Para fugir da homofobia, joinvilense opta por viver em cemitério e carro abandonado, em Garuva

“Eu me isolei do mundo para viver o meu mundo, a minha história”, ressaltou Lourival Francisco, de 49 anos

A localidade de Barrancos é conhecida por ser o berço da cidade de Garuva; para o joinvilense Lorival Francisco, mesmo já com 49 anos, agora, ela é o berço da tentativa de sua nova história. Mas, semelhante ao passado daquele cantinho quase esquecido no litoral catarinense, que viveu, um dia, seu auge, Lori, como é conhecido, também compartilha do mesmo fim de um auge que sua vida teve, e, talvez, do mesmo esquecimento. “A mãe pagou a faculdade de Teologia. Formei, mas não pude exercer, por causa da minha condição; o líder religioso não aceitou na época”, contou em lamentos enquanto olhava para os dedos manchados de lama de um cemitério local, onde conversávamos sentados em túmulos. 

Foto: Herison Schorr

Os sonhos de contribuir para a fé do outro, guiando-os à redenção, teve um brusco impedimento, por um motivo ainda condenável por aspirantes de inquisidores: “Eu sou homossexual, sabe, ‘viado’… Gay”, revelou sem jeito, olhando para uma lápide de alguém que nem conheceu, um vivente dali que pôde oferecer acolhimento ao homem desconhecido só depois de morto, quando Lorival passou noites debaixo do azulejo que faz capela ao seu jazigo. Mas ele expressava, naquele instante, um pouco de felicidade. Enxugava as lágrimas e agradecia por ser lembrado, por ser ouvido.

Mais adiante, depois do cemitério, Lori me levou, de forma ansiosa, para uma ruela ao lado da estrada. Ela terminava em umas casas, e dava começo para mais moradas provisórias de Lorival. Numa, ainda de longe, ele apontava para seu novo lugar de descanso, fornecido por um dos moradores: um pálio estragado estacionado num rancho de canoas. Ali ele dorme atualmente, e faz seus almoços e jantas numa chapa improvisada, como tudo atualmente em sua rotina, até mesmo o guarda-chuva que mantinha só a cabeça seca. Era emprestado de uma de suas ‘patroas’. 

Foto: Herison Schorr

Do lado do rancho havia outra casa, bem simples, de pescadores. Dizia orgulhoso que já tinha dormido por ali também, pois, para ele, era especial ser acolhido por pessoas estranhas, como forma de justificar, incansavelmente, a veracidade de seu caráter. “Eles deixam, nunca mexi em nada. Sou limpo, justo e honesto”, afirmou e foi confirmado pelos seus cuidadores que voltavam da pescaria.

Do rancho de pesca para uma pequena casinha que guarda um barco; seu colchão ainda estava lá, limpinho, como ele mesmo viu ao passar a mão. Do lado, tem uma pinguela de madeira. Atravessamos. Na outra margem do riacho, um terreno já roçado, mostra-o como seu.  Está tudo pronto para construir sua casa, naquele pedacinho de chão que foi doado a ele por um cunhado. Só falta, mesmo, comprar os materiais, sugeriu sem deixar de esquecer daquela rede pendurada e encharcada, que um dia também foi seu canto de dormir, onde sonhou com o teto sobre ela e ele. 

Foto: Herison Schorr

Há dificuldade para imaginar os motivos que levam alguém viver assim, de cantinho em cantinho provisório, emprestado por gente que Lorival nem conhece, mas que se esforça para mostrar honestidade, confiança; quase uma servidão. Para o, agora, garuvense de Barrancos, o motivo é óbvio: “Eu queria viver aqui sozinho por causa da homofobia”, revelou. O homem seguro, que nem mais se importa em pejorar sua orientação, como os outros faziam, disse que “o viado não era bem vindo por seus vizinhos de lá”. O menino frágil de olhos verde esperança, com tonalidade de coração partido, acredita que até mesmo a solidão dali, e daqui, e dali é melhor do que de lá no bairro Jardim Paraíso, em Joinville, cidade grande. 

Foto: Herison Schorr

“Eu me isolei do mundo para viver o meu mundo, a minha história”, ressaltou.

Hoje no mato, Lori conta que dorme em cada cantinho de quem lhe acolhe e paga por seus serviços. Gente simples que não se importou com sua sexualidade, que nem sabe dizer direito o termo. “É ‘homenssessual’ que ele diz, né”, pergunta uma das acolhedoras, enquanto terminava seu crochê. Dona Maria de Fátima da Silva França, 60 anos, conta que conheceu o Lori por uma sobrinha, enquanto ele perambulava.

Foto: Herison Schorr

A moradora afirma que desde sempre gostou dele, e ofereceu alguns serviços quando apareceu para pedir.  “Ele é uma pessoa muito legal, assim, ele vem aqui, me ajuda, ele faz as coisas pra mim, e aí eu dou um dinheirinho pra ele que é uma pessoa muito de confiança”, afirma a senhora que, por ter uma das pernas amputadas, agradece os serviços daquele homem que fica emocionado com suas palavras, ao ouvir a testemunha da veracidade de sua honestidade, para sua particular absolvição. 

