Mães de SFS relatam momentos de aflição com bebês engasgados pelo leite materno

“A gente batia e ele não voltava”, contou uma das mães; bombeiros do município atenderam 23 ocorrências de engasgo com leite materno em 2020

A equipe de socorro do Corpo de Bombeiros Voluntários de São Francisco do Sul atendeu no ano passado 23 ocorrências de bebês que se engasgaram com o leite materno. Todos foram salvos e passam bem, mas o número é um alerta para os pais de recém-nascidos que, muitas vezes, não sabem como proceder, ou, até mesmo, identificar quando um bebê está asfixiado com o leite.

Luiz Roberto da Silva é o bombeiro chefe de equipe e coordenador do núcleo de ensino e instrução. Com seu grupo, já realizou inúmeros procedimentos de desasfixia dos bebês, tanto por telefone, como pessoalmente. De acordo com o profissional, as informações que a equipe passa aos pais diante de uma situação de engasgo com recém-nascido é, primeiramente, de manter a calma, sendo este o passo mais importante. Após, são repassados as instruções da manobra de heimlich, a qual, ensinaremos no final da reportagem.

“Geralmente, nas primeiras pancadas leves, que são efetuadas nas costas do bebê, já se consegue desobstruir as vias aéreas”, informa o bombeiro que, de primeiro momento, passa as informações aos pais via telefone, até a chegada da equipe de socorro.

“Assim que começou a vomitar, ela começou a se afogar, pois o vômito voltou”

Emilaine Mendes Cardoso Mousquer, 29 anos, é moradora do bairro Água Branca e mãe da bebê Melanie Cardoso Mousquer, hoje com 10 meses. A advogada conta que foi acometida pelo engasgo da filha quando ela tinha apenas 19 dias de vida.

Segundo a jovem mãe, Mel, como chama carinhosamente a filha, engasgou-se duas vezes no mesmo dia. A primeira vez foi numa madrugada de domingo, quando Emilaine acordou para amamentar sua bebê. Após o processo de amamentação e arroto, ela conta que colocou sua filha no berço, de barriga para cima. Quando foi fechar o mosqueteiro, viu ela vomitar o leite. “Assim que começou a vomitar, ela começou a se afogar, pois o vômito voltou”, lembra a mãe.

Imediatamente, Emilaine retirou a criança do berço, e o pai da Mel iniciou a manobra heimlich, de desobstrução das vias aéreas da menina. “Ele pediu para ligar para aos bombeiros. Nós ligamos e caiu no Centro, e nós morávamos na Prainha. Eles foram fazendo o procedimento conosco – por telefone – até desobstruir”, contou.

Emilaine com a filha Mel, atualmente com 10 meses. Foto: Acervo

Emilaine afirma que, quando a equipe de socorro chegou, Mel já estava mais ‘coradinha’. Naquele momento, a família optou por não ir ao hospital, após os bombeiros observarem que a menina estava bem. “Mas, dali se instalou um pavor terrível para eu dar de mama”, ressalta a mãe.

Receosa, a jovem mãe decidiu passar o dia na casa dos pais e redobrar os cuidados com a amamentação da filha. Porém, na noite daquele mesmo domingo, Mel se afogou pela segunda vez. “Ela ficou roxa e ligamos para a central de bombeiros, que fica na Prainha. A bombeira que nos atendeu começou a fazer a manobra com ela, chegaram super rápidos. Dali, fomos para a UPA, para ver se estava tudo certo”.

Com a Mel, o susto havia passado; com a mãe, o medo de acontecer novamente lhe instigava sentimentos de culpa e dificultava na amamentação. Devido às preocupações, que não lhe davam prazer e tranquilidade no momento de amamentar sua filha, Emilaine optou por buscar ajuda com uma pediatra, que lhe orientou sobre a melhor forma de amamentar a menina, colocando a bebê sentada no colo, além disso, descobriu que a Mel tinha refluxo e alergia à proteína do leite.

Hoje, a jovem mãe afirma que o susto passou e, com o desenvolvimento da filha, a alimentação da Mel tornou-se mais tranquila. Mas, mesmo assim, não desfez das orientações básicas para uma amamentação mais tranquila. Após o ocorrido, escreveu seu relato nas redes sociais, o qual, serviu como alerta para outras mães do município.

