A Revolta da Vacina: quando uma população acreditou que teriam feições bovinas ao serem vacinadas

Pode não parecer, mas a resistência à vacinação é tão antiga quanto a própria existência dela. Atualmente, vivemos um debate nas redes sociais, que chega aos poderes públicos, sobre o uso ou não uso da vacina contra a Covid-19. E , no meio deste conflito, podem surgir argumentos que fogem nos quesitos técnicos científicos necessários para validar um imunizante, como inúmeras teorias conspiratórias e até mesmo suposições ‘estranhas’ como a ideia de que as pessoas se tornariam “jacarés” ao se imunizarem contra a Covid, algo difundido no ano passado e que rendeu uma série de memes, caindo no âmbito cômico.

Mas a imaginação fértil de uma suposta transformação anatômica sobrenatural, ou até mesmo as suposições de demais efeitos colaterais – sem respaldo científico – dos imunizantes, que surgiram ao longo da história para erradicar doenças, não é de hoje. Algo muito parecido ocorreu no Brasil no início do século XX. Conhecido pelos historiadores como A Revolta da Vacina, quando o governo regente tornou obrigatória a vacinação, o que gerou uma revolta sem precedentes da população que foi às ruas protestar. Houve mortes pelo conflito e pela explosão de casos da doença que era combatida na época: a varíola, mas, para entender melhor esse momento quase repetitivo da história brasileira, precisamos voltar ao passado e contextualizar.

Em meados de 1904, chegava a 1.800 o número de internações devido à varíola – doença advinda, primordialmente, de um vírus bovino que sofreu mutação tornando-se mais agressiva em humanos – no Hospital São Sebastião. Mesmo assim, as camadas populares rejeitavam a vacina, que consistia no líquido de pústulas de vacas doentes, algo descoberto na Inglaterra pelo médico britânico Edward Jenner (1749-1823) que viajou aos vilarejos de Gloucestershire após ouvir rumores de cura pela doença por um método estranho.

Constatou-se que trabalhadores que contraíram varíola bovina, que não é perigosa para os humanos, pareciam estar imunes à varíola. Para constatar isso, Jenner usou pus de lesões de varíola bovina de uma ordenhadora, chamada Sarah Nelms, e as esfregou em um corte no braço de um menino de oito anos, James Phipps. O menino não adoeceu, sofrendo apenas de dor de cabeça e perda de apetite por um tempo. Seis semanas depois, Jenner inoculou o menino com varíola humana, que não produziu efeito. James Phipps foi subsequentemente inoculado com varíola mais de 20 vezes em intervalos diferentes, mas não teve nenhum sinal da doença (Fonte BBC Brasil).

Mesmo com a comprovação científica da eficácia do método, no Brasil tornou-se esquisita a ideia de ser inoculado com esse líquido. E ainda corria o boato de que quem se vacinava ficava com feições bovinas.

No Brasil, o uso de vacina contra a varíola foi declarado obrigatório para crianças em 1837 e para adultos em 1846. Mas essa resolução não era cumprida, até porque a produção da vacina em escala industrial no Rio só começou em 1884. Então, em junho de 1904, Oswaldo Cruz motivou o governo a enviar ao Congresso um projeto para reinstaurar a obrigatoriedade da vacinação em todo o território nacional. Apenas os indivíduos que comprovassem ser vacinados conseguiriam contratos de trabalho, matrículas em escolas, certidões de casamento, autorização para viagens etc.

Após intenso bate-boca no Congresso, a nova lei foi aprovada em 31 de outubro e regulamentada em 9 de novembro. Isso serviu de catalizador para um episódio conhecido como Revolta da Vacina. O povo, já tão oprimido, não aceitava ver sua casa invadida e ter que tomar uma injeção contra a vontade: ele foi às ruas da capital da República protestar. Mas a revolta não se resumiu a esse movimento popular.

Charge surgiu durante a Revolta da Vacina para criticar autoridades que queriam imunizar obrigatoriamente a população da época. Foto: Acervo

Toda a confusão em torno da vacina também serviu de pretexto para a ação de forças políticas que queriam depor Rodrigues Alves – típico representante da oligarquia cafeeira. “Uniram-se na oposição monarquistas que se reorganizavam, militares, republicanos mais radicais e operários. Era uma coalizão estranha e explosiva”, diz o historiador Jaime Benchimol.

Em 5 de novembro, foi criada a Liga Contra a Vacinação Obrigatória. Cinco dias depois, estudantes aos gritos foram reprimidos pela polícia. No dia 11, já era possível escutar troca de tiros. No dia 12, havia muito mais gente nas ruas e, no dia 13, o caos estava instalado no Rio. “Houve de tudo ontem. Tiros, gritos, vaias, interrupção de trânsito, estabelecimentos e casas de espetáculos fechadas, bondes assaltados e bondes queimados, lampiões quebrados à pedrada, árvores derrubadas, edifícios públicos e particulares deteriorados”, dizia a edição de 14 de novembro de 1904 da Gazeta de Notícias.

Tanto tumulto incluía uma rebelião militar. Cadetes da Escola Militar da Praia Vermelha enfrentaram tropas governamentais na rua da Passagem. O conflito terminou com a fuga dos combatentes de ambas as partes. Do lado popular, os revoltosos que mais resistiram aos batalhões federais ficavam no bairro da Saúde. Eram mais de 2 mil pessoas, mas foram vencidas pela dura repressão do Exército.

Criança com varíola. Foto: Acervo

Após um saldo total de 945 prisões, 461 deportados, 110 feridos e 30 mortos em menos de duas semanas de conflitos, Rodrigues Alves se viu obrigado a desistir da vacinação obrigatória. “Todos saíram perdendo. Os revoltosos foram castigados pelo governo e pela varíola. A vacinação vinha crescendo e despencou, depois da tentativa de torná-la obrigatória. A ação do governo foi desastrada e desastrosa, porque interrompeu um movimento ascendente de adesão à vacina”, explica Benchimol. Mais tarde, em 1908, quando o Rio foi atingido pela mais violenta epidemia de varíola de sua história, o povo correu para ser vacinado, em um episódio avesso à Revolta da Vacina.

Fonte: Agência Fiocruz de Notícias.

Edição: Jornalista Herison Schorr

Formado pela Faculdade Bom Jesus Ielusc

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