Retrospectiva 2020 Folha Norte SC: A natureza não nos perdoou

Alagamentos, tornados e um ciclone que ficou para a história mostraram aos municípios de Araquari, Campo Alegre, Garuva, Itapoá e São Francisco do Sul amostras do que será do futuro da Terra nos próximos anos, com as mudanças climáticas

Mesmo que ainda tão pequenos comparados a toda a imensidão do planeta, os municípios de Araquari, Campo Alegre, Garuva, Itapoá e São Francisco do Sul experimentaram no ano de 2020, segundo cientistas, pequenas mas significativas amostras do que será do futuro da Terra nos próximos anos, com as mudanças climáticas. “O céu escureceu, e tudo desabou”; “Em toda minha vida, nunca tinha visto algo parecido”; “Meus filhos têm medo do que virá”, foram algumas das frases obtidas pelo Folha Norte SC ao cobrir os desastres naturais que assolaram os municípios neste ano onde a natureza não nos perdoou.

As águas de fevereiro

Garuva

Entre os dias 1 e 11 de fevereiro de 2020, Garuva registrou o recorde de chuva em todo o Estado. Foram 716,4mm registrados. O esperado para todo o mês de fevereiro era de 271mm, e a média de precipitação anual é de 2100mm, de acordo com o Serviço Geológico do Brasil

Centro de Garuva. Foto: Divulgação

No dia 5 de fevereiro de 2020, o prefeito Rodrigo Adriany David decretou situação de emergência no município devido as fortes chuvas que ocorreram a partir da tarde do dia 4 de fevereiro. Na ocasião, foi registrado 174mm em 4 horas. No total, 15 pessoas ficaram desalojadas e foram abrigadas em casas de parentes, e uma família solicitou aluguel social.

Em meio das histórias que as enchestes de fevereiro revelaram, descobrimos a do pequeno Arthur que viu sua casa ser invadida pelas águas, e, durante a visita do Folha Norte SC, ainda apresentava traumas do ocorrido.

Sua mãe, Adrieli Siqueira, 24 anos, do lar, contou na ocasião que o momento mais doloroso daquela tarde foi ver seu filho, que tem autismo, apavorar-se com a água invadindo a casa. Sua primeira atitude foi colocá-lo em cima do banquinho mais alto que encontrou, pois sua imunidade é muito baixa e tem facilidade em contrair doenças.

“Minha casa, mamãe, minha casa!”, dizia o pequeno Arthur, de cinco anos, sem entender o que acontecia.

Família do pequeno Arthur. Foto: Herison Schorr

Após uma campanha realizada pelo jornal, a população de Garuva mobilizou-se para ajudar a família do menino.

Itapoá

Pelo menos 35 famílias foram desalojadas e 16 pessoas desabrigadas por causa das fortes chuvas que atingem o município de Itapoá naquele período. Com registros de alagamentos nos bairros Itapema do Norte, Barra do Saí, Cambiju e São José, o prefeito Marlon Neuber decidiu decretar, na manhã do dia 10, a situação de emergência.

Foto: Divulgação

Segundo a Defesa Civil do município, o nível do rio Saí-Mirim, que corta boa parte da cidade, esteve 2,50 metros acima do nível normal. O Grupo de Ações Coordenadas da Prefeitura de Itapoá preparou uma estrutura de apoio no ginásio da Escola Frei Valentim, no balneário Princesa do Mar, que recebeu as famílias desalojadas ou desabrigadas. De acordo com a Epagri/Ciram, o acumulado de chuvas registrado naquele final de semana na área central de Itapoá chegou a 104 milímetros.

Durante o período de enchente em Itapoá, um registro ficou para a história do município. Dez membros de uma mesma família e seus treze animais de estimação, sendo eles dez cães, duas galinhas e um gato foram resgatados pelo Corpo de Bombeiros de Itapoá, na localidade de Barra do Saí.

Após as fortes chuvas que atingiram o município, somado com o pico da maré, os moradores esperavam aflitos, com água pela cintura, a chegada da guarnição que realizou o resgate por bote.

Foto: Divulgação

Segundo o sargento Anderson Carlos Kujavski, 45 anos, que ajudou no salvamento, mesmo com as dificuldades da humilde família, que havia em seu meio crianças, uma senhora de 90 anos e um adolescente especial, não permitiram que nenhum de seus animais de estimação fossem deixados para trás. “Além desta família, encontramos outras pelo caminho que esperavam o resgate com seus animais”, contou.

