Idosa cega de São Francisco do Sul conta como a vontade de deixar de viver tornou-se seu único desejo

Eu peço, né, eu peço para Ele me levar, sabe, mas Ele me falou que não tá na hora ainda, que, quando chegar a hora, Ele sabe a hora que Ele deve me levar”, revelou em entrevista ao Folha Norte SC

As belezas naturais e arquitetônicas da ilha de São Francisco do Sul enchem os olhos de turistas que visitam-a todos os anos, além dos próprios moradores que não perdem a sensibilidade de contemplá-las; porém, nos últimos três anos, Ilda Alves Pereira, 71 anos, uma das moradoras da cidade, foi acometida pela retinopatia diabética (RD),  uma doença que afeta os pequenos vasos da retina, região do olho responsável pela formação das imagens enviadas ao cérebro, tornando-a cega para sempre. 

Ilda Alves Pereira, 71 anos, ficou cega há 3 anos. Foto: Herison Schorr

Evangélica, sem esperanças de um dia voltar a enxergar, hoje, seus pedidos a Deus ganham um novo sentido. “Tudo o que eu preciso, eu peço para Deus. Tudo, tudo, tudo. Ele fala que quando chegar a minha hora, eu vou, que não adianta eu pedir. Eu peço, né, eu peço para Ele me levar, sabe, mas Ele me falou que não tá na hora ainda, que, quando chegar a hora, Ele sabe a hora que Ele deve me levar”, revelou em entrevista ao Folha Norte SC. Moradora do bairro da Reta, a última visão que lembra foi do rosto de seu pastor, da igreja que costumava frequentar; hoje, mal sai de casa, apenas para emergências médicas.

Espaço publicitário

No ano passado, juntou cerca de R$2.500 reais para um tratamento à laser, porém, o valor não foi suficiente para pagar os novos exames, “pois os outros eram velhos e nós somos pobres para pagar”, contou. Sem a cirurgia, o quadro tornou-se irreversível

Uma vida de contemplação e energia

Quando não estava trabalhando como doméstica, emprego que conseguiu e diz orgulhosa que, por meio dele, criou os dois filhos, dona Ilda conta que sempre que podia, pegava um ônibus para ir às melhores praias no Norte de Santa Catarina; em São Francisco, não sabia escolher a mais a mais bela vista por seus olhos ainda saudáveis: “Prainha, Enseada, Forte, Ubatuba, Paulas”, contabilizou.

Idosa perdeu a visão após complicações da diabetes. Foto: Herison Schorr

Outra visão que costumava lhe encher os olhos eram as feições dos próprios filhos e dos netos; hoje são dez deles. Ela destacou que ainda lembra de como eles eram; mas, atualmente, apenas com o tato reconhecê-os e nos últimos dias conheceu desta forma a neta recém-nascida. 

A dependência 

“Olha, meu filho, eu vou te contar que é a maior tristeza na minha vida. Eu fazia tudo”, lamentou. 

Ilda reconhece os filhos e netos pelo tato e pela voz. Foto: Herison Schorr

Como mencionado no parágrafo anterior, dona Ilda era uma mulher cheia de energia, como trabalhava como diarista, sua casa era reflexo do capricho que deixava os lares alheios, mas, depois de ficar cega, agora depende da família para tornar os quatro cômodos de sua casa arrumadinhos, da forma como sempre gostou. 

Aposentada trabalhava como doméstica. Foto: Herison Schorr

“Agora, minha casa é um rancho. Antes, era uma casa de boneca, agora, dependo dos outros. Pede uma coisa e espera. A gente não é acostumada a esperar, é acostumada a fazer”, comenta sobre seus netos que moram com ela e do filho que vive na casa ao lado e se esforçam para ajudá-la, mesmo com as exigências. 

Ilda Alves Pereira, 71 anos, aposentada.

Aposentada, hoje o dinheiro, cerca de mil reais por mês, serve para ajudar nas continhas do lar, como luz e água,  incluindo as fraldas que precisa usar. Mexendo eu seus braços, dona Ilda revela outro percalço em sua vida: os constantes tombos. “Já machuquei a perna, o lado da barriga, eu caio muito, eu não enxergo”, disse emocionada. 

Idosa revela a falta de vontade de viver após ser acometida pela cegueira.

Sem acompanhamento com psicólogo, perguntado sobre sonhos futuros, a senhora é enfática: “Meu maior sonho que quero é morrer, eu não quero nada, pra quê ficar no mundo, só isso que eu quero”, encerrou.

Texto: Herison Schorr

Jornalista formado pela Faculdade Bom Jesus Ielusc

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2 Comments on "Idosa cega de São Francisco do Sul conta como a vontade de deixar de viver tornou-se seu único desejo"

  1. Sirlei mendes | 11/09/2021 at 9:56 pm | Responder

    Lembro dela dês de quando me entendo por gente ,sempre muito caprichosa era muito vaidosa… peço de Deus tenha misericórdia dela

  2. Ana Maria de Borba | 11/09/2021 at 10:26 pm | Responder

    Misericórdia tanta gente com condições ,e não ajudar uma senhor dessa, que tanto precisa, cadê o povo de São Francisco,será que não tem nigy pra dá uma ajuda
    P essa senhora meu Deus que triste,eu sou pobre mas eu ajudo muita gente pior que eu

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