Escritor de SC reverterá vendas de livro em passagens para crianças haitianas reencontrarem seus pais no Brasil

Obra conta a história de imigrantes alemães e haitianos que chegaram em Joinville ao longo das décadas

O jornalista e escritor catarinense Herison Schorr, 28 anos, morador de Garuva SC, lançou nesta semana sua estreia na literatura brasileira. Chamado de “O 9° poste da XV de Novembro“, a obra tem como tema as dores das crianças que deixaram seus países, em diferentes épocas da história brasileira, para emigrar a Joinville. Com o dinheiro das vendas, o escritor doará aos pais haitianos que moram na região, para ajudar na compra das passagens de seus filhos que ficaram no Haiti. “Uma saudade profunda que deve ter um fim, com o início de uma nova história feliz, aqui. Foi um sonho publicar meu primeiro livro, e ele será o propulsor dos sonhos deles”, diz.

Herison conta que a vontade de reverter o dinheiro das vendas do livro em reencontros de pais e filhos surgiu no mesmo instante que o próprio desejo e a necessidade de escrever o livro, que faz uma reflexão sobre os imigrantes alemães que chegaram em Santa Catarina no passado e os imigrantes haitianos que chegam atualmente, e da forma como foram e são recebidos. “O Pierre, um dos pais que pretendo ajudar, não sabe, mas foi por causa dele que tudo isso começou, quando vi uma foto sua circulando nas redes sociais. Na fotografia, havia ele vendendo doces brasileiros e segurando uma plaquinha escrito: ‘Compre uma cocada e ajude a trazer minha família para o Brasil’; nos comentários, houve quem disse: ‘Eu só compro se for para você comprar a passagem pra voltar pra lá’. A partir desse momento, senti que era hora de agir”, explica.

História de compreensão e empatia

O escritor revela que essa empatia pelos imigrantes haitianos é exercida por ele ser neto de uma também imigrante, mas de origem alemã, a qual inspira as histórias de sua obra. Segundo Herison, sua avó sempre contava detalhadamente os momentos de sua vinda ao Brasil,  e da forma como foi recebida por parte da população, que viam nela, mesmo sendo uma menina, uma potencial inimiga, espiã do nazismo. “Nesse período,  minha vó e toda sua família foi proibida de falar a língua que até então era a única que sabiam. Tiveram que esconder suas fotografias e livros,  pois tudo que fazia referência à Alemanha era queimado pelos soldados de Vargas; meu bisavô, pai dela, foi preso apenas por não saber falar o português. Era um desespero profundo, pois estavam fugindo de sua terra natal para salvarem suas vidas, e aqui sofriam os efeitos por não serem “bem vindos”, conta.

Família do escritor Herison Schorr. Foto: Acervo

Em outro momento, já nas pesquisas do livro, o escritor lembra que, durante as entrevistas, conheceu uma menina haitiana chamada Djeminy, que havia chegado no Brasil há poucos meses, mas sabia falar o português muito bem. Para o escritor, aquele momento de conversar com ela foi como se estivesse conversando com alguém de quem já recebeu muito afeto.

“Eu vi nela, naquela menina haitiana, os olhos da minha vó Maria. Foi algo mágico e nostálgico. Mesmo sendo tão diferentes, ela sendo haitiana e minha vó europeia, era como se eu estivesse sentado em frente à minha avó ouvindo as histórias sobre sua travessia ao Brasil; duas meninas imigrantes, em passados diferentes, com os mesmos medos e os mesmos sonhos”. De acordo com Herison, a história de Djeminy deu vida à segunda protagonista da obra.

