Em crônica, jovem descreve resgate após ataque de cobra venenosa no Monte Crista

O acidente, que ocorreu na noite de 24 de março de 2017, ganhou os noticiários locais devido à dificuldade dos bombeiros para o resgate

No mês de setembro o município de Garuva registrou três ocorrências com picadas de cobras venenosas. Uma das vítimas não resistiu ao veneno e acabou morrendo. As constantes informações sobre o aparecimento destes animais peçonhentos fez a customer success manager Leticia de Souza Mett, de 25 anos, reviver um passado assustador que vivenciou em março de 2017, quando foi atacada por uma jararaca e precisou ficar internada na UTI do Hospital São José, em Joinville. O acidente, que ocorreu na noite de 24 de março, no Monte Crista, ganhou os noticiários locais devido à dificuldade dos bombeiros para o resgate. A história, rendeu uma crônica, escrita por Leticia no mesmo ano.

Após o acidente, Leticia fez uma tatuagem de cobra para lembrar do dia. Foto: Acervo

Estávamos iniciando a trilha do Monte Crista por volta das 22h. Queríamos otimizar tempo para fazermos a travessia até Garuva, por isso iniciamos na sexta-feira. Lembro de sentir que não era para ter ido, vários sinais me mostraram isso. Conto mais em outro momento. Ao chegar em uma parte da trilha mais conhecida como saboneteira, ela estava molhada por conta das fortes chuvas nas semanas anteriores. Tinham muitas aranhas que eu e o Leandro (seu ex-namorado) íamos admirando, foi quando ele viu a maior de todas e parou para me mostrar. Fiquei tão admirada e ao mesmo tempo assustada, com o tamanho daquela aranha! 

Ao dar um passo para trás, senti tão profundamente uma ferroada que é impossível descrever em palavras. Nesse momento bati com a mão no meu calcanhar direito para instintivamente tirar ela dali (achava que era uma aranha). Quando levantei minha mão lá estava ela pendurada através dos seus ferrões em meu dedo, ergui minha mão até a cintura e ela ainda arrastava com sua cauda no chão. A cobra era tão grande e bela, tinha um verde fluorescente e reluzia em meio a escuridão daquela noite. Leandro é mateiro, sabia desde o começo que era uma jararaca, nunca tinha o visto tão apavorado. Eu nunca teria pensado em matar aquele ser lindo. 

Foi quando ele pegou o bastão de caminhada e enfiou na cabeça da jararaca. Naquela noite tinha sinal na trilha no Crista, peguei meu celular e mandei um áudio para o Alan, do GRM (Grupo de Resgate na Montanha). Naquela época, estávamos frequentando reuniões com a AJM (Associação Joinvilense de Montanhismo), então, a comunicação foi rápida e assertiva. Alan disse para eu não me preocupar, foi um animal que me envenenou e eu teria que ser forte. (não foram essas palavras mas é o que sinto ao relembrar o fato). Enquanto isso, Leandro correu até achar um sinal mais forte para ligar para o 190. Até então, ele tinha me dito ser uma cobra sem veneno e quando, no viva voz a moça perguntou qual era o animal que me picou, ele me olhou nos olhos e disse ser uma jararaca. Eu gritei. 

A sensação era que o mundo ia se desabar. Choro ao lembrar de todo cuidado que o Leandro teve comigo naquele momento. Eu queria me acalmar. Vinho ou chocolate? O que pode ser usado nessas situações? Comi uma barra de chocolate sozinha. Eu iria me lembrar dela mais pra frente. Naquele momento foi o que me acalmou. Me abaixei, olhei a picada, ainda estava saindo um líquido transparente. Logo em seguida muito sangue, tentei limpar. Puxei minha legging pra cima, a minha perna já estava inchada. Coloquei minha mochila nas costas e comecei a descer, na minha cabeça foram muitos quilômetros andados sozinha, mas o Leandro em um outro momento me disse que eu dei um passo e caí no chão. Me lembro de cair no chão, mas achei que estava mais forte. Força, essa é a palavra que não saía da minha cabeça. Muita tontura, minha perna já não se firmava no chão sozinha, o gosto do veneno em minha boca é uma das sensações que não consigo esquecer. 

Espaço publicitário

Certo tempo depois, os bombeiros chegaram. Quatro rapazes simpáticos e que mudaram minha vida, talvez eles não se deem conta que as piadas deles fizeram toda diferença naquele momento. Eu sou uma grande mulher, no sentido literal e figurado. Dois dos meninos eram menores que eu, então, eles não conseguiriam me carregar. Urbano (escalador e montanhista, hoje, amigo) e Marcos (amigo de longa data do meu tio em Garuva) me carregaram, cerquei meus braços neles e assim me levaram. Estava muito escorregadio. 

