Em Garuva, mãe haitiana conta sobre último abraço que deu na filha há quatro anos

Hoje, há uma mãe moradora do Centro de Garuva que saiu, um dia, para trabalhar, em busca de um futuro melhor para a filha de um ano e dois meses. No colo da avó, onde a criança ficou, houve choro sentido após um abraço bem forte dado por sua genitora. “Ela me chamava chorando: ‘mama, mama!'”, lembra Diquana Datilus Nozier, de 28. A despedida era para ser um breve até logo, um logo que arrastasse por quatro anos

É comum ouvir de mães, principalmente, mães de bebês que, dificilmente, conseguem ficar por muito tempo longe de seus pequenos, que procuram seus braços e abraços, “colo de açúcar”, como costumam dizer. Elas apurando-se na hora do banho quando, do outro lado da porta, ouve-se um solo de choros conhecidos; na hora de preparar a papinha quase morna, com assopros apressados; do trabalho, quando pensam ansiosas nos últimos minutos que faltam para tê-los no colo novamente, sentindo seus cheiros, dos melhores aos nem tanto assim.

Hoje, há uma mãe moradora do Centro de Garuva que saiu, um dia, para trabalhar, em busca de um futuro melhor para a filha de um ano e dois meses. No colo da avó, onde a criança ficou, houve choro sentido após um abraço bem forte dado por sua genitora. “Ela me chamava chorando: ‘mama, mama!'”, lembra a haitiana Diquana Datilus Nozier, de 28. A despedida era para ser um breve até logo, um logo que arrastasse por quatro anos.

Diquana não vê a filha Keyscha há quatro anos. Foto: Herison Schorr

São, aproximadamente, 5.593 km que separam mãe e filha há cerca de 1460 dias. Diquana deixou a filha Keyscha, e o Haiti, em 2017, para dar à ela uma chance de vida melhor, em meio à crise gerada pelo terremoto de 2016, que abalou o país.

Assim que chegou no Brasil, soube que a filha adoeceu devido a saudade que sentia da mãe. “Teve febre…”, afirmou com o pouco português que consegue expressar. Ao desembarcar neste país, passou a procurar emprego em muitas cidades, que também vivenciavam uma crise nas ofertas de trabalho, principalmente, em grandes metrópoles. Com um bico ali e aqui, foi em Garuva, no ano passado, que foi contratada definitivamente, para trabalhar na cozinha da Pizzaria Comilão, Centro do município.

Como muitos haitianos, as primeiras rendas conquistadas são para a compra de um celular, o único meio que ameniza um pouco a saudade por aqueles que ficarem para trás, como Keyscha, com quem conversa todas as terça-ferias, durante quatro horas.

Mãe e filha mantém vínculo afetivo pelo celular. Foto: Herison Schorr

Pelo aparelho, mãe e filha acompanham a rotina uma da outra, mesmo tão distantes. E até os mesmos gostos, como as tranças nos cabelos. Porém, devido a ausência de Diquana, o coração da jovem mãe despedaçou com uma constatação: “Não reconhece mais, como mãe, chama avó de mãe. A vó ensinava: essa é mama, essa”, contou a haitiana sobre as constantes explicações que a avó, agora, chamada de mãe pela neta, hoje com cinco anos, saiba que a verdadeira mãe sempre esteve ali, do outro lado da telinha do celular. Uma mãe que nunca esqueceu da filha, acompanhando-a de longe em seus momentos marcantes, como seu primeiro dia de aula. Um a mãe que opta por não pensar na saudade, para ela não tornar-se ainda mais presente em sua vida., como destacou.

Um novo olhar de uma nova mãe

Bruna Money auxilia o marido na administração da pizzaria e viu em Diquana uma mulher prestativa que buscava trabalho. Mesmo não sabendo falar muito bem a língua portuguesa, optou por sua contratação.

Nos primeiros meses de trabalho, a patroa observou que havia muita história por trás daquela mãe, uma história que foi contata aos poucos, à medida que a haitiana aprendeu a falar a língua portuguesa e criar intimidade com as colegas de trabalho.

Bruna, atualmente grávida, observa em Diquana as atitudes que uma mãe pode ter para dar uma vida melhor ao filho. Foto: Herison Schorr

Hoje, grávida, Bruna observa na dor da colega um sentimento único do que é ser mãe, e das renúncias dolorosas que elas fazem pelo bem dos filhos, à medida que vê sua barriga crescer. “Para uma pessoa tomar uma atitude dessas, que não é fácil. Deixar um filho para trás, provavelmente, estava muito difícil a situação, ela queria dar um futuro melhor para a filha”, finalizou.

À espera

Tão importante quando a compra do celular, para resgatar os vínculos com familiares, é o dinheiro mandado para suprir suas necessidades, cerca de 100 dólares mensais, como no caso de Diquana.

Outro valor valioso para a haitiana e seu marido, é a arrecadação do dinheiro necessário para comprar a passagem da filha, e trazê-la a Garuva, o maior sonho da mãe. A espera tornou-se um pouco mais longa, devido a pandemia da Covid-19 que, no momento, suspendeu a emissão de vistos.

Ainda faltando os valores suficientes e a regularização da viagem, Diquana espera que no próximo Dia das Mães, o abraço doloroso e apertado que um dia deu em um bebê venha, agora, com muita felicidade, dos braços de uma menina, sua menina.

Texto: Herison Schorr

Jornalista formado pela Faculdade Bom Jesus Ielusc

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