São Francisco do Sul

A forte chuva que caiu no início da tarde daquela quinta-feira (6) provocou estragos e alagamentos em vários pontos de São Francisco do Sul. A Defesa Civil do município registrou ocorrências no Morro Grande, Acaraí, Verde Teto, Morro da Mina, Miranda e Majorca.

Em um local na Rua 25 de Dezembro, em frente ao antigo Pesque-Pague, em pouco mais de 15 minutos a água subiu quase um metro, atingindo duas casas. Segundo a Epagri-Ciram, em um período de 12 horas choveu 136 milímetros.

Foto: Divulgação

No dia seguinte da forte chuva, o prefeito interino Álvaro José Siebers decretou a situação de emergência para o município de São Francisco do Sul. E foi na divulgação deste decreto que o Folha Norte SC conquistou a oitava matéria mais acessada do site, com cerca de 11.500 visualizações.

Gravação: Divulgação

O primeiro sopro de junho

“Eu fui deitar, quando escutei o estrondo”, foi a primeira lembrança que Rosa de Oliveira Bonfim, de 74 anos, revelou ao Folha Norte SC.

O final da tarde do dia 25 de junho foi um grande susto para a aposentada Rosa de Oliveira Bonfim, 74 anos, moradora do final da Rua Carlos Borgenhausen, bairro Giorgia Paula, em Garuva.

Foto: Herison Schorr

Um forte vendaval atingiu sua casa e a casa de seu filho, destruindo os telhados. Segundo informações da família, o prejuízo estimado foi de R$ 3 mil.

Julho: As três horas que duraram uma noite inteira

Vista aérea dos estragos do ciclone bomba, em Garuva. Foto: Divulgação

Na véspera do dia 30 de junho, a Defesa Civil de Santa Catarina emitia alertas de fortes vendavais para todo o Estado, naqueles próximos dias. Como recorrente em todos os anos, onde os municípios são atingidos pelos conhecidos como “ventos de julho” a população se preparou para o que seria mais uma noite gélida que aqueles ventos comuns trariam no auge do inverno. Mas, no final da tarde, quando a primeira nuvem despontou no céu, todos perceberam que não seria só mais um comum vendaval.

Menino garuvense desabrigado pelo ciclone bomba. Foto: Herison Schorr

Às 18h do dia 30, o município de Garuva era atingido pelo que ficou conhecido posteriormente por ciclone bomba que marcou, para sempre, a história do município, tornando-o o mais afetado de Santa Catarina. Foram três horas de pânico que ficaram nas memórias do povo garuvense.

Passagem do ciclone bomba em Garuva. Gravação: Internet

Segundo o sistema de monitoramento meteorológico da Epagri/Ciram, ventos de, aproximadamente, 120 km/h assolaram Garuva. O dado tem como base o registro feito na estação de monitoramento mais próximo, do bairro Vila Nova, em Joinville, já que Garuva não possui um.

Moradores de Garuva em pânico dentro de supermercado durante a passagem do ciclone bomba. Gravação: Herison Schorr

Para Marilene de Lima, meteorologista da entidade, a orografia do município, ou seja, o relevo de Garuva, em destaque para as montanhas e a região aos pés da Serra do Mar, pode ter potencializado a força dos ventos. “A proximidade da montanha pode ter sido um dos fatores que influendiaram a intensidade dos ventos nestes locais” afirmou.

Foto da menina garuvense que perdeu a casa durante a passagem do ciclone bomba repercutiu pelo país e mobilizou uma campanha nacional de doações. Foto: Herison Schorr

A agricultura de Garuva somou cerca de R$ 21 milhões de prejuízo, com R$ 18 milhões em perdas nas lavouras e plantas ornamentais, além de R$ 3 milhões com perdas na infraestrutura agrícola, segundo levantamento da Epagri.

Bananais destruídos por ciclone bomba, em Garuva. Gravação Herison Schorr

Em algum pontos de Garuva a população ficou sem abastecimento de água após canos romperem com as raízes de árvores que foram arrancadas, e cerca de 98% do município ficou sem energia elétrica. Em alguns bairros, como Giorgia Paula, a luz voltou após uma semana. Com cenário semelhante a queda de uma bomba, o prefeito Rodrigo David decretava situação de emergência para o município.

Destruição do ciclone bomba, em Garuva. Gravação: Herison Schorr

Itapoá e São Francisco do Sul

O monitoramento da Epagri/Ciram registrou ventos de 93,60 km/h em Itapoá e 100 km/h em São Francisco do Sul, às 18h durante a passagem do ciclone bomba nos municípios.

