Em Garuva, idosa armazena água da chuva por não ter acesso à água potável

Maria de Lourdes da Silva, de 67 anos, afirma que a fonte que utilizava secou há dois anos, e o poço perfurado em seu quintal apresenta água barrenta; Prefeitura de Garuva se manifestou sobre o caso

Após o meio-dia, quando o frio ainda não está presente, uma grande tigela com água é colocada numa chapa, tão escurecida pela fumaça quando o recipiente sobre ela. O fogo é aceso, com galhos que a aposentada Maria de Lourdes da Silva, de 67 anos, ainda consegue colher nas florestas da localidade de Mina Velha, em Garuva; as dores nas pernas e nas costas tornaram-se visitas constantes.  Toalha, um sabonete e roupas limpas são pendurados próximos, no que parece ser a continuidade de um puxadinho improvisado, sem paredes e longe de requintes. Enquanto amontoava, ao lado, algumas garrafas pets cheias de água, a senhora deixa escapar entre as tosses que tornaram-se frequentes: ”Aqui eu tomo banho”, revelou em entrevista ao Folha Norte SC

Local onde Maria do Nascimento toma banho e lava suas roupas. Foto: Herison Schorr

Dona Maria está entre os 35 milhões de brasileiros que não têm acesso à água potável, segundo levantamento de 2021 do Instituto Trata Brasil. No município consagrado como ‘Paraíso das Águas’, para utilizar-se destas águas e saciar a sede, o banho, a roupa limpa e a comida cozida, a aposentada usa a água da chuva, que cai do telhado e é represada em inúmeras bacias no lateral da casa onde vive sozinha, de favor.

Com um sorriso constrangido, revela outra questão: a toma sem nenhum tipo de tratamento, nem fervura.  Nos dias sem uma gota que cai do céu, Maria comenta: “Quando não tem, um rapaz vai pegar água pra mim beber. A gente tinha saúde, a gente ia lá em cima pegava água e voltava, agora não aguento mais, não”, lamenta. 

Idosa armazena água da chuva em garrafas pets. Foto: Herison Schorr

No interior da casa, no lugar de forro, há pedaços de lençol, colocados por ela mesma, diz orgulhosa e sobre a necessidade: “Pra me proteger dos morcegos”. Há cozinha com pia, mas sem torneira; há banheiro com privada, mas sem chuveiro, e a descarga é improvisada com baldes de água, que são despejados dentro dela.

Em seu quintal, destaca-se um poço com água “amarela e fedida”, acrescentou. De acordo com a moradora, o poço foi aberto pela Prefeitura de Garuva, há cerca de dois anos, mas a água, barrenta, não serviu; segundo ela, nem para lavar as roupas. Mesmo com as solicitações, Maria conta que não houve retorno do poder público para sanar seu problema.

 

Considerada uma mulher da roça, orgulhosa, Maria lembra com saudade dos tempos prósperos em sua pequena chácara, localizada na rua do 15, quando a abundância da água vinha direto de uma fonte, na serra. Porém, nos últimos anos, a fonte secou. Teve que se desfazer dos porcos, galinhas e patos, pois não haveria água para todos. 

Maria afirma que utiliza cinco garrafas pets de água por dia para sanar suas necessidades. Foto: Herison Schorr

Em visita à casa da vizinha, Lucia Ferreira dos Anjos, 40 anos, conta que também já teve sua rotina mudada com a falta de água, após o poço da família também secar nos períodos de estiagem. Durante esse período, ela afirma que contou com a ajuda de dona Maria, com incontáveis galões que vinha buscar em sua casa. “Agora, graças a Deus, a gente tem”, afirma Lucia que retribui o favor à idosa.

Celia Cristina da Silva do Nascimento é uma das sete filhas de Maria. A do lar lamenta a forma como a mãe vive e as inúmeras vezes que a convidou para morar no Centro com a família, um pedido em vão. “Ela vem aqui três dias e fica nervosa, e quer ir embora, eu falo: ‘fazer o quê lá, nem água tem?”, conta. A filha sugere que, por sua mãe ter nascido e vivido desde então no interior, não consegue se acostumar com a vida na cidade, deprimindo-se com a rotina. “Ela diz que prefere ficar na casa dela mesmo caindo aos pedaço”, conta.

Baldes armazenando água da chuva. Foto: Herison Schorr

Desta forma, Celia enfatiza que, o essencial para a mãe ter uma vida de qualidade, é a necessidade de um poço com água potável. “Se conseguísse o poço, já estaria muito feliz. Se Deus quiser, vai dar tudo certo”, comenta.

Em nota ao Folha Norte SC, a Prefeitura de Garuva informou que referente ao caso citado, foi realizada a construção de um poço pela Secretaria de Estratégias Rurais, Infraestrutura e Urbanismo, onde foi colocado uma bomba, porém em determinado momento o poço apresentou pouca água e a moradora, com medo de danificar a bomba, retirou e guardou, ficando o poço inoperante.

Moradora vive há 15 anos na localidade Mina Velha. Foto: Herison Schorr

A Secretaria de Saneamento Ambiental foi até o local, acompanhado do corpo técnico da pasta, onde foi avaliada a área e verificou-se a necessidade de novas melhorias no poço, como a reinstalação da bomba, restabelecer a fiação elétrica e colocar uma caixa d´água para que a moradora possa ter esse armazenamento de água.
Será agendado nova vistoria na próxima semana para definição de início das melhorias.

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Texto: Herison Schorr

Jornalista formado pela Faculdade Bom Jesus Ielusc

1 Comment on "Em Garuva, idosa armazena água da chuva por não ter acesso à água potável"

  1. Ótima iniciativa da secretaria para resolver essa situação,vamos esperar que se de continuidade no processo e não fique so no papel,,,🙌🙏👍

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