A ascensão da umbanda em Garuva

Para celebrar o Dia da Consciência Negra, o Folha Norte SC apresenta em uma reportagem especial sobre a umbanda, uma religião com raízes africanas que ganhou em 2021 um espaço em Garuva. O local é visitado por aqueles que buscam uma ligação espiritual por meio da religião fundada no Brasil no início do século XX, trazendo elementos do candomblé, do catolicismo e do kardecismo.

O barracão

Localizado em um terreno afastado do novo loteamento na localidade de São João Abaixo, um barracão de madeira toma a atenção pela placa que orna sua entrada. Chamado de “Barracão de Umbanda Unidos de Zambi”, o espaço tornou-se de forma expressiva um dos primeiros terreiros de religião de matriz africana no município.

Ao adentrar o local, observa-se dois espaços que cercam a entrada da porta principal. Neles são dedicadas oferendas, como bebidas, farinha e velas, para as entidades guardiãs.

Espaço utilizado para servir as oferendas. Foto: Herison Schorr

Seu interior é simples propositalmente, como explica a mãe de santo e professora Susana da Luz, de 41 anos, que esperava na porta. Para ela, a simplicidade faz uma conexão com a umbanda raiz, sem vaidades e luxo. Incentivada por um amigo, quis trazer a experiência da religião para Garuva conhecê-la, levantando paredes do barracão e preparando-o “para receber as entidades de luz”, contou.

Era sexta-feira, dia especial para os umbandistas onde todos vestem branco, assim como ela. Sentada em uma cadeira de vime, Susana explicou seu primeiro contato com a religião. 

A iniciação na umbanda

“Foi por meio de um amigo de escola, em Joinville”, revelou.

Susana lembra que sempre foi sensitiva, mas buscou a umbanda como última alternativa para seus problemas com a depressão e ansiedade. Nas primeiras visitas ao terreiro, teve contato com os pretos velhos, conhecidos na religião como entidades antigas que detém conhecimento de cura e oferecem conselhos para problemas em geral. 

Dentre as experiências que obteve na umbanda, uma em especial foi a primeira incorporação de uma entidade que a acompanhava e a ajudaria em seu processo de desenvolvimento na religião: um caboclo, entidade de origem indígena.

Filha de Oxum e Xangô, no próximo passo, sentiu-se preparada para tornar-se uma mãe de santo. Susana explica que este processo pode levar em torno de sete anos, iniciando com um batismo de apresentação aos orixás e demais rituais preparatórios. 

Mãe Susana durante uma celebração da umbanda. Foto: Herison Schorr

Segundo ela, a vontade de ser mãe de santo surge de forma esporádica. “Se for para você ser pai de santo, você vai ser instruído, você vai ter vontade de ter sua casa, o orixá vai te dar caminho, para você levantar suas paredes. Orixá não castiga ninguém, não obriga ninguém, são força das naturezas”, complementa, mas alerta: quando uma pessoa torna-se mãe ou pai de santo desenvolve uma responsabilidade para com seus filhos de santo, além de cuidados com o espaço onde pratica seus ritos. 

Os trabalhos da umbanda em Garuva

Atualmente, Susana realiza no barracão o que é denominado como atendimento fraterno, um momento onde as pessoas que buscam o espaço são acolhidas para receber orientações. Os atendimentos são realizados aos sábados à tarde e são gratuitos. Até o momento, a mãe de santo afirma que já atendeu oito pessoas.

“Fiquei apreensiva em divulgar nos grupos por medo de ouvir algum comentário”, revelou. 

Para ela, a umbanda é muito confundida com magia negra e demais elementos do ocultismo, algo que, segundo a mãe de santo, não condiz com a realidade.  Duas questões abordadas por ela que acabam influenciando a forma como a umbanda é vista de fora é a falta de conhecimento sobre a religião e a atuação de alguns adeptos dentro dos próprios terreiros. “Pessoas boas e ruins existem em todos os lugares, cabe ao sacerdote ver coisa errada e repreender. ‘Quero amarrar’, ‘quero separar’, ‘quero casar com outro’, aqui não separa, não amarra, aqui é caridade, é acolhimento, é benzimento”, referiu-se às pessoas que buscam a umbanda para realizar estes trabalhos.

