Dados inéditos mostram migração de grandes baleias no Atlântico Sul

Baleia-azul, baleia-fin, baleia-sei e baleia-minke-antártica estão entre as espécies estudadas

As baleias estão entre os maiores animais que já existiram na face da terra. Podemos considerá-las “pesos pesados”. Tudo nas baleias é superlativo, inclusive seus movimentos. Anualmente, elas percorrem de 3 a 4 mil km (e repetem isso na volta) em uma migração entre áreas de reprodução em regiões tropicais, como o Brasil, até regiões frias, que são áreas de alimentação, como a Antártida.

São animais que necessitam de um gigantesco espaço, que atravessa as fronteiras entre países, para se desenvolver: os oceanos. Também são considerados espécies-chave, ou seja, se são retirados de um ecossistema, diversas alterações podem ocorrer, inclusive outras espécies deixarem de existir.

As baleias são consideradas recicladoras de nutrientes: ao se alimentarem e depois defecarem, elas tornam parte dos nutrientes que estavam em seu alimento disponíveis para outros organismos. Pode parecer estranho, mas é verdade: são as fezes das baleias que sustentam, por exemplo, a diversidade de peixes e de outros organismos, como o plâncton! Mesmo depois de morrerem, as baleias ainda são importantes para os seres vivos do mar. Suas carcaças se transformam num “oásis de biodiversidade”, onde inúmeros animais vêm se alimentar.

O Projeto de Monitoramento de Cetáceos da Bacia de Santos (PMC-BS) vem há 6 anos apresentando descobertas relevantes para a ciência. De acordo com o coordenador técnico do projeto, o biólogo Leonardo Wedekin, o PMC-BS tem produzido, por exemplo, dados inéditos sobre migrações de baleia-azul, baleia-fin, baleia-sei e baleia-minke-antártica.

Imagem da baleia-azul (Balaenoptera musculus). Ao fundo, o barco principal de pesquisa (Sea Route) do PMC-BS. Foto: (PMC-BS)


Registros Raros
O PMC-BS fez 7 registros raros até então (4 em 2017, 1 em 2019 e 2 em 2020) de baleias-azuis (Balaenoptera musculus), considerado o maior animal da Terra e que pode chegar a mais de 30 metros de comprimento e pesar 180 toneladas. Os registros anteriores dessa espécie criticamente ameaçada de extinção na costa brasileira datavam da década de 1960. Somente dois registros de animais vivos haviam sido realizados no Brasil neste século, sendo estas as primeiras avistagens para a Bacia de Santos.
 
Mapa com deslocamento migratório da baleia-azul

Entre 2015 e 2021, o projeto marcou com transmissores satelitais 2 baleias-azuis, 1 baleia-fin e 15 baleias-sei. Estas 3 espécies estão classificadas em nível mundial e nacional como ameaçadas de extinção. As grandes baleias foram muito caçadas no século passado, causando uma diminuição drástica de sua população. Estima-se que elas podem viver até 80 anos. “Os dados mostram que as populações estão crescendo e se recuperando”, aponta Leonardo.


Na foto, a baleia-sei está com um transmissor satelital fixado na nadadeira dorsal. Foto:(PMC-BS)


 
Mapa com deslocamento migratório da baleia fin

Em relação à baleia-sei, a observação de grandes grupos, de até 30 animais, causou surpresa aos pesquisadores, levando-os à conclusão de que esses cetáceos não só procuram as águas brasileiras para se reproduzir, mas também para se alimentar.

Outro dado recente foi um movimento migratório de baleia-minke-antártica, saindo da Bacia de Santos, passando pelas Malvinas e rumando para a Antártica. Até então, não se tinha nenhuma informação sobre a migração desta espécie no Atlântico Sul. O grupo formado por três baleias-minke-antártica, do qual um indivíduo foi monitorado por meio de um transmissor satelital, foi avistado ao largo da Ilha de Santa Catarina.

