30 de junho: a tarde que não esqueceremos

No primeiro capítulo da grande reportagem: 30 de junho, descubra relatos exclusivos contatos pelo jornalista Herison Schorr, que vivenciou os momentos de tensão de quem abrigou-se dentro de um supermercado em Garuva, enquanto a cidade era devastada pelo ciclone bomba.

“Pela pequena janela, dava para ver pedaços de tetos de casas voando sobre o pasto, ao lado de escombros de fábricas inteiras que já haviam caído. No meu lado, as feições de medo e de força, para que não houvesse uma tragédia onde nós seríamos os protagonistas”.

A época dos grandes vendavais havia chegado em Garuva. Tradicionalmente chamado pelos antigos moradores como ‘Três Marias’ ou ‘Três dias de Maria’, o período do encontro entre massas de ar quente e fria perpetuavam histórias de medo ao longo das gerações. Com a primeira brisa quente e, após, gélida e intensa soprando do Sul ao Norte, era o despertar de lembranças do passado do meu avô, que mora em Garuva desde quando ela tinha nome de São Francisco do Sul. Não havia como mensurar a força daquelas ventanias antigas, mas os cabelos alvos sempre contavam das árvores centenárias arrancadas com as raízes, na década de 60. 

A última semana de junho de 2020 estava tomada por alertas de um novo vendaval. Nos 15 dias anteriores, um pé de vento já havia feito estragos em alguns lares do município. Um grande susto, mas um susto esperado por todos que sabiam sobre o início da temporada dos ventos.  Como de praxe, a Defesa Civil de Santa Catarina e a Epagri/Ciram enviavam as atualizações de um ciclone extratropical que agia na costa do Uruguai e que o encontro de uma massa de ar fria com a quente, que estava estacionada no Mato Grosso do Sul, poderia causar ventos e estragos. 

O dia 30 de junho amanheceu esquisito. Havia uns toques de calor em pleno inverno. O povo estava em alerta, mas, também, exausto e anestesiado com o sentimento de perigo. A pandemia estava no quarto mês e as perdas humanas assustavam nossa vulnerabilidade com constantes ameaças de contágio. 

Como jornalista, a divulgação dos alertas do vendaval foi mais uma rotina do trabalho, também estava exausto e anestesiado com o sentimento de perigos: de contaminação e outros perigos simbolizados pelos ataques que sofria em minhas redes sociais,  daqueles que não aceitavam a divulgação de informações sobre um vírus que, segundo eles, ‘não existia’. Eu também cultivava um sentimento de pesar pela partida de uma cachorra de estimação. Pode parecer meio tosco aos que não têm afeições por animais, mas, quem tem, sabe que, quando o ‘parça’ de quatro patas se vai, dói bastante. 

Durante os últimos goles do café da tarde, a chegada de uma brisa quente e silenciosa acionou os alertas daqueles que tinham noções, de conhecimento dos antigos, que aquela manifestação da natureza era o prenúncio de que não teríamos paz a noite.  Antes que o vendaval chegasse, decidi ir com a família ao supermercado. Pode parecer controverso avisar a chegada de ventos fortes e sair de casa mesmo assim, mas um mistura do pesar que nos alimentava um sentimento de inércia, somada com as ideias de que seria só mais um vendaval que chegaria nas últimas horas daquele dia, nos embalaram para às compras do mês, com, também, a prerrogativa de trazer velas para casa. Sempre necessárias nestas ocasiões.

Ao dobrarmos a esquina do supermercado, notava-se uma grande nuvem escura mergulhando sobre a serra do mar; parecia esparramar-se nela, cobrindo-a. O vento soprou fraco e fez um pouco de frio. Adentramos e descobrimos que a ideia de ir às compras naquele último dia do mês foi compactuada com muitas pessoas.

Poucos minutos depois dos primeiros itens colocados no carrinho, estava na prateleira dos macarrões quando ouvi um intenso e prolongado estrondo. A curiosidade jornalística me incentivou a olhar para a porta. Ao fundo, lá fora, via árvores se curvando, até quebrar. Naquele mesmo momento, o teto do supermercado começou a assoviar, e todos os olhos de quem estava ali voltaram-se para cima. Os passos tornaram-se mais lentos entre os corredores, de todos tentando prestar atenção no que ocorria lá fora. E os assobios metálicos tornaram-se mais fortes, movimentando as estruturas do teto. 

Acompanhava o barulho do alto e as notícias que chegavam em minhas mãos pelo tablet. Em sua tela, passou a carregar, apenas, uma última informação. A rede da internet estava fora do ar, devido ao vendaval que havia noticiado minutos antes, no jornal. Um vento assobiou de forma intensa. Parecia decisivo. Estava perto da sessão das bolachas quando tive a oportunidade de ver o que havia lá fora; o teto se abriu sobre minha cabeça. E o leitor de notícias virou filmadora.

É difícil descrever aquele exato momento de segundos que aquilo ocorreu tão perto de mim. Se for para simbolizar barulhos, que seja uma série de 20 raios caindo ao mesmo tempo; se for para demonstrar o medo, que lembrem daquelas primeiras cenas do filme Twister, onde o pai da menina é levado com a porta do porão pelo tornado, foi a primeira coisa que lembrei quando vi aquele céu escuro de dentro do supermercado. Parecia tão surreal e distante que, por frações, não parecia verdade e, sim, mais um filme de Sessão da Tarde.  

