30 de junho: os choros de quem não conhecia

No segundo capítulo da grande reportagem: 30 de junho, relembre as primeiras horas após a passagem do ciclone bomba em Garuva. “Houve gritos de socorro, de questionamentos a Deus e correria sem sentido; mães pediam por seus filhos, e vizinhos se encontravam pelo tato das mãos”

Presenciei escorregões sobre os muitos produtos que estavam encharcados no chão, corremos para casa desviando deles, e dos carrinhos de compras cheios, abandonados. Ao sair do supermercado, o cenário de destruição nos dava a ideia de como encontraríamos a casa onde, até aquele momento, morávamos, e os primeiros choros pela possível perda daqueles que poderiam não estar mais esperando a salvos dentro delas. Houve desespero e pressa.

Nas primeiras curvas da estrada, por mais que a aflição nos motivasse a acelerar, um emaranhado de escombros impedia de seguir pelo caminho. Em uma densa escuridão, o que se via eram reluzentes alumínios dos tetos que vimos voar pela janela do supermercado. Eles refletiam a luz da Lua e arranhavam o asfalto com o pouco de vento que ainda fazia. Ao adentrar o bairro Giorgia Paula, desviamos das primeiras árvores e postes entrelaçavam-se como um só, deitados com os fios e galhos esparramados pela estrada. Haviam casas sem teto e terrenos sem casas em pé, o que nos dava a pior das expectativas sobre nosso lar.

Quando dobramos a rua da minha casa e a olhei pela primeira vez, como numa espécie de ilusão de óptica, a observei inclinada para o lado, em decorrência de quase todas as árvores do pomar caídas, assim como o poste da residência. No gramado, também jazia uma enorme estrutura térmica do teto de uma empresa que ficava cerca de dois quilômetros dali. Ao abrir a porta, o primeiro respiro de alívio desde a saída do supermercado: todas as vidas de nosso lar estavam a salvo, escondidas dentro do banheiro; meu irmão em volta de nossos três cães, menos a minha que, ‘por sorte’, já havia sido levada deste mundo duas semanas antes da tormenta. O chão da copa da sala estava estilhaçado com os vidros da janela e pedaços de eternit da garagem do vizinho que foram arremessados com o vento sobre elas.

Com as poucas telhas que caíram no canto do telhado, não tivemos coragem de ‘somar prejuízos’, pois estes não haviam, em comparação da desolação que murmurava ao nosso redor. Sem muito o que fazer dentro de casa, decidi que meu lugar era na rua.

Quando saí pela primeira vez do portão de casa foi, de certa forma, uma ruptura à nossa rotina pandêmica, à medida que saíamos, apenas, para atividades essenciais. O ciclone havia varrido todas as possibilidades de um isolamento seguro do coronavírus nos lares garuvenses, o que resultaria na explosão de casos nos 15 dias seguintes.

As surrealidades que haviam ocorrido naqueles instantes da minha vida, me faziam lembrar inúmeros filmes que já havia assistido, para assimilar aquela realidade onde estava presente. Na escuridão da estrada, ouvindo os destroços trincarem com meus passos, somavam-se com os choros desconhecidos, daqueles que não conseguia identificar suas faces. Há um filme que retrata o umbral, ou purgatório, onde, no breu total, as almas buscavam, sem rumo, absolvição por seus erros.

Houve gritos de socorro, de questionamentos a Deus e correria sem sentido; mães pediam por seus filhos, e vizinhos se encontravam pelo tato das mãos. Os cachorros latiam assutados para qualquer aproximação a eles. O pouco vento continuava a soprar fazia aqueles chamados ecoarem para todos os lados, tornando o bairro uma sinfonia trevosa; eu estava no meio deles, sem saber a quem chamar ou o que responder. Como num efeito dominó, carros desorientados batiam em postes caídos na rua; entre uns e outros. Havia medo de choque de fios espalhados para todos os lados, na altura de nossos pescoços, e da possibilidade de pessoas debaixo de estruturas caídas. Quando ouvi alguém gritar ‘Vó!’, lembrei do primeiro motivo de ter saído da minha casa.

Ao chegar na casa dos meus avós, a três quadras da minha, descobri que meu avô teria outra história de vento para contar, presenciada, agora, por seus netos. Também vi alívio no olhar deles, que queriam nos ‘salvar’, no meio daquela tempestade, pois achavam que estávamos sozinhos em casa, pois achavam que ainda éramos crianças. Vó limpava a chuva que pingava na sala. Ela rezava, agora, em gratidão a Deus pelas notícias de que estávamos vivos; o vô estava em silêncio, com olhar alto, parecia estarrecido com o que havia presenciado, assim como os aflitos que perambulavam na rua. Com as notícias dos sobreviventes familiares, que encontrava pelas casas que chegava, segui até o centro da cidade me orientando com as luzes dos carros e da lanterna do celular. Pessoas me acompanhavam, como uma procissão lenta e desconfiada. Havia o medo do vento retornar.

A avenida Celso Ramos poderia voltar um judeu ao passado, se este tivesse vivido a Noite dos Cristais, quando nazistas estilhaçaram todas as vitrines de suas lojas. O comércio do município, que se recuperava lentamente, após dias de portas fechadas para conter o avanço do vírus, agora, recolhia do asfalto o que sobrou de suas fachadas. O único semáforo da cidade estava aos pedaços espalhado no cruzamento com a avenida Paraná. Não havia uma placa ereta. Houve fila nos poucas padarias abertas, por aqueles que não tinham condições emocionais de preparar o jantar. Os carros que seguiam para Itapoá passavam de forma lenta, tentando entender o que havia acontecido naquela cidade.

