Campo-alegrense supera epilepsia e enriquece literatura do município com publicação de quatro livros

Mesmo com dificuldades para escrever, Márcio Augustin, 49 anos, dedica sua vida para contar ‘causos’ dos moradores antigos de Campo Alegre, deixando um rico acervo literário às gerações futuras

A curiosidade o fazia ouvir histórias; a devoção pelo passado, o fez zelar por elas. Das inúmeras contadas em torno das peças do Museu Sto Lat (Museu dos 100 anos), por aqueles que vivenciaram boa parte desta centena, todas elas foram recolhidas com atenção por Márcio Augustin, 49 anos, um colecionador e guardador de memórias antigas que ali trabalhava voluntariamente desde a juventude. “Você lembra disso aqui, compadre? Mas é claro compadre”, diziam os visitantes daquele espaço precioso para seu guardião.

Márcio em seu trabalho no Museu no Distrito de Bateias de Baixo, onde reside. Foto: Acevo

Com a continuidade do tempo, o Museu do Distrito de Bateias de Baixo, aos poucos, esvaziava-se de visitas antigas. Os contadores de ‘causos’ se despediam da vida, e não o frequentavam mais para dedicar um pouco de suas vivências em Campo Alegre. Talvez, partiram sem saber que os fragmentos de suas jornadas no Paraíso da Serra foram eternizadas em livros, publicados por, agora, um novo contador de histórias. ”A gente pegou um caderno e ia anotando o que os mais velhos iam contando”, completou Márcio.

Devido a epilepsia, o campo-alegrense tem dificuldades para escrever. Foto: Acervo

Antes disso, com registros memoráveis em suas mãos, escrita no caderninho para não esquecê-los, Márcio, após o contraturno na Apae de Campo Alegre, onde estudava, passava horas na biblioteca municipal aprendendo como contá-los em livros. Autodidata, o escritor superava a falta de discernimento com a literatura e a falta de habilidade nos movimentos das mãos, por ter epilepsia “devido a uma grave doença que adquiriu ainda na infância”, como conta sua irmã Márcia Regina Augustin Carvalho. 

Segundo relato de amigos e familiares, Márcio passava horas na biblioteca municipal de Campo Alegre. Foto: Acervo

Perseverante, teve o apoio de sua família, que revesaram-se em escrever as histórias que ele replicava dos antigos já falecidos. Uma por uma, memórias transformaram-se em frases, que formam páginas inteiras de quatro obras literárias sobre Campo Alegre. “O que levou ele a superação de escrever esses livros foi a paixão e a dedicação por leitura de histórias antigas. O prazer dele é ouvir pessoas mais velhas contar histórias do tempo que ele era menino”, destacou a irmã. 

Márcia ao lado de seu irmão escritor. Foto: Acervo

Com o apoio do Fundo Municipal de Cultura do município, Márcio deixou para as gerações futuras uma rica coletânea bibliográfica, registradas em quatro obras: “O que já foi Bateias, um pequeno retrato do Distrito de Bateias de Baixo”;  “Campo Alegre: contos e causos da nossa gente”, e “Campo Alegre nas revoluções que a história fala”. 

Márcio com suas quatro obras literárias. Foto: Acervo

Ao observar que muitos dizeres antigos não eram compreendidos por moradores nos municípios vizinhos, e até mesmo pelos jovens, o escritor dedicou-se em criar o próprio dicionário de Campo Alegre que, em 68 páginas, explica alguns termos do tipo: ‘De sangue a fogo’, interpretado na 24ª página da obra “Campo Alegre no falar da nossa gente”. Seu significado?  Trabalho feito muito bem. Trabalho completo. Uma resignação escolhida por mim sobre seu feito.

Com o objetivo de preencher ainda mais as prateleiras da biblioteca que ainda frequenta, Márcio tem mais um projeto: “Causos em torno de um fogo de chão”, que contará as histórias trazidas pelos tropeiros que passavam no município. 

Próximo trabalho do escritor contará histórias de tropeiros que passavam pelo município.
Foto: Acervo

Bem humorado, para o aniversário de Campo Alegre o escritor escolheu um conto de seu acervo: A caixinha do Demônio

No ano de 1926, numa sociedade de comerciantes, chega à localidade de Bateias de Baixo o primeiro aparelho de rádio. A grande novidade. Tendo chegando em Bateias um grupo de tropeiros, para vender cavalos, foi descansar no comércio de Hentler e Wolner. Então o senhor José Wolner liga o rádio e um gaiteiro abre a gaita; foi o maior susto, janelas e portas se fecharam. Toninho e Lapeano correram até a outra esquina do meu avô. “É o fim do mundo!”, diziam.  “Mas, Toninho, não existe fim do mundo”, explicou seu Rodolfo.  “Mas, então, seu Rodolfo, como os senhor pode explicar uma caixinha de madeira tão pequena me cabendo um gaiteiro tocando lá dentro?”, contou Márcio gargalhando-se da história.

Texto: Herison Schorr

Jornalista formado pela Faculdade Bom Jesus Ielusc

2 Comments on "Campo-alegrense supera epilepsia e enriquece literatura do município com publicação de quatro livros"

  1. Fernando Cezanoski | março 18, 2021 at 7:45 pm | Responder

    Conheci o Márcio em 1995, durante período em que morei aí em Bateias de Baixo. Aliás, curto período, mas prazeroso e cheio de boas lembranças. Desde a educação das crianças, que iam cedo comprar doces no mercado que eu trabalhava, ao acolhimento das famílias a um estranho, vindo de outro estado. O Márcio sempre vinha no mercado, sempre empolgado com suas estórias. Sempre educado, empolgado e dedicado ao museu e à linda Bateias de Baixo. Ótimas lembranças.

  2. Parabéns pela reportagem com esse ícone da nossa cidade .

    Totó,Uma lenda viva.

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