Sabe quando você mergulha num rio e tem aquele momento de anestesia, e quando volta para a superfície e retoma uma certa realidade? Acho que foi assim que senti nos segundo seguintes, já assustando com os gritos de pavor. Houve correria, quedas e esbarros nas prateleiras. Os produtos se esparramavam, quebravam, molhavam-se com a chuva forte que encharcava o local sem proteção. 

Uma pequena aglomeração se espremia do canto da saída do mercado, foi ali que encontrei meu pai e meu irmão. Havia choros e quem quisesse sair do local, mas, pelos barulhos que tornaram-se, de fato, amedrontadores, o local mais segura era ficar do lado de dentro. 

Com parte do mercado sem teto e a outra metade prestes a ser despedaçada, ouvimos o comando dos funcionários para que todos se abrigassem dentro dos contêiners, no fundo do estabelecimento. Em fila, seguimos-os às pressas. Neste momento, houve quem questionasse minhas constantes filmagens. Eu não imaginava, mas elas serviriam, no futuro, para mostrar ao país a desolação que passamos e de quanta ajuda precisaríamos nos dias seguintes. 

Em um almoxarifado, com o teto mais próximo, havia uma série de contêiners abertos contendo frios, onde todos os clientes entraram. Naquele local, o barulho tornou-se mais intenso. Todos adentro. A porta de alumínio foi fechada e segurada por sete funcionários. O vento empurrava o teto e a porta, que eram segurados com uma considerável força, por eles. Até o momento que tive que ajudar, como um reforço necessário. Lá fora, ouvíamos o vento fazer mais estrago, e lutávamos para que ele não entrasse. O vento assoprava de um lado e nós empurrávamos do outro. Se ele ganhasse aquela disputa, jogaria um novo e último teto para cima. 

Naquela tensão, foi como se, por mais uns pequenos instantes, mergulhei à reflexão, onde o barulho tornou-se distante e os movimentos lentos. Mães abraçavam os filhos e outras choravam por aqueles que estavam em uma casa que, talvez, não estaria mais em pé. Meu irmão mais novo estava sozinho em casa; eu, aqui, protegido, com o restante da família. Haviam incertezas sobre a vida daqueles que amávamos, vulneráveis do lado de fora.

Pela pequena janela, dava para ver pedaços de tetos de casas voando sobre o pasto, ao lado de escombros de fábricas inteiras que já haviam caído. No meu lado, as feições de medo e de força, para que não houvesse uma tragédia onde nós seríamos os protagonistas, e todos de máscaras, para nos proteger de uma doença desconhecida, mas mortal. O que estamos fazendo com o mundo e o que ele quer nos dizer? Foi a última coisa que pensei até ser interrompido. Uma mãe, sem jeito, pedia com educação se poderia ir buscar seus filhos que haviam ficado dentro do carro, no estacionamento do supermercado. Desconcertante, mas, quando o vento parou de soprar por instantes, seu pedido foi acatado, todos foram resgatados e salvos. 

Próximo das 19h30, o vento começou a assoviar mais de leve. Foi o momento escolhido por todos para sair dali. A porta que nos protegeu foi reaberta, revelando um cenário tão diferente daquele que havíamos encontrado ao chegar em mais um dia de compras do mês. Estava escuro.

Presenciei escorregões sobre os muitos produtos que estavam encharcados no chão, corremos para casa desviando deles, e dos carrinhos de compras cheios, abandonados. Ao sair do supermercado, o cenário de destruição nos dava a ideia de como encontraríamos a casa onde, até aquele momento, morávamos, e os primeiros choros pela possível perda daqueles que poderiam não estar mais esperando a salvos dentro delas. Houve desespero e pressa.

Continua

No próximo capítulo: 30 de junho: os choros de quem não conhecia

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Texto: Herison Schorr

Jornalista formado pela Faculdade Bom Jesus Ielusc

2 Comments on "30 de junho: a tarde que não esqueceremos"

  1. AntonioEdivalPereira | 30/06/2021 at 7:10 pm | Responder

    Desloquei ao municipio com rolos de lonas na camiionete durante o evento presenciando coberturas voando ,caminhao bau tombando me protegi em um local onde vi a xobertura cair sobre um carro,socorri pessoas e como muota dificildade cheguei ate o Corpo de Bombeiros para entrega das lonas e no dia sefuinte aco.pnhando a defesa civil do municipio onde no restabelecimemto entregamos algumas milhares detelhas para restabelecimento

  2. AntonioEdivalPereira | 30/06/2021 at 7:12 pm | Responder

    Desloquei ao municipio com rolos de lonas na pick up durante o evento presenciando coberturas voando ,caminhao bau tombando me protegi em um local onde vi a cobertura cair sobre um carro,socorri pessoas e como muota dificildade cheguei ate o Corpo de Bombeiros para entrega das lonas e no dia seguinte acompanhando a defesa civil do municipio onde no restabelecimemto entregamos algumas milhares de telhas para restabelecimento

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