Gira para Exu realizada em Garuva Foto: Herison Schorr

Para agradar aos orixás e o povo de rua, como são conhecidos os Exus e Pombagiras, a mãe de santo trabalha com oferendas. Ela explica que quando não há um espaço adequado para fazê-las, como um terreiro sagrado, os adeptos da umbanda buscam pelos campos dos orixás, como cachoeiras, praias e matas onde fazem seus rituais e deixam oferendas, que geralmente são a base de frutas, verduras e farinhas. Ela enfatiza que na linha de seu terreiro não é realizado o sacrifício de animais, pois no local se trabalha com a energia das ervas. Susana também faz uma crítica aos adeptos que utilizam de materiais não orgânicos para fazer as oferendas, como plásticos e vidros, o que acaba ferindo com a poluição o campo sagrado do orixá.

Festa para Exu em Garuva

Era noite de sábado e o barracão se preparava para uma grande celebração, a segunda desde sua fundação este ano. Convidado pela mãe de santo Susana, o Folha Norte SC teve contato com a experiência de uma festa dedicada para Exu, entidade conhecida pela umbanda como auxiliar, conselheiro e abridor de caminhos. 

No interior do local, médiuns vestidos de acordo com as raízes étnicas africanas já se preparavam para iniciar os trabalhos de incorporação. Em um espaço reservado, havia os convidados que aguardavam a interação com as entidades incorporadas. Com a abertura da mãe de santo, iniciava a celebração retirando-se do barracão para despejar na entrada do portão farinha e bebida alcoólica, como oferenda.

As primeiras manifestações foram dedicadas pelos ogãs, homens vestidos com vestes claras que são responsáveis por batucar os tambores e cantar o que chamam de pontos para chamar as entidades. Neste momento, os médiuns começam a dançar de acordo com os batuques em movimentos circulares. Nota-se semelhança com os sambas de roda, demonstrando a ligação das raízes da fé africana com a cultura brasileira. 

Celebração inicia com a preparação dos médiuns. Foto: Herison Schorr

Em determinado momento, médiuns homens deixam o espaço com o auxílio de pessoas que participavam do evento e volta logo em seguida com vestes femininas, incorporados com entidades denominadas pela mãe de santo Susana como pertencentes ao sagrado feminino. 

Dentre os médiuns que retornaram com novas vestes para o interior do barracão houve destaque para a anfitriã mãe de santo e para o médium incorporado com a entidade Exu. Vestindo roupas escuras com as cores vermelho e preto, de capa e chapéu, a entidade foi recebida com festa pelos participantes. 

Médium incorporando Exu chega para a celebração. Foto: Herison Schorr

Em determinado momento da celebração, os médiuns já incorporados passaram a fumar cigarros e charutos, além de beber cerveja e vinho. Estes elementos são utilizados pelas entidades como fontes de energias oriundas das plantas usadas para seus preparos, como o tabaco do cigarro, a uva do vinho, a cana da pinga e o milho da cerveja. 

Minutos após o início dos trabalhos, há a interação das entidades incorporadas com os visitantes da noite. Abraços, bebidas e salgados são oferecidos por eles, como uma forma de bênção e de boas vindas. Houve também a interação vocal, onde as entidades respondem de forma particular às perguntas dos visitantes sobre assuntos pessoais, ou aconselhamentos e bênçãos espontâneas, onde as entidades lhe dedicam luz, felicidade e amor, além da conquista de seus objetivos por meio da humildade para com o próximo. 

Durante a celebração, entidades interagem com visitantes. Foto: Herison Schorr

Dentre as entidades do povo de rua incorporadas, dançava de modo distinto o Zé Pelintra. Com terno e chapéu branco, a entidade manifestava-se incorporado no cavalo (nome dado ao médium incorporado) mãe de santo Braulea de Barros Alves, de 51 anos, moradora do bairro Água Branca, em São Francisco do Sul, e uma nova personagem da reportagem especial do Folha Norte SC.

