, encharcando-a; com o fogo que não pegava na hora, e lá ia um dos filhos subir até o alto da construção de madeira, para acendê-la. O coração de pai apertava; quando um foguete saiu errado, ou certeiro para os pessimistas: voou do outro lado da fogueira e foi cair na casinha de botijão do gás da casa do padre, ninguém se feriu, virou história de risos juninos; e uma vez que a fogueira foi acesa um dia antes, por um morador de rua. “Ele ficou muito nervoso, mas com a ajuda da Prefeitura, conseguiram montar novamente a fogueira, a tempo”, comentou Eronides Casagrande.

Construção da fogueira de São João nos anos 2000. Foto: Acervo

Durante o processo de preparativos, toda a família acompanhava aquele grande nervosismo que o inflamava. “Ele deixava todo mundo estressado, mas era uma alegria pra ele, e a gente se alegrava de ver ele fazer”, comenta Elizabete.

Com o apagar das últimas brasas da fogueira, lá pela tarde de segunda-feira, Casa podia respirar tranquilo, mais um ano que a fogueira iluminou e se apagou como deveria, tudo direitinho. “Eu lembro que ele falava, quando chegava no domingo, que a fogueira ia ser acesa no domingo a noite, que terminava tudo, ele chegava em casa e dizia assim: ‘Agora, posso descansar, agora acabou'”, destaca Eronides.

Com a idade chegando e levando as forças dos braços e das pernas, Casa via-se, nos últimos anos, cansado daquela função, mesmo que ela deixasse seu coração quentinho de ânimo. Por cinco anos, prometeu para a família que não iria mais montar a fogueira de Garuva, “mas sempre voltava atrás, quando o padre vinha convidar”, conta Alexandre Silva, genro. Mas, já com 75 anos, 2015 foi o ano escolhido para encerrar, definitivamente, sua tradição no município. “Aí o padre disse: ‘então, seu Casa, só faz este ano, como despedida’, e ele aceitou”, contou a filha. 

Paróquia celebra há mais de 100 anos o Dia de São João em Garuva. Nos últimos dois anos, a festa foi cancelada devido à pandemia da Covid-19. Foto: Rafaela Legnaghi

Casa não imaginava que, aquele domingo de 2015, dariam-lhe a honra de acender àquela que tornava-se sua companheira de fé e devoção à comunidade que, naquela noite fria de inverno, o aplaudia e o agradecia pelos esforços de perpetuar uma alegria que atravessava gerações. “O pai ficou muito emocionado, pois, na cabeça dele, ele nunca tinha acendido a fogueira, de fato, ele apenas ajudava a acendê-la nos bastidores, mas nunca como prestigiado, aquilo valeu os 30 anos dele”, lembra Eronides.

Em 2015, Casa foi homenageado pela comunidade em sua despedida das funções de construtor da fogueira de São João.
Foto: Acervo

Nos anos seguintes, mesmo aposentado da função, Casa sempre ia dar uma espiadinha na montagem da fogueira feita, agora, por mais novos e, segundo ele, meio ‘amadores’. “Ficava indignado, pois, às vezes, eles faziam torto” comenta humorada Elizabete.

Casa com a família. Foto: Acervo

A festa junina de 2019 seria apenas mais uma, de um festival centenário em Garuva. Agora, apenas como expectador, o vô Casa fez questão de comprar uma rifa para todos os netos, que seria sorteada no domingo, as mãos que segurava o bilhete sorteado, acenderia a fogueira. E não é que foi uma das netas do construtor a escolhida? Uma feliz coincidência; uma triste despedida.

Em abril do ano seguinte, aos 80 anos, seu Casa disse adeus ao sertão onde um rio apadrinhou o seu padroeiro, deixando guardado no coração do povo garuvense uma triste solidão. Não há mais festas, nem fogueira, só saudade, no dia de hoje, dia de São João. Mas a vida assegura “não chore não , viu”, lá na frente, outras fogueiras voltarão, iluminando o caminho da saudade e trazendo calor ao coração.

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Texto: Herison Schorr

Jornalista formado pela Faculdade Bom Jesus Ielusc

1 Comment on "No dia de São João, conheça a história do construtor das fogueiras do padroeiro de Garuva"

  1. Apesar de ter outras prioridades e questões mais relevantes a se resolver em nosso municipio Interessante a ideia de rebatizar com o nome de um representante conhecido da nossa terra que vez tanto por Garuva.

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