Foto retirada do momento do resgate de Leticia. Foto: Acervo

As botas lisas deles não ajudaram muito, eu, generosamente, tentava apoiar o pé no chão para ajudar. “Ainda bem que nos alimentamos bem com aquele cachorro-quente”, diziam, eu ria. Chegou a um certo ponto que já estávamos cansados. Eles me tiraram da saboneteira. Pegaram o facão do Leandro e fizeram uma maca pra mim com a jaqueta. “Por que nós é tudo roots” diziam, eu ria mais um bocado. Foi quando avistamos o GRM, tão freneticamente chegaram que me assustei. Talvez ali tenha caído a real de quão grave era aquela ocorrência. 

Esticaram uma maca bem moderna na trilha, ali me colocaram. Eu estava tremendo, um abençoado me deu chá quente e me cobriu com uma manta térmica. Queriam tirar fotos, o Leandro só queria sair dali. Nesse ponto eu já não estava em mim. Maicon foi um dos únicos a se apresentar, ele disse ser enfermeiro do São José, perguntei quantos dias eu teria que pegar atestado e ele disse que no máximo dois dias. Me acalmou. Minha única preocupação naquele momento era em perder o meu emprego. Ele me deu soro, e começamos a descer. Nunca imaginei que iria sair do Crista um dia daquele jeito, carregada. 

Olhava as estrelas e imaginava o que eu poderia ser sem uma perna. Foi um momento de muita reflexão interna, me mantive firme na positividade de sempre. O rio que atravessa para ir até a trilha do Monte Crista estava até a cintura. Lembro da união dos rapazes ao me atravessar. De todos, foi um dos momentos mais marcantes pra mim. Eles aceitaram todas as diferenças entre eles, para me salvar. Quando cheguei na base tinha um carro esperando para me levar até o senhor Hary, onde uma ambulância estava à minha espera. Senhor Bladior amarrou o cinto e disse que tudo iria ficar bem. 

Perna inchada de Leticia. Foto: Acervo

Antes que me perguntem porque não foram de helicóptero, o clima ainda estava instável e com probabilidade de chuva. Na ambulância, minha perna batia com o impacto dos buracos, nunca senti tanta raiva disso aqui em Joinville. Me levaram ao Hospital Regional, vomitei o chocolate. Tinha muita gente berrando, uma mulher com problemas mentais brigava comigo e com o Leandro porque fomos atendidos antes dela. Me trocaram de maca, disseram que ali estava lotado. 

Pedi uma tesoura, minha legging estava fazendo torniquete no meu joelho. Minha perna já estava extremamente inchada. Me levaram para o São José. Lembro de 10 pessoas ao meu redor. Leandro se afastou. Apaguei. Acordei às 10:30h do outro dia, lembro disso pois era o momento do almoço lá no São José. Estava tão feliz que eu não consigo descrever pra vocês. Minha perna doía demais, mas a alegria de estar viva era único pra mim. Pedi um almoço. Lembro da enfermeira brigar comigo, pois não queria limpar vômito. Eu só queria comer porque tinha feito uma trilha na noite anterior. Não vomitei. Fiquei três dias na UTI do São José. Uma senhora morreu do meu lado. Maicon ia quase todos os dias falar comigo, ele lia meus prontuários. Depois de mais de duas semanas internada, fui pra casa. Ainda não colocava o pé no chão. 

Letícia internada no Hospital São José. Foto: Acervo

Minha perna inchada passou para roxa e assim surgiu uma infecção no local, eu fiquei apavorada. Chegando no Hospital São José novamente, Maicon disse que era normal por conta dos bichos que a cobra come. Foi a sensação mais dolorosa do mundo aquele corte e o tubo que colocaram para drenar todo líquido. Fiquei mais uma semana com o tubo e voltei para retirar. Três meses depois eu coloquei o pé no chão. E não ficaram sequelas, como a internet dizia. Estou aqui para quebrar os tabus referente a picada de cobra. Hoje faço drenagem mas por que tenho retenção de líquido naturalmente e gosto de me cuidar. Diante de tudo o que aconteceu é o mínimo que posso fazer por mim”.

Leticia ao receber alta. Foto: Acervo

Sem sequelas, Leticia atualmente vive apenas com as lembranças da fatídica noite, além de uma tatuagem que fez referente ao animal peçonhento que marcou sua vida.

Texto: Herison Schorr

Jornalista formado pela Faculdade Bom Jesus Ielusc

Siga o Folha Norte SC e receba mais notícias de Garuva e região

Seja o primeiro a comentar

Deixe um comentário

Seu email não será publicado


*