Mãe Lia incorporando a entidade Zé Pelintra. Foto: Herison Schorr

O despertar para a mediunidade da mãe Lia, como é conhecida, teve início aos seus nove anos de idade. Filha de mãe médium, observava desde a infância sua ligação com os campos dos orixás. “Acordava nas matas e nas cachoeiras”, lembra. Mãe Lia foi consagrada dentro do candomblé aos 13 anos de idade, onde aprendeu a língua iorubá, e aos 50 anos como mãe de santo na umbanda, que difere-se do candomblé por ser uma religião genuinamente brasileira, com a junção de elementos do candomblé, do catolicismo e do kardecismo. 

“Meu mental, meu espírito, aquele que invoca, a caminhada de todos aqueles que vêm procurar minha porta, Zé Pelintra das almas da aroeira abrimento de caminhos, toda força que me passa a aqueles que vêm me procurar”, destaca sobre sua entidade auxiliadora.

Para a mãe Lia, a mulher negra tem um destaque primordial dentro das religiões brasileiras de matriz africana, acolhendo todos aqueles que as buscam, principalmente, os marginalizados pela sociedade, como homossexuais.  “Ela leva sua raiz, sua cara a tapa, não esconde aquilo que carrega, são as  principais dentro dos terreiros. Elas que fazem aprender cada vez mais a sabedoria aos homens que entram e são filhos da casa; determinadas e guerreiras”, destacou. 

Cigarros e bebidas alcoólicas são utilizadas pelas entidades como fontes de energias oriundas das plantas usadas para seus preparos, como o tabaco do cigarro, a uva do vinho, a cana da pinga e o milho da cerveja. Foto: Herison Schorr

A incorporação e o contato com as entidades

 Mãe Lia explica que antes de toda sessão mediúnica, ou gira, como é conhecida na umbanda, há uma “preparação de cabeça”. Neste processo, o médium que irá incorporar as entidades não pode ter relações sexuais nem usar bebida alcoólica nos momentos anteriores. 

Na véspera da incorporação, há um banho de ervas para purificar e aconselhamentos para deixar do lado de fora todos os sentimentos negativos. Quando a entidade está entrando no corpo do médium, a mãe de santo afirma que pode sentir um grande calor, formigamento dos pés e das mãos e o amortecimento do corpo. 

Espaço publicitário

Lia conta que, pela interação antiga que tem com os orixás, já possui uma certa evolução do ato de incorporar, devido a um feito: o esquecimento do que ocorre durante a sessão. Segundo ela, assim que o orixá se despede do corpo, leva com sua radiação energética as memórias da gira. “Sou uma médium que se apaga completamente, por isso sempre preciso de alguém do meu lado para me vigiar para vigiar meu orixá, pelos atos de outras pessoas que podem cometer sobre mim”, complementou.

Médium recebendo auxílio durante a incorporação. Foto: Herison Schorr

Para a mãe de santo, a incorporação e a interação da entidade com as pessoas durante as consultas é um ato que requer responsabilidade por parte do médium que ainda não atingiu o nível de ser controlado por completo pelo orixá, correndo o risco de interferir com opiniões pessoais durante as falas. “A incorporação é uma grande responsabilidade, pois a partir do momento que o orixá abre a boca para te dar uma benção ele tem que ser determinado a fazer o milagre, se ele falhar não é santo”, afirma. 

Para tornar a compreensão dos trabalhos dos orixás mais clara, Lia ressalta a interação que os católicos e evangélicos possuem com o espírito santo, pertencente à santíssima trindade, algo visto por ela como semelhante ao contato que ela possui com sua fé. 

Falta de conhecimento demoniza a umbanda, afirma mãe Lia. Foto: Herison Schorr

Ela também ressalta sobre a imagem negativa que criou-se sobre as entidades da umbanda, como o próprio Exu que muito é visto como um demônio. “Se eles procurarem entender o que é Exu, Pombagira e a linha de Oxalá tudo se fala em Deus, eles não são para o mau, eles abrem o caminho daqueles que não conhecem”, encerrou.

Texto: Herison Schorr

Jornalista formado pela Faculdade Bom Jesus Ielusc

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