Em fotos, descubra os segredos da cerimônia que apresentou um bebê de Garuva à Iemanjá

Seus pais, a técnica em enfermagem Isabel Cristina Pereira, de 37 anos, e o soldador Deive Jackson Belegante, de 35, moradores de Garuva e adeptos da religião de matriz africana revelaram ao Folha Norte SC os detalhes da celebração realizada em Itapoá

A essência da Umbanda foi eternizada em fotografias sob o olhar de Tadeu Vilene, que registrou a apresentação do pequeno Antônio Miguel, de dois meses, à Iemanjá, Orixá que rege as águas. 

Seus pais, a técnica em enfermagem Isabel Cristina Pereira, de 37 anos, e o soldador Deive Jackson Belegante, de 35, moradores de Garuva e adeptos da religião brasileira de matriz africana, revelaram ao Folha Norte SC os detalhes da celebração realizada em Itapoá.

Foto: Tadeu Vilene

Ao chegarem na praia escolhida para a apresentação, Isabel conta que o grupo presente pediu permissão ao Exu Maré, entidade guardiã do local, para adentrarem e realizaram a cerimônia. Em seguida, saudaram Ogun Beira Mar e, depois, Iemanjá. 

Foto: Tadeu Vilene

“Aí, a médium Mãe de Santo, que estava presente, chama a entidade que, no caso, foi a Cigana Rosa, que continua a apresentação”, explica a técnica em enfermagem.

A entidade, que representa o povo cigano pela linha umbandista do Oriente, incorpora na médium e saúda a rainha do mar. Dando sequência à cerimônia, ela passa mel – que representa a prosperidade do povo cigano – na cabeça da criança, pedindo que a vida dela também seja próspera. 

Foto: Tadeu Vilene

Após, busca uma concha da praia; com ela, retira um punhado de água do mar e derrama nos cabelos do pequeno Antônio. 

Foto: Tadeu Vilene

O rito é repetido com água doce para que não ficassem resíduos de sal na cabeça do bebê, “e pedindo a Oxalá – Jesus Cristo na linha umbandista, segundo Isabel – para se fazer presente na vida da criança também”, complementa.

A cerimônia é acompanhado por um padrinho – de bata branca – escolhido pelos pais para repassar os conhecimentos da Umbanda para o filho, ao longo de sua vida. “E ele – o padrinho – é um 7 linha. Na nossa religião, 7 linhas significa que a pessoa já tem um desenvolvimento dentro das sete linhas de Umbanda, e sete linhas significa as sete manifestações de Deus na terra”, informa Deive.

Foto: Tadeu Vilene

Para encerrar, a entidade saúda os presentes, se despede, e deixa o corpo da médium. “Depois, pedimos permissão para ir ao mar, batemos a cabeça, nos despedimos e vamos embora”, conta a mãe do bebê.

Foto: Tadeu Vilene

Isabel explica que, por Iemanjá ser uma energia, ela já conhece a criança desde sua concepção,  “mas levar até o mar e apresentar é a forma que a gente tem de dizer pra ela que a criança está nos cuidados dela”, informa. 

Orgulhoso, o pai Deive destacou que foi a primeira vez que participou de uma celebração como esta, onde seu bebê foi protagonista. “Senti muitas vibrações maravilhosas, como se os Orixás estivessem ao seu lado te dando força”, enfatizou.

A escolha de Iemanjá para a primeira cerimônia de Antônio na Umbanda também faz referência à ancestralidade da humanidade, como explica Isabel. “Ela é a mãe de todos, porque a vida começou no mar e dele vem alimento e a vida, por isso a criança é apresentada à ela quando nasce”, disserta sobre a entidade que rege as crianças até os 7 anos. 

Foto: Tadeu Vilene

Outra questão especial para a escolha da rainha umbandista das águas, é o fato de Iemanjá ser o Orixá pessoal de Isabel, que pode, ou não, ser também de seu filho, algo que saberão em alguns anos, com uma consulta de búzios. 

A mãe suspeita que seu filho poderá ser regido por Ogun – Orixá responsável por abrir os caminhos e ensinar a tecnologia à humanidade – , pois pediu ao plano astral sua proteção à criança, antes dela nascer. “Não significa que ele será filho de Ogun, mas existe uma grande chance”.

Foto: Tadeu Vilene

Ao longo dos dias, o bebê passará por outras cerimônias de apresentação, como em uma cachoeira, para saudar Iemanjá na linha dos caboclos, entidades genuinamente brasileiras, e para os demais Orixás, no terreiro onde os pais frequentam, localizado no Rio Bonito, em Joinville

Incorporação inexplicada e iniciação à Umbanda

Isabel lembra que, tradicionalmente, foi criada no catolicismo. “Tinha muita afinidade e devoção aos Santos da Igreja Católica. Porém eu tinha uma perspectiva muito diferente da igreja, do que era a espiritualidade”, destaca. 

Após ser abalada por um fenômeno mediúnico, buscou respostas em outra denominação religiosa. “Um dia, eu tive uma incorporação por acidente e a Igreja Católica não conseguiu resolver, então fui até um centro umbandista, pois não estava entendendo o que estava acontecendo comigo. Quando cheguei lá, me encontrei por inteiro”, revela. Para ela, as dúvidas sobre sua existência e missões neste mundo foram sanadas pela Umbanda, no ano de 2014, quando fez sua iniciação ao terreiro. 

Já Deive, conta que seu primeiro contato com a religião foi quando conheceu Isabel e começou a namorá-la. Também nascido em berço católico, de primeiro momento, ele revela que sentiu receio quando a parceira havia comentado ser adepta à Umbanda. “Achava que ela ia fazer trabalho para mim”, lembra humorado. Mas, quando teve a oportunidade de conhecer o terreiro, começou a entender seus preceitos.

Hoje, o solador afirma que a religião lhe completou e o faz sentir bem espiritualmente. “Foi na Umbanda raiz que eu me encontrei, e meu babalorixá –  chefe espiritual e administrador de uma casa de Umbanda – Henrique está me guiando, e no terreiro que eu frequento meus irmãos de fé são maravilhosos”, conta Deive que descobriu-se filho de Oxalá e Iansã e tornou-se Ogan de sala, realizando o trabalho de assistência aos que visitam o terreiro.

Foto: Tadeu Vilene

O casal, que são pais de mais quatro adolescentes, enfatiza que a permanência do caçula na Umbanda será uma escolha dele. “Eu não me apego a isso, por mim, eu vou ficar muito feliz se ele seguir, mas, se ele não se sentir bem dentro da religião, eu prefiro que ele seja feliz”, encerra Isabel.

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Texto: Herison Schorr

Jornalista formado pela Faculdade Bom Jesus Ielusc

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