História do Porto: em 1876, São Francisco do Sul exporta meteorito como ferro

O inusitado acontecimento consta no livro ‘História do Porto de São Francisco do Sul’, de Nelci Terezinha Seibel, lançado em 2012

É provável que este seja o único  meteorito, na história da humanidade, que tenha sido cortado e exportado como se fosse ferro. O fato ocorreu há 145 anos, em São Francisco do Sul, no Norte catarinense, e o material acabou fundido na Inglaterra. O inusitado acontecimento consta no livro ‘História do Porto de São Francisco do Sul’, de Nelci Terezinha Seibel, lançado em 2012.


Foto: Acervo Kurs Südamerika

Corria o ano de 1875 quando o francisquense Manoel Gonçalves da Rosa descobriu o que considerava tratar-se de uma mina de ferro, num morro da região central da cidade. Imediatamente, ele mandou amostras à Escola Politécnica do Rio de Janeiro, requerendo a concessão da mina. No ano seguinte, professores da instituição carioca atestaram tratar-se de um meteorito caído há séculos e publicaram um artigo científico na revista francesa “Comptes rendus“.

Mas já era tarde. Em 1876, sem esperar o laudo, o concessionário da mina explorou o suposto depósito de ferro com 25 mil quilos, até o seu total esgotamento. Na verdade, o material era composto de níquel, metal mais duro e valioso. O minério foi retirado em blocos, para ser quebrado em partes menores e, assim, facilitar o deslocamento. O maior pedaço pesava 2,2 mil quilos. O próprio Rosa informou que, no Livro da Mesa à Venda de São Francisco do Sul, constaria o registro da exportação de 25 toneladas do metal para a Inglaterra através do porto local.

Para o presidente do Porto de São Francisco do Sul, Cleverton Vieira, o resgate da memória do porto, que se identifica com a história da cidade, busca valorizar os pioneiros na atividade portuária no Norte do estado. “É uma forma de homenagear a todos os que ajudaram a desenvolver o porto, que se transformou no maior em movimentação de carga em Santa Catarina e o sétimo do Brasil”.

Em 1961, jornal confirma fato

O episódio foi divulgado pelo jornal local O Município, em 14 de janeiro de 1961, numa reportagem sobre o trabalho do estudioso francisquense Beneval de Oliveira, ‘Geologia, Petrologia e Geomorfologia da Ilha de São Francisco do Sul’. Até então, poucas pessoas tinham conhecimento da queda de um meteorito na cidade.

No seu estudo, que atestava a existência de material meteórico na região, Oliveira menciona o artigo ‘Notas sobre meteoritos brasileiros’, do geólogo e paleontólogo Orville Derby,  publicado na revista Observatório do Rio de Janeiro, em 1888. Este anunciava a descoberta do meteorito em São Francisco, atribuída a Manoel Gonçalves da Rosa, em 1875.

Antes, em 1884, o Museu de Mineralogia da Escola Politécnica do Rio de Janeiro enviou a São Francisco do Sul o cientista Luiz Felipe Gonzaga de Campos, para uma minuciosa busca de informações e provas sobre o fato. No seu relatório, o pesquisador revela que o sitio onde foram encontrados os fragmentos, batizado de Morro da Mina pela população local, em função do enorme buraco causado pela queda do meteorito, situa-se na localidade conhecida como Rocío. O cientista encontrou fragmentos ferro-niquelíferos de origem sideral, resultantes de um meteorito.

Dom Pedro II e Museu Nacional

Um dos primeiros a apresentar trabalhos sobre o meteorito de São Francisco do Sul foi o Imperador Dom Pedro II, na Academia de Ciências de Paris. E, em vista da importância da descoberta, ele tornou-se membro e correspondente daquela instituição de pesquisas científicas.

Pequenos pedaços do ‘Meteorito Santa Catarina’, encontravam-se no Museu Nacional do Rio de Janeiro, mas desapareceram no incêndio de 2018.

(Todas as informações desta matéria foram extraídas do livro ‘História do Porto de São Francisco do Sul’, de Nelci Terezinha Seibel, lançado em 2012. A foto de abertura é acervo da Kurs Südamerika, reproduzida na obra de Seibel).

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