Conheça o atleta autista de Itapoá que é medalha de ouro no paralímpico nacional escolar de tênis de mesa

João Vinícius de Lucas, 15 anos, encontrou-se no esporte há cerca de 2 anos, quando sua mãe, a aposentada Edite Klamas, procurava uma modalidade para ensiná-lo a conviver em sociedade

Com apenas 40 dias de vida, João Vinícius de Lucas encontrou seu primeiro amor em meio aos braços e abraços afetuosos de uma mãe que deu à luz pelo coração. Um ano e meio depois, enquanto se desenvolvia, a genitora observava que havia algo diferente no filho, em seus jeitos tão diferentes dos jeitos dos outros. “Gritava, chorava e não aceitava muita alimentação, o carinho das pessoas…”, lembra a aposentada Edite Klamas, moradora do bairro Samambaial, em Itapoá. Com sete anos de vida, o menino foi diagnosticado com transtorno do espectro autista e transtorno de hiperatividade, além de déficit de atenção. 

Em busca de inserir o João na convivência social de Itapoá, a mãe optou por tentar ingressá-lo em vários esportes, como futebol e judô, mas, segundo Edite, não houve adaptação do menino. Em meio às tentativas, uma surpresa inesperada: “Até que ele se encontrou numa mesa de tênis de mesa, na escola onde ele estudava”, revelou. Ela pouco sabia, mas, a partir dali, João, hoje com 15 anos, iniciaria sua carreira no esporte, para tornar-se uma promessa nacional do tênis de mesa.

Jovem já conquistou série de campeonatos estaduais e nacionais de tênis de mesa. Foto: Herison Schorr

São, atualmente, de duas a três horas de treino, realizados em um galpão cedido pela Igreja Nossa Senhora dos Navegantes, na Barra do Sai.  Em dias que antecedem os campeonatos, os horários de treinos podem se estender até um dia todo.

Ao lado de seu instrutor, o professor Alan José Rezende da Silva, de 33 anos, o jovem já coleciona desde os 13 anos inúmeras conquistas em campeonatos estaduais e nacionais. Em 2019, chegou ao seu auge, até então: foi consagrado campeão nacional das Paralimpíadas Escolares 2019, em São Paulo, com duas medalhas de ouro, sendo uma em dupla e outra no individual.

Premiações em 2018

1° Lugar Individual – FESPORTE Fundação Catarinense de Esportes – Jogos Escolares
Paradesportivos de Santa Catarina – PARAJESC – Estadual Florianópolis / SC
2° Lugar Individual – CPB – Comitê Paralímpico Brasileiro – Paralímpiadas Escolares –
São Paulo / SP.

Gravação: Herison Schorr


Premiações em 2019

1° Lugar Individual – FESPORTE Fundação Catarinense de Esportes – Jogos Escolares
Paradesportivos de Santa Catarina – PARAJESC – Fase Estadual Maravilha Santa
Catarina.
1° Lugar Individual – Secretaria Municipal de Educação de Itapoá – Jogos Escolares de
Santa Catarina – JESC – Fase Municipal – Itapoá / Santa Catarina.
3° Lugar Individual – FESPORTE Fundação Catarinense de Esportes – Jogos Escolares
de Santa Catarina – JESC – Fase microrregional – Joinville / Santa Catarina.
1° Lugar Individual – CPB – Comitê Paralímpico Brasileiro – Paralímpiadas Escolares –
São Paulo / SP.
1° Lugar Equipes – CPB – Comitê Paralímpico Brasileiro – Paralímpiadas Escolares -São
Paulo / SP.

Segundo João, toda essa paixão pelo esporte veio, de fato, daquele primeiro encontro dele com a mesa do jogo, na escola Sistema COC de Ensino, onde estuda até então. “Fiquei apaixonado, fui longe e estou competindo ainda com o mesmo amor e vontade de como comecei”, afirma. Em seus planos estão a promessa de trazer resultados expressivos para Itapoá, e pensar nas competições fora do país. Outro objetivo revelado por João em entrevista ao Folha Norte SC é estudar educação física, especializando-se num mestrado e doutorado em uma universidade internacional para, posteriormente, realizar mais um sonho: ensinar.

João passa de duas a três horas treinando. Foto: Herison Schorr

O treinador Alan considera João um excelente atleta, no ponto de vista técnico e do talento. “É muito aplicado durante os treinos, sempre visando melhorar, corrigindo os erros”. Mas ele também não esconde: “Teimoso, às vezes, com relação à disciplina tática. Nas partidas, procura resolver os problemas e dificuldades por conta própria; são fases, não é? Mas isso não tem apenas o seu lado negativo. Eu vejo isso como uma característica de força, persistência, garra, determinação. João não é nem um pouco acomodado com as adversidades, sempre procura evoluir”, ressaltou.

