‘Vou voltar pra você’, prometeu professor de Itapoá à esposa antes de morrer vítima da Covid-19

Edson Ferreira da Veiga, de 46 anos, morreu nesta terça-feira (2); ele não tinha comorbidades

Hoje, até os pássaros choram em Itapoá. Havia um morador que olhava para o céu e conseguia observar a mais pura beleza que a natureza já pôde oferecer ao homem, refletida nas cores das penas coloridas e na doçura de seus cantares, ele podia ouvi-los e até mesmo chamá-los em assobios aprendidos; havia um morador que olhava para o lado e conseguia identificar no outro um sonho seu: realizar-se como pessoa, assim como ele realizou-se quando se tornou professor de história e geografia na Escola de Educação Básica Nereu Ramos.

“Ele amava dar aula, tinha se encontrado em sala de aula. Tudo o que ele podia fazer pelos alunos dele, ele fazia”, conta a professora Michelle Rodrigues da Veiga, de 42 anos, que ainda se despede de seu marido, o professor Edson Ferreira da Veiga, de 46 anos, vítima da Covid-19, nesta terça-feira (2). Ele não tinha comorbidades.

Querido, amigo, companheiro. Tantas qualidades como cada tonalidade de uma saíra-sete-cores; uma revoada de bondade. “Sempre cuidando do próximo, sempre observando o que as pessoas queriam, sempre calmo, preocupado com a família, com os amigos”, completou sobre o marido companheiro de profissão e guia da Reserva Volta Velha, em Itapoá. 

Esposa conta que professor era amante da natureza e tinha um carinho especial pelos pássaros. Foto: Acervo

O 24 de agosto ainda será um dia inesquecível para Michelle, pois é nesta mesma data que ambos faziam aniversário, compartilhando o bolo, os parabéns, os presentes e a presença um do outro, em 20 anos de encontros. Eles se completavam. “Eu chamava ele sempre de ‘vida’, ele era minha vida”. Agora, sem sua presença na casa onde viviam, a professora confessa a falta de coragem para retornar, optando por passar os próximos dias com a mãe. “Eu perdi o meu companheiro de vida”, revelou. 

Edson e Michelle faziam aniversário no mesmo dia. Foto: Acervo

Ele tinha o maior cuidado e alertava a família

Michelle afirma que, desde o início da pandemia da Covid-19, Edson foi respeitoso com as orientações que foram repassadas, ‘quase tomava banho de álcool’ para evitar sua infecção e a infecção de quem ele amava, contou. Em março do ano passado, o casal decidiu isolar-se, enquanto repassavam os cuidados aos demais amigos e parentes. “Ele tinha o maior cuidado e alertava a família”, afirma a esposa.

Foto: Acervo

Mesmo assim, em agosto do ano passado, a Covid-19 fez uma primeira vítima na família: o irmão mais velho de Edson. “Ele ficou desesperado por causa da doença, pois ele havia perdido a referência, o irmão mais velho que ele amava”, destacou.

No dia 8 de fevereiro, o professor começou a sentir os primeiros sintomas da doença. Ele havia se contaminado pela Covid-19, assim como mais sete membros da família, como Michelle. Com o agravamento de sua saúde, no dia 16, Edson foi internado na UPA do município, onde recebeu oxigênio e foi constatado manchas em seu pulmão. Era necessário sua transferência para uma UTI, mas, de acordo com a esposa, não havia vagas de leito nos municípios próximos. 

Até que, no dia 18, o itapoaense foi transferido para São Francisco do Sul, um momento que Michelle guardará para sempre em suas memórias. “Ele estava na ambulância, deitado, com oxigênio, e me disse: ‘Eu vou voltar pra você, minha vida, eu te amo’. Deu uma piscadinha para mim; foi a última vez que vi ele com vida”, lamentou a esposa. Edson morreu nesta terça-feira (2) de março, em Itajaí, para onde foi transferido e entubado.

“Um pedaço de mim foi embora, a metade do meu coração foi embora, eu não sei explicar”. Foto: Acervo

Ainda quando conseguia conversar, pelo celular que havia levado, o marido atencioso mandava mensagens de conforto, afirmando que, realmente, iria voltar. “Um pedaço de mim foi embora, a metade do meu coração foi embora, eu não sei explicar”, afirma a esposa.

Michelle recebe, no momento, o acolhimento das famílias de Edson e sua, além dos amigos, mesmo que de longe, para evitar que a Covid-19 leve mais amores de alguém. Mesmo com a saudade que torna-se cada vez mais presente, a professora ainda agradece a Deus pela oportunidade que teve de conviver em duas décadas com aquele que ela diz ter sido o grande amor de toda uma vida. “Vou me apegar a Deus e seguir em frente, era isso que ele iria querer que eu fizesse”. sugeriu.

Foto: Acervo

Hoje, há um ninho vazio em Itapoá. Havia um dono que nele fez morada; sonhos construídos em cada canto que ali ainda estão, como prova de uma existência que valeu a pena viver e ver, mesmo que de instantes; haverá pássaros no céu, contemplado suas liberdades, com a certeza de que tão perto estão daquele que um dia ensinaram a voar.

Leia também: Para fugir da homofobia, joinvilense opta por viver em cemitério e carro abandonado, em Garuva

Texto: Herison Schorr

Jornalista formado pela Faculdade Bom Jesus Ielusc

6 Comments on "‘Vou voltar pra você’, prometeu professor de Itapoá à esposa antes de morrer vítima da Covid-19"

  1. clClodomiro Lima da Rosaodomiro.rosa@gmail.com | março 4, 2021 at 8:27 pm | Responder

    Tive o privilégio de ser amigo desta grande figura que foi o Edinho. Minha grande tristeza foi de eu não poder me fazer presente no seu funeral.

  2. Uma pessoa admirável

  3. Uma pessoa incrível que realmente vai deixar muitas saudades entre seus amigos, familiares, alunos e colegas de trabalho. Descanse em paz meu amigo! Um forte abraço Michele e conte comigo para o que precisar.

  4. Josiane Rodrigues | março 5, 2021 at 2:02 am | Responder

    Um excelente amigo vai fazer falta😔

  5. Meus sentimentos a esposa professora Michelle e à tdos os familiares parentes e amigos.Que Deus o receba em sua glória!!

  6. nathaly Mendes Lichtenthaler | março 5, 2021 at 5:05 pm | Responder

    Foi um excelente professor um amigo incrível sempre ajudava todos nós alunos vamos sentir muita falta de você nosso eterno professor de Geografia 🖤

Deixe um comentário

Seu email não será publicado


*