Maria conta que sempre está por perto dele, para saber se não falta nada, como comida. É agradecida pelas tardes que Lori oferece companhia; mas levanta uma condição que lhe preocupa: “ele bebe a pinguinha dele, mas é com o dinheirinho que a gente paga pra ele”, revela e complementa rapidamente como forma de evitar que uma reputação inteira seja condenável por apenas um arranhão. A vontade de beber? “De desgosto”, complementa Lori para justificar sua imperfeição humana.

Lorival continuou percorrendo as ruas de Barrancos. Eu o segui.  Por onde caminhava, chamava alguém para perto, amigos que fez em cerca de um ano vivendo no local, para que confirmassem as verdades que falava. Parece que é costume de quem está na rua ter que buscar de todas as formas possíveis as provas necessárias para comprovar que é ser bom, mesmo que a vida não tenha recompensando com a mesma bondade. E assim Lori fez, enquanto me levava até a casa da ‘mãe’ como passou a chamar. Ele a ajuda na feitura da farinha de mandioca e na chance de fazê-lo se sentir útil, mas a referida senhora não estava em casa. “Tinha ido num velório”, contou o que ouviu do ‘pai’, marido da mãe.

No caminho em busca de mais testemunhas de sua vida em Barrancos, Lori, talvez por lembrar de chamar alguém de pai e de mãe, conta sobre a sua mãe e seis irmãos, uma já falecida. Eles ainda moram em Joinville. Todos o apoiaram desde cedo sobre sua sexualidade, o problema eram “as pessoas que estavam em volta, desde o colégio. Essa parte foi horrível”, disse. Lembrou quando saiu de casa aos 14 anos. Há um trauma de infância que não quis contar, relacionado a um parente. Recolheu-se todo quando, por instantes, recordou.  Lori lembrou, também, do último Natal. Passou “sem eira nem beira, naquele pálio”, disse envergonhado.  

Foto: Herison Schorr

O homem sente falta dos parentes, mas justifica que não tem dinheiro para visitá-los; nem ônibus por causa da pandemia tem, “mas minha família tem carro, sabe onde eu tô”, complementou sobre minha pergunta sobre se sentir abandonado por eles. 

Um olhar à frente da estrada

“Eu não tenho onde morar”. Sim. Como a ficha que cai, naquela mesma estrada onde tenta começar tudo outra vez, Lori viu-se na realidade de ser sem teto. De viver em cantinho e cantinho, nenhum seu, de papel. Aí o choro vem, de verdade, lá de dentro, vem com mágoa mesmo. “Graças a Deus eu tenho aquelas minhas amigas, minhas colegas que me ajudam, eu limpo a casa delas, lavo louça”, ainda reafirma em choro, perdido em suas justificativas que não eram mais necessárias. 

Gravação: Herison Schorr

Já na hora de ir embora, o morador de cantos emprestados foi enfático em seu sonho: uma casinha de poucos cômodos, apenas pra ficar bem. Uma chance de dormir de travesseiro e coberta no berço da cidade que lhe acolheu. Sem se preocupar se está chovendo em cima. Olhou para o terreno e pareceu construir o sonho com as mãos, enquanto sussurrava alguns cálculos.

Despedi-me. Ele beijou minhas mãos e disse, sem jeito por não conseguir me ‘retribuir pela chance que dei dele ser ouvido’, mas que podia me oferecer o que tinha de mais precioso: rezar, de joelhos, por meu trabalho e minha saúde. Se seu sonho era rezar pelos outros, hoje ele o faz, de bom grado; não em grandes templos, mas na simplicidade de seus improvisos, com a certeza de que é ouvido.

Das histórias que já ouvi e vivi como jornalista, não é incomum deparar com aqueles, muitas vezes esquecidos pelos outros e por si mesmos, que acreditam na necessidade de uma recompensa a alguém que os ouviu por alguns minutos que fosse. Um copo de café preto pode parecer até muito para quem tem falta de pó, de bule, de fogão; um teto pra colocar a cabeça debaixo. Talvez duas tangerinas de um pé que nasceu sem dono.

E os constrangimentos no malabarismo daquela vontade sem sentido de retribuição vêm em seus gestos. Os pedidos de desculpa são quase compulsórios. Pela roupa que vestem, pelos dedos sujos escapando da ponta do chinelo, por uma gotícula de saliva que escapou a mais quando contavam suas dores, por não ter cadeiras para me assentar, por me molhar na chuva enquanto os acompanho. Aí resta a recompensa de reza.

Foto: Herison Schorr

Aos que recompensam-me com rezas ao anoitecer, de joelhos para parecer mais preciosa, em seus cantos improvisados para dormir, eu agradeço, pois tenho plena certeza que, mesmo sendo a recompensa mais barata para se agradar alguém, ela é o último recurso quando a fome dói mais que o abandono; é o bem mais precioso que se pode oferecer: a chance de ser lembrado no mundo dos esquecidos.

Hoje, há alguém lembrando de mim, seja lá onde passará a noite.

Texto: Herison Schorr

Jornalista formado pela Faculdade Bom Jesus Ielusc

2 Comments on "Para fugir da homofobia, joinvilense opta por viver em cemitério e carro abandonado, em Garuva"

  1. Parabéns pela materia
    Chorando rios aqui
    Em que mumdo vivemos uns com tanto outros sem nada

  2. Vitória Schneider | março 2, 2021 at 7:01 pm | Responder

    Querido Lori nosso grande lutador dos barrancos e meu grande amigo 🤗🥰

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