“A gente batia e ele não voltava”

A empresária Milena de Mira, de 27 anos, moradora do bairro Praia Grande, viu no Instagram quando sua amiga Emilaine relatou o que havia ocorrido com a Mel. Mãe de primeira viagem, a jovem não imaginava que o mesmo ocorreria com seu menino, o Augusto de Mira Furtado, que na época tinha apenas 16 dias de vida.

Augusto de Mira Furtado com seus pais. Foto: Acervo

A mãe conta que seu bebê havia passado uma hora e meia mamando. Ela observou um cansaço nele após a amamentação. Ao realizar o procedimento do arroto, quando ele o fez na segunda vez, Milena viu que o filho havia parado de respirar. “A primeira reação foi ligar para os bombeiros, pois vi que uma amiga minha tinha postado no Instagram, na hora, só me veio ela na cabeça”, revelou.

Em contato com os bombeiros do município, seu marido já realizava a manobra heimlich no bebê sob a orientação da equipe de socorro pelo telefone. “A gente batia e ele não voltava”, contou Milena que, por instantes, ouvia o filho chorar de forma quase imperceptível.

Quando os bombeiros chegaram, a família correu à rua para ser localizada o quanto antes. Imediatamente, os bombeiros pegaram a criança e continuaram a manobra. Eles observaram que Augusto já respirava, mas, ainda, com dificuldade. A criança foi levada para o UPA onde diagnosticaram que o bebê estava com leite no pulmão. “Assim que a equipe aspirou, – o leite – na hora ele começou a chorar”, lembra a mãe.

Mãe e o filho em um passeio. Foto: Acervo

Milena afirma que, assim como a amiga, o medo prevaleceu nas amamentações seguintes e o sentimento a influenciou a realizar amamentações de, apenas, 20 minutos. Em decorrência disso, “ele ficou 15 dias sem ganhar peso, pois não era o suficiente”, afirmou a mãe. Atualmente, Augusto completa quatro meses de muita saúde e graça aos pais. Milena destaca que o ocorrido com o filho foi um aprendizado em sua vida como mãe.

Manobra de heimlich

Rubia Fátima Fuzza Abuabara é pediatra e neonatologista. Ela atua na Clínica Vitae e no Hospital Dona Helena de Joinville. Em entrevista ao Folha Norte SC, a profissional deu orientações fundamentais que podem salvar as vidas de bebês em caso de engasgo.

Rubia Fátima Fuzza Abuabara é pediatra e neonatologista. Foto: Acervo

Para a pediatra, o primeiro passo é ligar para o socorro de sua cidade, sendo o Samu ou corpo de bombeiros. “Se possível, enquanto uma pessoa liga para o socorrista, a outra pessoa já vai realizando a manobra de desengasgo, chamada manobra de heimlich”, complementa. Antes de ensinar a técnica, Rubia levanta a questão fundamental: como eu sei se o bebê está engasgado?


Sinais e sintomas de engasgo/asfixia em bebês:


Dificuldade para respirar ou chorar, tosse fraca e coloração azulada dos lábios podem ser sinais de engasgo por líquidos – leite, água, sucos -, ou sólidos – alimento ou objeto como sementes; partes de brinquedos -. “Nesta situação, é preciso agir rápido e corretamente para poder ajudá-lo”, destacou a pediatra.

Manobra de heimlich: procedimento para desobstrução de vias aéreas de bebês:

Bombeiro Luiz Roberto da Silva apresenta a manobra heimlich aos pais.
Gravação: Acervo
  • Deite o bebê de bruços em seu antebraço, apoiando a cabeça e a mandíbula do bebê em sua mão, mantendo-a mais baixa que o corpo. Com o “calcanhar” da mão livre, dê cinco golpes entre as escápulas – parte superior das costas -;
  • Se o corpo estranho não for eliminado após os cinco golpes, vire o bebê e, ainda mantendo a cabeça mais baixa que o corpo, faça cinco compressões com dois ou três dedos no centro do tórax;
  • Alterne os cinco golpes nas costas e as cinco compressões no peito até que o corpo estranho seja removido ou o bebê consiga respirar, tossir ou chorar. Assim que o bebê se desafogar, interrompa a manobra e o leve para avaliação médica. Se a manobra não tiver êxito ou a criança desmaiar, será necessário iniciar manobras de reanimação cardiorrespiratória por um profissional capacitado.

Para a médica, a boa notícia é que maioria dos casos consegue sucesso com esta manobra. “Vamos aprendê-la, então, pois, literalmente, isso pode salvar vidas!”, finalizou.

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Texto: Herison Schorr

Jornalista formado pela Faculdade Bom Jesus Ielusc

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