Jovem de Garuva transforma traumas do bullying em origamis de esperança para crianças do município

Marcelo Murilo Leite, hoje com 25 anos, conviveu quase uma década com o bullying na escola onde frequentou. Introspectivo, não teve chances de expressar aquilo que sentia com as constantes perseguições. Chegou a ser comparado a uma possível semelhança dele com o rapaz que entrou em uma escola de Realengo e matou de forma vingativa 12 crianças. Após atentar contra própria vida, decidiu que era hora de um despertar, em nome de tantas outras crianças que passam com perseguições escolares

Marcelo Murilo Leite, hoje com 25 anos, era considerado pelos professores um aluno muito quieto. Talvez poucos pudessem imaginar o que passava nos pensamentos daquele menino que costumava viver isolado no canto da sala de aula e até chorar com uma certa frequência. Poucos sabiam o que acontecia com o menino; muitos estavam dispostos a tornar a situação ainda mais dolorosa.

Marcelo ao lado de sua mãe durante o desfile de 7 de setembro, em Garuva. Foto: Acervo

Seu comportamento, hoje visto por ele como reflexos do medo que sentia, estimulavam os demais colegas de classe a praticar algo que, atualmente, é levantado como um problema escolar: o bullying, uma prática de atos violentos, intencionais e repetidos contra uma pessoa indefesa, que podem causar danos físicos e psicológicos às vítimas. Um ódio praticado entre pequenos que, por anos, passou despercebido pelos profissionais da educação. Ao menino, que via-se incapaz de reagir, restava vestir-se com o termo que era a ele denominado.

“Me chamavam tanto de aberração que eu comecei a ter medo de sair de casa”, conta o menino que, por uma inexperiência de uma vida que estava só começando, caiu na tragédia de acreditar nas palavras de seus odiosos. A depressão e a ansiedade passaram a visitá-lo tão cedo.

Não só de risos zombeteiros, cochichos e ofensas é feito o bullying, talvez, tão doloroso quanto, era o silêncio do desprezo. “Ficava sozinho praticamente o período todo. Era horrível ver todo mundo com amigos e eu sozinho. Eu sentia que as pessoas sentiam vergonha de estarem ao meu lado”, lembra o morador do bairro Giorgia Paula, em Garuva.

Das salas de aula à internet, Marcelo viu seu nome virar novamente chacota, com o que é denominado cyberbullying, a mesma violência, só que nas redes sociais. Tudo isso durou cerca de uma década e quase teve um triste fim, quando as dores do que recebia em sala de aula somavam-se com as dores de perder o pai e a doença da mãe, de quem cuida, que hoje é praticamente cega. 

Talvez imitando as histórias infantis que costumamos ouvir, com suas fadas madrinhas, anjos da guarda, alguém pra encher de luz. Foi assim com Marcelo também. Em meio ao ódio, o amor apareceu, ele sempre aparecerá; na história do menino, foi no alento de uma professora que ele encontrou a única chance que teve de expressar sua dor e ser ouvido,  ser convencido de que era precioso. “A diretora Rosângela, na época, era minha professora, ela sempre me ajudava, ficava do meu lado”.

Mas a insegurança ainda era mais forte em sua rotina, amarrando suas vontades de expressões aos seus perseguidores. Ela o impediu de contar ao professor que, na tentativa de lhe ajuda, o mudou de carteira, mas ele não sabia que havia colocado o menino ao lado de seu principal provocador; impediu de defender-se quando o compararam a uma possível semelhança dele com o rapaz que entrou em uma escola de Realengo, onde um dia vivenciou o bullying, e matou de forma vingativa 12 crianças. Introspectivo, quando reagiu, não foi para revidar ao outro, mas, sim, contra si mesmo.   “Cheguei até o limite, até que tentei suicídio”, revelou em entrevista ao Folha Norte SC

Segundo Marcelo, as duas tentativas de tirar a própria vida o fez ficar em um período de um mês e meio frequentando prontos atendimentos e hospitais, “até na minha última tentativa, quando ingeri duas cartelas de Diazepam”, contou. Ao despertar na UPA de Garuva, ao seu lado, estava sua mãe que, aliviada, agradeceu pela vida do filho tão amado.  “Ela diz que eu sou o amiguinho dela, foi com essa frase que eu acordei lá no UPA”.

“Meu coração não tem espaço pra ódio, eu quero voltar na escola espalhando amor”

O despertar de Marcelo naquela maca hospitalar foi, de fato, o renascer de uma nova consciência. Despedindo-se dos sentimentos que o levaram a atentar contra a própria vida, e também a despedida de uma triste vivência escolar ao formar-se no terceiro ano. Sentiu-se com a vontade de levar esperança a milhares de jovens que também passam pelo sofrimento do bullying. 

“Ela diz que eu sou o amiguinho dela, foi com essa frase que eu acordei lá no UPA”, conta Marcelo sobre sua mãe a quem dedica seus cuidados nos dias de hoje. Foto: Acervo

Hoje, cada palavra que lhe machucou um dia, é transformada em origamis que portam finitas frases de motivação, de esperança, de recomeço. “Eu queria fazer algo para ajudar outros jovens que lutam contra a ansiedade e depressão, muitas vezes a dor deles não são compreendidos por familiares e amigos, acham que é drama, eu pensei em fazer isso nas escolas pelo motivo que me levou a ter depressão: foi o bullying sofrido em todo o período que eu estudei”, diz. 

Quando levou os primeiros origamis na escola onde um dia foi perseguido, no lugar do medo aos ataques, Marcelo foi recebido de braços abertos por Rosângela, que tornou-se diretora da instituição. “Se eu estou tentando espalhar essa mensagem para mais escolas é por causa dela”, enfatiza. Voltando ao passado, quando arriscaram que um dia ele voltaria à instituição onde sofreu bullying, para revidar os ataques de forma vingativa, Marcelo deixa um recado: “Meu coração não tem espaço pra ódio, eu quero voltar na escola espalhando amor”.

Atualmente, já fez mais de 10 mil origamis com frases retiradas de músicas, as quais, o garuvense afirma que o ajudaram a repensar em sua importância neste mundo e continuar vivendo aqui para apoiar outros jovens. Seu sonho é um dia espalhar as mensagens, dobradas em formato de coração recheado de esperança, para todas as escolas que conseguir. Ele também destaca o apoio crucial do Centro de Valorização da Vida, que realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail e chat 24 horas todos os dias.

Texto: Herison Schorr

Jornalista formado pela Faculdade Bom Jesus Ielusc

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