Containers derrubados pela força dos ventos, em Itapoá. Gravação: Divulgação

De acordo com informações da assessoria de comunicação da Prefeitura de Itapoá, muitas árvores caíram sobre as estradas, bloqueando acessos, e em São Francisco do Sul dez casas foram atingidas por árvores, e uma funcionária do Centro de Triagem ficou ferida após uma das janelas de vidro estilhaçar próxima de seu rosto.

Destruição do ciclone bomba, em São Francisco do Sul. Foto: Divulgação

Em decorrência dos efeitos do ciclone bomba no mar, a Defesa Civil do Estado emitiu naquela tarde um alerta de ressaca com ondas de até 4,5 metros e alagamentos costeiros para os municípios, e os prefeitos decretaram situação de emergência.

Campo Alegre e Araquari

O Folha Norte SC estreava com a cobertura aos municípios de Campo Alegre e Araquari. Com o ciclone bomba, Araquari teve 30 registros entre queda de árvores e destelhamentos. Em Campo Alegre, a SC- 418 ficou interditada com a queda de árvores na pista.

Rodovia SC- 418 bloqueada por árvores, em Campo Alegre. Foto: Divulgação

Das cinzas do ciclone, renasce a cooperação

Após a passagem do ciclone bomba, uma rede de mobilizações chegou de todo o país para reconstruir os municípios atingidos.

Empresa Dutex de Garuva entregou uma casa à família de um menino autista desabrigada pelo ciclone bomba. Foto: Herison Schorr

A Ong Esperança Brasil reconstruiu 10 casas e recuperou diversas outras em Garuva. Além disso, mais de 100 cestas básicas, roupas e móveis foram distribuídos com mais de 50 pessoas voluntárias envolvidas.

Na semana seguinte da tempestade, a Prefeitura de Garuva lançou uma campanha nas redes sociais para captar recursos que foram revertidos em telhas e cestas básicas.

O Folha Norte SC também fez sua parte para ajudar na reconstrução do município, contando em uma série de reportagens as histórias das famílias atingidas pelo ciclone bomba. Imediatamente, os moradores receberam doações de todo o país e reconstruíram seus lares.

Mãe e filho desabrigados pelo ciclone bomba: Herison Schorr

A banda garuvense Nega Jurema compôs uma música relacionada ao fatídico evento natural e conquistou a região mostrando a perseverança da população garuvense que reergueu-se. Em uma live da banda em prol dos desabrigados pelo ciclone bomba em Garuva, foram arrecadados cerca de R$60 em doações.

Gravação: Divulgação

O tornado de agosto

Ainda traumatizados pela devastação do ciclone bomba, a população garuvense e de demais municípios da região presenciaram um fenômeno que mostrou, mais uma vez, o poder destrutivo da natureza. Desta vez, o responsáveis pelos estragos foram uma séries de tornados que atingiram os municípios no Norte de Santa Catarina.

Ventos arrancaram o telhado de uma casa, em Garuva. Gravação: Divulgação

Em levantamento da Epagri sobre o impacto do vendaval ocorrido em Santa Catarina nos dias 14 e 15 de agosto, que resultou na formação de tornados, foram apontados perdas estimadas em mais de R$50 milhões na área rural.

Municípios de SC atingidos pelos tornados. Foto: Epagri/Ciram

Segundo o relatório, foram atingidos 1.119 estabelecimentos agropecuários em 22 municípios, concentrados no Planalto Sul, Planalto Norte, Meio Oeste e Litoral Norte Catarinense, como Garuva, Itapoá, São Francisco do Sul, Campo Alegre e Araquari.

Águas de dezembro

Enquanto esta reportagem especial era finalizada, os alertas da natureza mostravam mais uma vez que o ano de 2020 seria, de fato, marcado pela atenção mundial sobre nossas ações que afetam o desequilíbrio do clima global.

Em um recente alerta emitido pela Defesa Civil do Estado, Araquari, Campo Alegre, Garuva, Itapoá e São Francisco do Sul encerrarão 2020 com cuidados relacionados aos possíveis deslizamentos de terra que poderão assolar os municípios pelas próximas horas, devido ao acúmulo de chuva.

Arte: Defesa Civil de SC

De acordo com previsões da Epagri/Ciram, começaremos 2021 com a certeza de que precisamos repensar nosso papel perante a soberania da natureza.

Texto: Herison Schorr

Jornalista formado pela Faculdade Bom Jesus Ielusc

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