Assim como em demais atletas, o treinador também observou a pandemia da Covid-19 prejudicar de forma sutil a evolução do aluno: “Ele estava em um ritmo excelente de treinamento, e aplicando de forma muito satisfatória dentro dos jogos e competições. Com a pandemia deu uma quebrada nesse ritmo, ficou um pouco assustado com tudo que estava acontecendo ao seu redor, como os casos de covid, pessoas morrendo…”, pontuou. 

Campeonatos da temporada 2021: uma expectativa

Sobre as competições futuras, o calendário nacional poderá retornar com as atividades no segundo semestre, como comenta Alan. Mas, o estadual, estima-se que haverá uma competição do circuito catarinense de tênis de mesa já em junho.

O treinador explica que, para esta competição, nem sempre é possível reunir os atletas do Estado na classe 11, e, então, para que haja competição em alguns momentos, “é necessário realizar o que chamamos de open paralímpico, neste sentido, são agrupados todos os atletas com deficiência (física e intelectual), então, o nível técnico da competição cresce muito”, enfatiza. Para Alan, este campeonato será uma espécie de ‘termômetro’ para avaliarem de qual ponto os atletas retornaram com as paralisações.

O desenvolvimento de atletas paralímpicos

Alan analisa a dificuldade do desenvolvimento de atletas com deficiência intelectual no país, devido os critérios de classificação para competições. De acordo com o treinador, estes atletas passam pelos critérios de elegibilidade, que precisa ter um q.i. de até 75 pra classificação nacional, para ser considerado um atleta elegível e poder participar das competições.

“Essa classificação nacional é obtida através de aplicação dos testes de wisc III – o psicólogo é quem faz este diagnóstico -. A partir deste relatório, com base nos dados coletados, o psicólogo faz a avaliação das áreas de inteligência e o grau de comprometimento. Isto é feito e encaminhado para a CBDI, extinta ABDEM – que são as entidades que administram os esportes para pessoa com deficiência intelectual no nosso país -. Entretanto, esta classificação é válida apenas para eventos nacionais. Quando o atleta atinge um nível de disputar competições internacionais, ele precisa passar por uma nova classificação, com critérios mais complexos. É neste ponto em que me refiro sobre a dificuldade de conseguir esta classificação funcional internacional, dado à escacasses de competições aqui no Brasil e na América latina”, explica.

Em resumo, Alan exemplifica que João pode ser reconhecido como deficiente intelectual segundo os parâmetros nacionais, mas, para parâmetros internacionais, não. “Aí é o que acaba frustrando o atleta, pois nem nas competições nacionais ele não poderia participar”, afirma.

Outra questão que pode frustrar os planos de uma carreira internacional para João, são os poucos campeonatos do esporte na região, além da falta de recursos para o financiamento de passagens e estadias.

“As competições internacionais são bem escassas no nosso continente, não havendo outra solução a não ser ir pra Europa, Ásia. E, infelizmente, esta situação está um pouco distante da gente. Não pela falta do nosso talento, ou esforços empregados, mas pela questão ainda de falta de incentivo nas mais variadas esferas”, lamenta.

Foto: Herison Schorr

Trilhando o caminho de outra promessa

Alan acredita que João, ainda que de uma forma mais lenta, está trilhando o caminho de Paulo Henrique Gonçalves, ex-atleta de Itapoá que hoje atua pelo clube de Bauru, no ano em que saiu da Associação Esportiva e Paradesportiva de Itapoá (Asepi). Hoje, ainda em busca de uma vaga para as Olimpíadas de Tokyo, Paulo irá participar de uma competição no início do mês de junho, na Eslovênia. 

Enquanto caminha rumo às promessas de inúmeras vitórias, João terá ao seu lado a companhia do treinador e da mãe orgulhosa pelo desempenho do jovem. Para ela, é gratificando todo o esforço oferecido para que o filho encontrasse sua nova paixão, e aconselha: “Não desista de seus filhos, nada é impossível, eles precisam de um estímulo. Com o João, aprendi algo que, às vezes, o ser humano esquece: a paciência”, finaliza.

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Texto: Herison Schorr

Jornalista formado pela Faculdade Bom Jesus Ielusc

3 Comments on "Conheça o atleta autista de Itapoá que é medalha de ouro no paralímpico nacional escolar de tênis de mesa"

  1. Ótima matéria, não tinha conhecimento desse atleta.
    Temos talentos que devemos valoriza-los

  2. João é um excelente atleta, tenho certeza de que seu caminho será de vitórias e sucesso, dentro e fora das quadras. Jovens promessas como ele existem aos montes país afora, e precisam de incentivo e apoio do governo para conseguirem alçar voos mais altos. Parabéns, João, estamos sempre na torcida!!!!

  3. Grande Garoto que Deus ilumine cada vez mais seus caminhos de vitórias

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