Com o livro finalizado, Herison iniciou em sua comunidade um movimento para dar mais visibilidade aos imigrantes haitianos que ainda chegam em sua cidade. Em reuniões que costuma realizar com eles, o escritor diz que aprendeu a refletir sobre os valores afetivos, da importância que é a presença, em nossas vidas, de quem amamos, daqueles que vemos todos os dias, mas não demonstramos o quão são amados. “Um dos casais que conheci deixou o Haiti há quatro anos. No país, deixaram sua filha recém nascida com a avó. Hoje, anos depois, eles só se conhecem pelo celular, e o pai da menina conta que, mesmo em todos os dias de conversa, ela não o chama de pai, não o reconhece assim. Eu não tenho filhos, não sei mensurar essa dor, mas, por ser filho, posso imaginar algo parecido”. Outra questão importante que orienta seus passos, segundo o escritor, é sua fé, e da forma como a vive.

“Sempre quando ouvimos falar em amor ao próximo, temos dificuldades de entender como amar alguém que você nem conhecemos, que veio de outro país, por exemplo. Um estrangeiro, um estranho… Mas descobri que é quando paramos para ouvir suas dores de longas viagem e da saudade aos que deixaram para trás, e do temor ao que acontecerá com eles, é neste momento que surge uma ligação de afeto, onde sentimos o que o outro sente, pois, como humanos, sofremos também, choramos, às vezes, nos ombros de quem acabamos de conhecer, ‘nos pontos de ônibus da vida’. Aí começamos a amar e agir, foi aí que comecei a agir, quando suas dores tornaram-se minhas também”.

Com as vendas do livro, o escritor destaca que já conseguirá ajudar a primeira família, repassando o dinheiro para ela na próxima semana. Mas enfatiza que ainda há mais nove crianças na fila de espera, aguardando que as vendas tenham rendimento.

“Não quero que as pessoas me intitulem como o ‘herói branco’, compreendo que isso é recorrente. Mas tudo o que faço é com consciência de que, devido aos privilegiados de minhas origens, ‘de um sobrenome com muitas consoantes’, tudo o que conquistei foi muito fácil e rápido, e, à medida que descubro as histórias daqueles que não compartilham dos mesmos privilégios que eu, tenho mais certeza ainda de que a minha vida é, de fato, privilegiada. Por isso, quero compartilhar com eles esta oportunidade, com essa consciência. Sei que pode parecer demagogia, à medida que há brasileiros com muitos problemas também, mas, creio que ações conjuntas em diferentes segmentos populacionais podem mudar não o mundo inteiro, mas pequenas realidades ao nosso redor” finaliza.

Sobre a obra

O romance infanto-juvenil conta a história de Marília, uma bondosa senhora que mora em frente ao 9° poste da XV de Novembro, uma rua muito famosa de Joinville. Professora de língua portuguesa, em uma das aulas, ela conhece Mahaila, uma menina haitiana que havia acabado de chegar ao Brasil, e que expressava profunda melancolia em seu olhar.

Capa do livro 9° poste da XV de Novembro. Foto: Divulgação

Como forma de compreender o que acontecia com a menina, a professora a convida para um café com demais quitutes catarineses. E são nessas visitas que Marília volta ao passado, revelando à menina que também, um dia, teve que deixar sua terra para viver no Brasil, que teve que deixar seus tão amados amigos por lá, a quem correspondeu em cartas durante anos, contando as peculiaridades do novo país, do carnaval ao bolinho de chuva.

Aos poucos, aquele mesmo país tornava-se perigoso, com as restrições do governo brasileito que proibia a menina Marília de ser ela mesma, assim como sua família e a todos que compartilham das mesmas origens que ela. Quando a guerra chegava em todos os cantos do planeta,  ela descobre naquele poste em frente à sua casa o contador de todos os segredos daquele mundo em conflito, como uma magia que sempre acompanhou a imaginação das crianças.

Para os leitores que quiserem adquirir a obra e ajudar na campanha do escritor, clique aqui.

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Texto: Redação

1 Comment on "Escritor de SC reverterá vendas de livro em passagens para crianças haitianas reencontrarem seus pais no Brasil"

  1. ROSMEIRE MARIA TEDALDI | 08/02/2021 at 11:00 am | Responder

    Fiquei interessada em adquiri o livro, onde posso encontra-lo.

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