Livro polêmico lembra período onde alemães de Joinville eram perseguidos por exército de Vargas

“As pessoas eram proibidas de serem elas mesmas. Não podiam falar a língua alemã, guardar livros e fotografias de seu país de origem; nem mesmo os cultos em alemão e as escolas que ainda utilizavam a língua foram poupadas”, comenta o escritor

De um lado, o exército brasileiro comandado por Getúlio Vargas que perseguia aos que cultuavam com orgulho suas origens alemãs, e, principalmente, os espiões nazistas que viviam entre eles; no outro, entusiastas de Hitler que moravam em Santa Catarina e buscavam auxiliar o Reich para criação da Alemanha Antártida no Sul do Brasil. No meio, descendentes de alemães, muitos deles ainda colonos, que sofriam com os efeitos da Campanha de Nacionalização na década de 30 e da Segunda Guerra Mundial.

Os eventos delicados deste período da história joinvilense estão registrado no livro “O 9° poste da XV de Novembro”, de autoria do escritor e jornalista garuvense Herison Schorr. De acordo com a obra, uma menina imigrante alemã desembarca em Joinville num período tenso da história do município, onde aqueles que compartilhavam suas mesmas origens eram vistos como ‘inimigos do Brasil’.

Obra resgata período delicado da história de Joinville. Foto: Divulgação

Herison conta que o período da ‘Campanha de Nacionalização’ foi muito traumatizante para as famílias de origem alemã do Brasil, principalmente, em Joinville, que lembram com temor e até mesmo vergonha do que passaram na época. “As pessoas eram proibidas de serem elas mesmas. Não podiam falar a língua alemã, guardar livros e fotografias de seu país de origem; nem mesmo os cultos em alemão e as escolas que ainda utilizavam a língua foram poupadas”, comenta. Neste período, muitos homens pais de família alemã foram presos em Joinville pelo exército e encaminhados ao campo de concentração que foi instalado no antigo Asilo Municipal de Alienados Oscar Schneider.

Asilo Municipal de Alienados Oscar Schneider de Joinville, onde funcionou posteriormente como campo de concentração de supostos conspiradores nazista. Foto: Acervo

O autor destaca que a ideia de Vargas era criar um país genuinamente brasileiro, seguindo de acordo com as ditaduras que se espalhavam na Europa, assim como na própria Alemanha, com Hitler, mas, que, Santa Catarina, devido a uma forte predominância germânica, era uma ‘pedra em seu sapato’. “Muitas pessoas foram presas neste período, pelo simples fato de não saber falar o português, uma delas foi meu bisavô, que havia acabado de chegar da Alemanha e pouco sabia da língua do Brasil”, afirma.

O 9° poste da XV de Novembro: Um olhar sobre a Joinville dos anos 30 e 40

O 9° poste da XV de Novembro conta a história de Marília Baumert, uma menina alemã que vivia com seus pais e melhores amigos na região da Alta Baviera, Alemanha, na década de 30. Porém, sem entender, a menina teve que, às pressas, se despedir de seus melhores amigos, rumo ao Brasil. Seus pais escondiam de Marília sua origem judia e sentiram que a vida da filha estava ameaçada com a ascensão do nazismo na Alemanha.

Depois de uma longa viagem à vapor, Marília chega ao Porto de São Francisco do Sul, onde observa pela primeira vez as diferenças daquele país distinto. Pessoas com a pele cheia de “graxa”, causaram espanto e curiosidade para a menina que, pela primeira vez, via um indivíduo de cor escura, de origem africana. A friagem do Brasil tropical também causava espanto para a menina que chegou em Santa Catarina no início do inverno. Mas, ao chegar em Joinville, Marília começa a identificar, agora, as semelhanças, das casas ao jeito de falar dos moradores, mesmo que ainda usassem um alemão antigo.

Representação da estação ferroviária de Joinville. Livro faz um mergulho nos anos 30 e 40 da cidade. Foto: Divulgação

Foi dentro de sua nova casa, em frente ao nono poste da rua XV de Novembro, que a menina descobriu as primeiras raízes do Brasil: suas músicas, sua língua, sua fé e sua culinária, pelas mãos e voz da empregada Maria de Jesus. Ao subir até seu novo quarto, sente-se aliviada quando abre as cortinas e repara que há um poste em frente à sua janela. O motivo? Marília cultiva um medo particular pelo escuro e o amigo poste guardaria seus melhores sonhos.

Outro personagem que Marília conhece pelas páginas seguintes é Lucio, um menino engraxate que lhe apresenta o outro lado do Brasil: a miséria causada pela desigualdade social. Ao longo da trama, ele parte o coração de Marília em dois, ao descobrirem o primeiro amor. Marília, agora, está dividida entre o amor que a faz querer ficar no Brasil e o amor que a influencia constantemente a buscar meios de voltar para sua terra natal, e reencontrar seus melhores amigos, que sempre escreviam cartas confirmando que estavam todos bem.

Assim que chegam a Joinville, seus pais a matricularam na Deutsche Schule e passam a frequentar a Igreja da Paz, de denominação luterana. Porém, nas primeiras semanas na nova comunidade, a pequena família de imigrantes descobre que os alemães não eram mais bem-vindos, após a ruptura de relações do país com a Alemanha. Com isso, Marília e seus pais enfrentam as perseguições do governo brasileiro, assim como outros moradores da região, descendentes de antigos imigrantes. Escolas alemãs são fechadas e cultos luteranos proibidos de serem proferidos com a língua materna. Com o início da Segunda Guerra, os ataques se intensificam.

Para evitar que a cidade de Joinville fosse supostamente bombardeada por tropas nazistas, o prefeito da época emitiu um decreto que obrigava que todos os postes da cidade fossem desligados, escondendo Joinville numa escuridão total, retirando da menina amedrontada pela breu total os últimos resquícios de tranquilidade. Em uma noite, ela viu uma luz escapar da cortina. Ao observar pela janela, aquele poste havia se iluminado misteriosamente. Ao descer as escadas e se aproximar dele, na calçada, descobre que o poste guardava segredos, que revelavam o que ocorria com seus amigos na Alemanha.

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