 
Imagem da baleia-minke-antártica (Balaenoptera boanerensis). Foto: (PMC-BS)

Tecnologia e colaboração
Um estudo colaborativo entre o PMC-BS e outras 23 instituições nacionais e internacionais detectou novos destinos migratórios da baleia-jubarte. Essa espécie é abundante na costa brasileira, onde se reproduz, e seu destino migratório conhecido era os mares ao redor das Ilhas Sandwich do Sul e Georgia do Sul.

Graças à uma plataforma colaborativa de comparação automatizada, utilizando inteligência artificial, de fotografias da nadadeira caudal de baleias-jubarte foi possível observar que essas baleias podem alternar as áreas de alimentação. Além dos destinos usuais da baleia-jubarte, este estudo mostra que vários indivíduos têm frequentado também a Península Antártica, o que era até então desconhecido.

 
Baleia Jubarte: esse animal foi observado em 17 de agosto de 2016 no litoral do Rio de Janeiro e revistado em 7 de fevereiro de 2019 na Península Antártica. Foto: (PMC-BS)

Conhecer para preservar
Neste Dia Mundial do Oceano – 8 de junho, destaca-se a importância do PMC-BS para a preservação do ecossistema marinho. A coleta de dados pelo PMC-BS durante os 6 primeiros anos da exploração do Pré-sal na Bacia visa conhecer melhor os animais que ocorrem na região e identificar interferências que eventualmente já estejam ocorrendo sobre as populações de baleias e golfinhos, permitindo avaliar possíveis impactos, seja de atividades de exploração e produção de petróleo e gás natural ou de outras atividades humanas, como transporte marítimo e pesca.

“No longo prazo, estes dados servirão para avaliar como as diversas atividades humanas realizadas no oceano impactam estas espécies que têm enorme importância ecológica para os ecossistemas marinhos”, projeta Leonardo.

O biólogo também destaca que o projeto permite estar em campo em uma área enorme (do tamanho da Alemanha), numa região pouco amostrada e com equipamentos de última geração. “Os cetáceos têm vida longa, mas taxa de reprodução bem lenta. Então, quanto mais informações tivermos no longo prazo em monitoramentos como o PMC-BS, melhor para termos um retrato mais apurado do ecossistema”, disse.

Sobre o PMC-BS
Projeto de Monitoramento de Cetáceos na Bacia de Santos (PMC-BS) é uma das ações definidas pelo Ibama no Licenciamento Ambiental das atividades de produção e escoamento de petróleo e gás natural da Petrobras na Bacia de Santos. O objetivo é conhecer a ecologia de baleias e golfinhos, para avaliar se há correlação dessas atividades com esses animais.

A região monitorada pelo PMC-BS vai de Florianópolis (SC) até Cabo Frio (RJ), cobrindo desde águas costeiras até oceânicas, atingindo uma distância de 350 km da costa e locais com lâmina d’água com mais de 2 mil metros de profundidade.

O projeto utiliza vários métodos para buscar conhecer as populações de golfinhos e baleias: transecções lineares (malha de linhas amostrais distribuídas de forma regular pela área) em campanhas de avistagem embarcada e aérea para registro das espécies e contagem de indivíduos, estimativa de abundância e distribuição, seja a partir de barco ou de avião; Monitoramento Acústico Passivo (MAP) para gravação e identificação de sons de baleias e golfinhos; marcação com transmissores satelitais (Implantáveis e do tipo LIMPET, com âncoras de fixação no animal) e arquivais rádio-transmissores (DTags e Cats, que se fixam no animal por meio de copos de sucção) para buscar conhecer os deslocamentos, a distribuição, a migração das espécies e o uso dos ambientes por estas; coletadas de biópsias para análises genéticas e de contaminantes/biomarcadores; e foto-identificação dos animais, seja para a identificação individual dos animais ou para a identificação de doenças e lesões na pele.

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