Estas rupturas em nossas rotinas nos fazem perder a noção do raciocínio, influenciando-nos a agir por impulsos, de soluções imediatas. Eu sabia que a cidade iria precisar de trabalhos voluntários, para telhados serem recobertos ou casas inteiras reerguidas. Naquela hora, nem lembrava que era alfabetizado. Busquei por um tio que é bombeiro, e se confundia nas centenas de chamados que havia desde a tarde, mas, que, aos poucos, foram silenciadas com as torres de telefonia que eram derrubadas com o vento. O prometi que iria na manhã seguinte para o quartel, ajudar no que fosse preciso. Naquela madrugada não houve sono na casa dos garuvenses, com todas as expectativas dos restos da cidade que o sol revelaria no dia seguinte.

Quando a primeira luz da manhã bateu no topo da Serra do Mar, eu já caminhava pela cidade onde o som do vento suave remexia as coberturas dos prédios caídas no chão, somado com o barulho que fazia dos cacos de vidro varridos do meio da rua. Haviam árvores inteiras caídas na Praça da Matriz, e o muro da minha escola Carmem Seara Leite estava no chão pela segunda vez por causa de um vendaval. É estranho ver a cidade onde nasceu tão diferente, arrasada.

Quando liguei meu tablet para buscar por mais informações e iniciar as reportagens com pedidos de ajuda, deduzi que ainda estávamos naquela escuridão de acesso às informações. Sem internet, sem rede de telefonia, sem luz elétrica, sem água. Foi na necessidade que lembrei que era um jornalista, e que a cidade onde nasci precisava do meu trabalho. Decidi partir em busca de socorro.

Preenchi minha mochila com o básico e fui levado por meu pai até o terminal de Pirabeiraba. Pelo caminho, observava todas as árvores do acostamento caídas no canto da BR, no trajeto que pertencia ao meu município. Ao chegar no distrito de Joinville, saí do carro, disse até logo e recebi um ‘boa sorte’. Sozinho naquele lugar, fora das vistas de devastação, retomava a consciência do que havia acontecido. Deu vontade de chorar quando lembrei que minha família ficara naquela desolação, mas tive que apressar-me em frente, por eles e por tantos outros. O medo de ser contaminado dentro de um daqueles ônibus e levá-lo para meu pai era real, em um período onde ainda não se tinha ideia de vacinas, mas do quão destrutivo a Covid-19 era.

Descobri que o assunto da manhã em Joinville era sobre Garuva e do que havia acontecido por lá. Meu tablet começou a vibrar com inúmeras mensagens que havia recebido nas horas anteriores. Eram meus parentes de outras cidades perguntando sobre nossas vidas. Foi dentro de um ônibus que consegui escrever e publicar a primeira notícia sobre a minha cidade destruída. Ali chorei pela primeira vez, escondido pela máscara. 

Assisti na TV de uma lanchonete o jornal sobrevoando Garuva, mostrando o que havia restado dela. Quanta estranheza saber que havia vivenciado aquilo, de baixo, no meio. Todos estavam com pena e colocavam as mãos na boca observando os estragos, como eu fazia quando assistia sobre a destruição de furacões no Golfo do México, tão longe de nós. A notícia de que não houve mortes foi a melhor que ouvi naquela manhã. 

Ao chegar na casa de uma amiga que me ofereceu abrigo, organizei um pequeno escritório onde iniciei a reorganização da minha nova rotina. Sabia que o trabalho seria desafiador e único para minha carreira que estava começando. De primeiro momento, busquei por informações com meteorologistas da Epagri/Ciram, para compreender o que, de fato, havia ocorrido. Foi a primeira vez que ouvi o termo ‘ciclone bomba’ que, pela dimensão de sua devastação, com ventos que chegaram a 120 km/h, o nome fazia todo o sentido.

Revirando o Facebook do jornal, um número no canto esquerdo da tela me chamou a atenção: a caixa de entrada de mensagem. Quando a abri, tive a certeza de que o mais importante naquele momento era tranquilizar as dezenas de familiares que mandaram mensagens, de outras cidades, perguntando sobre a vida daqueles que moram ‘na cidade destruída pelo ciclone bomba’, mas que não respondiam as ligações. Em contato com os poucos que haviam conseguido internet em Garuva, criei uma ponte de informações entre os parentes, que me passavam nome e endereço dos seus familiares garuvenses, para procurá-los. Presenciei reencontros virtuais, como de uma neta do nordeste que não recebia notícias de uma vó adoecida que morava na cidade.

Absorto com este trabalho, no terceiro dia recebi uma notificação diferente do, naquele momento, normal. Os resquício de uma reportagem que havia feito no mês anterior ainda me agraciavam com mensagens de parabenização.  Uma história ouvida por mim em uma hora, escrita em meia e publicada em dois minutos. A repercussão dela? A transformação de toda uma vida, daquela família que ganhou uma nova casa mobiliada e destaques na mídia nacional. Foi um estalar dos céus. Fiz um anúncio nas redes sociais do jornal de uma campanha diferente, onde iria contar, por meio do jornalismo literário, as histórias das pessoas que haviam perdido seus lares com o ciclone bomba. Ela se somava com tantas outras que socorriam Garuva. No mesmo momento, descobri que a demanda era grande e que era hora de regressar. Eu não estava preparado para as histórias que ouviria.

Continua

No próximo capítulo: 30 de junho: a montanha do socorro

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Texto: Herison Schorr

Jornalista formado pela Faculdade Bom Jesus Ielusc

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