Jovem de Garuva tem vida afetada após ser atropelado por motorista com sinais de embriaguez

“Agora, talvez eu tenha que trancar a faculdade, as contas do mês vão acumular porque teoricamente o salário é para reduzir até a metade ou ficar até sem receber. Estou tentando não pensar nessa coisa agora, mas que virão a tona”, lamenta Claudinei Soares de Souza Junior, de 20 anos, que foi afastado do trabalho para tratar as lesões

Era para ser mais uma descontraída noite de sábado (24) com os amigos, depois de uma semana exaustiva de trabalho. O jantar daquela ocasião exigia massa de tomate, a qual se fez ausente nas prateleiras. Prestativo, Claudinei Soares de Souza Junior, de 20 anos, se voluntariou para comprá-la. Subiu em sua moto e seguiu um trajeto que levaria apenas cinco minutos. Porém, o que aconteceu em seguida, mudou sua vida, com consequências de longo prazo. 

No momento que trafegava pela rua Padre José Novak, em Garuva, Claudinei foi ‘fechado’ por um carro que bateu em sua moto o fez arremessar-se sobre o veículo. Ferido, o jovem foi socorrido pelos bombeiros de Garuva e encaminhado ao Hospital São José, em Joinville, com diversas escoriações pelo corpo e um joelho quebrado. 

A notícia para a família

Vanderlei Oliveira e a esposa estavam jantando em casa quando receberam uma visita inesperada de um dos amigos de Claudinei. Pela expressão do rapaz, o padrasto que considera o enteado como filho, e a mãe, deduziram que ele não trazia boas notícias. “Ficamos desesperados. A gente pensa que morreu, este é nosso pensamento imediato”, afirmou Vanderlei. 

A família correu até o local onde Claudinei estava recebendo os primeiros socorros do Corpo de Bombeiros do município. Ao ver o filho caído em meio ao sangue e observar o comportamento embriagado do motorista, Vanderlei conta que sentiu um misto de desespero e revolta. Ele exigiu que o motorista fizesse o bafômetro, mas, segundo o padrasto, por medo de ser preso, o condutor “não fez o bafômetro e ficou por isso”. 

O motorista  

Segundo a Polícia Militar de Garuva, o condutor do veículo que atingiu Claudinei foi identificado como Sérgio Reis Nobre da Silva. Na descrição da Ocorrência, os policiais registraram que o motorista exalava odor de álcool e lhe foi ofertado o bafômetro, Sérgio se recusou a fazê-lo, mas confessou aos policiais que havia ingerido bebida alcoólica antes do acidente. 

Sérgio Reis Nobre da Silva, motorista responsável pelo acidente de Claudinei.
Foto: Redes sociais

Em entrevista ao Folha Norte SC, Sérgio reiterou sua admissão em ter ingerido bebida alcoólica, tomado, a princípio, duas latas de cerveja e explicou sobre o motivo pelo qual não fez o teste do bafômetro. “Automaticamente, se eu fizesse o bafômetro ali, com uma latinha de cerveja já acusa que você está embriagado, eu só recusei por causa disso aí, para não ir preso (…) jamais eu ia provocar o acidente; meu Deus do céu, acabou com meu carro, acabou com a moto dele”, ressaltou.

O motorista também complementou que irá pagar o conserto da moto e as medicações de Claudinei. “Vou acertar sim, vou ter que trabalhar o dobro, o triplo, pra pagar o concerto da moto do Claudinei, eu estava errado, eu entrei errado, mas ele estava pra mais de 40 por hora, eu tinha ingerido sim, três quatro latinhas de cerveja”, admitiu em seguida.

Dentre as conversas sobre o acidente, Sérgio levantou uma questão à parte: “Agora, os meus adversários ‘vai’ falar o que quer, que eu estava alcoolizado, que estava drogado, que estava um monte de coisa, mas, jamais. Tinha tomado umas três, quatro latinhas de cerveja, tanto é que estava devagarinho, o piá que estava na velocidade, mas o errado foi eu, eu vou fazer de tudo para pagar os danos do rapaz, já falei com o pai dele, se precisar de dinheiro para o remédio que é para entrar em contato comigo, ‘para mim se virar'”, disserta Sérgio que tenta a carreira política em Garuva.

O vídeo do acidente

Gravação: Divulgação

Durante a noite de sábado, as câmeras de segurança da Creche Municipal Frei José Bertoldi flagraram o momento do acidente. Analisando as imagens, onde Sérgio não pára o veículo para a passagem de Claudinei, o motorista afirma que, quando viu a moto, ela já estava ‘em cima’ dele. Sérgio também destaca que estava devagar e que havia dado o sinal para virar e, segundo ele, Claudinei estava entre 40 a 50 km/h, o que, em sua versão, acabou ocasionando o acidente.

‘Foi um acidente, eu só tenho que dar graças a Deus de não ter acontecido o pior, porque bens materiais, eu não tinha nada, eu não tenho nada, bens materiais eu consigo para frente agora, eu só tenho que dar graças ao Rei dos Reis que o piá está bem, graças a Deus, agora vou ter que ‘chiar’, trabalhar, trabalhar e trabalhar para pagar o conserto da moto do rapaz”.

Já Claudinei reafirma que Sérgio não havia sinalizado que iria virar sentido à quadra poliesportiva, e que, se tivesse feito, teria visto. O jovem reitera: “Ele não poderia ter virado do jeito que ele virou, a preferencial era minha”. Outra questão mencionada por Sérgio no Boletim foi uma suposta ultrapassagem de Claudinei pela direita, o qual confirma em vídeo que não ocorreu.

Dias no hospital 

Claudinei aguardou por cinco dias para ter o joelho operado, com a notícia médica de que poderia ficar com sequelas na perna, à medida que o processo de cicatrização começava com o osso danificado. “Eu saí para comprar um molho de tomate e estou aqui, na terça-feira (27), esperando para fazer a cirurgia, por irresponsabilidade dos outros estou pagando pato, é um absurdo”. Ao descobrir que o motorista apresentava sinais de embriaguez, o jovem foi enfático: “Para mim é uma (notícia) das mais bárbaras, é muito triste falar sobre isso”, lamentou emocionado pela situação.

Claudinei aguardando pela cirurgia. Foto: Divulgação

Enquanto aguardava, acompanhando as dores das escoriações e o sentimento de solidão do hospital, estavam os pensamentos de preocupação, os quais ele afirmou evitar, mas, em vão, pois seus temores estavam prestes a se concretizar.

Na quinta-feira (28), Claudinei teve seu joelho operado, com as notícias de que não haveriam sequelas. Otimista com a boa notícia, voltou para casa na sexta-feira (30), onde foi acolhido pela família. 

As consequências

Antes daquele fatídico sábado, Claudinei seguia com dedicação a sua rotina de trabalho, como inspetor de qualidade em uma empresa de Garuva. A grana do salário era destinada de forma fiel para pagar as contas, dentre elas, seus dois maiores sonhos: a moto e a faculdade de gestão de qualidade, na Unisociesc, em Joinville. Mas os pensamentos que o acompanhavam no hospital aproximam-se da realidade.

Ferimentos na perna de Claudinei. Foto: Divulgação

“Agora, talvez eu tenha que trancar a faculdade, as contas do mês vão acumular porque teoricamente o salário é para reduzir até a metade ou ficar até sem receber. Estou tentando não pensar nessa coisa agora, mas que virão a tona”, admitiu o jovem que iniciará a fisioterapia e aguarda a resolução da perícia do INSS, mas teme sobre a incerteza de continuar a faculdade, pois não terá dinheiro para pagá-la e frequentá-la caso as aulas voltem de forma presencial. Seu segundo sonho, a moto, terá que passar por um concerto com o valor aproximado de 8 mil reais, à medida que ainda faltam 10 mil do seu financiamento, lembrou Claudinei.

O padastro do jovem procurou o motorista para que ele, ao menos, pagasse o valor do conserto da moto. Mas, de acordo com Vanderlei, ao ver o valor da conta, Sérgio afirmou que procuraria por outro orçamento, mais barato.

“Infelizmente, ele acabou com um sonho do meu filho, o sonho dele ter uma moto, estragou o ano dele; acabou com o emprego, acabou com a faculdade, meu filho depende dessa moto para trabalhar, para estudar. Isso é angustiante, é difícil isso; uma pessoa irresponsável”, completou o padrasto. 

Claudinei em recuperação após a cirurgia. Foto: Divulgação

Ao sair do hospital, Claudinei lavrou um Boletim de Ocorrência contra Sérgio, e menciona que uma irresponsabilidade acabou prejudicando seus planos para 2021, “mas dou graças a Deus por estar vivo, o resto a gente corre atrás”, finalizou.

O Código de Trânsito Brasileiro

O Artigo 306 do Código de Transito Brasileiro destaca que “conduzir veículo automotor com capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool ou de outra substância psicoativa que determine dependência acarretará em penas, como: detenção, de seis meses a três anos, multa e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor”.

Segundo o Código, a infração é cometida quando: há concentração igual ou superior a seis decigramas de álcool por litro de sangue ou igual; superior a 0,3 miligrama de álcool por litro de ar alveolar ou quando há sinais que indiquem alteração da capacidade psicomotora. 

A verificação da embriaguez poderá ser obtida mediante teste de alcoolemia ou toxicológico, como o bafômetro, exame clínico, perícia, vídeo, prova testemunhal ou outros meios de prova em direito admitidos, observado o direito à contraprova, ou seja, segundo o Código Brasileiro, o motorista pode se recusar a fazer os testes por ser uma garantia constitucional, já que uma pessoa não é obrigada a produzir provas contra si mesma. Porém, o Código garante a punição gravíssima nos casos de recusa, que pode decorrer em: multa, suspensão do direito de dirigir por 12 meses, recolhimento da habilitação e retenção do veículo.

As penas para motoristas que causam acidentes embriagados pode ser de detenção de seis meses a dois anos e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor, caso a vítima sobreviva com escoriações leves. Em casos de lesão corporal grave ou gravíssima, a pena pode ser maior: de dois a cinco anos. Quando a vítima morre, há a pena de reclusão, de cinco a oito anos, e suspensão ou proibição do direito de dirigir.

Uma vítima fatal da improducência

No fechamento desta reportagem, a redação do Folha Norte SC recebeu a notícia da concretização da tragédia em Garuva causada pela soma de álcool e o volante. O motoboy Willian Modesto teve sua vida interrompida na noite deste sábado pela imprudência no trânsito.

Willian Modesto foi morto neste sábado por um motorista embriagado. Foto: Divulgação

Durante uma entrega, o jovem trabalhador foi atropelado por uma caminhonete Ford Ranger conduzida por um motorista com sinais de embriaguez. Willian não resistiu às múltiplas fraturas e morreu enquanto era socorrido na UPA de Garuva.

Campanha

Neste domingo (1), amigos de Claudinei, com sua permissão, lançaram nas redes sociais uma campanha de arrecadação on-line para o jovem conseguir arrecadar valores suficientes e pagar suas despesas. Para ajudar, clique aqui ou faça um pix pelo código juniorsouzaclaudinei@gmail.com.

Leia também: Motorista de SFS busca apoio para comprar prótese após perder perna em acidente

Texto: Herison Schorr

Jornalista formado pela Faculdade Bom Jesus Ielusc

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