No pós-finados, floresça, também, a casa dos vivos que amamos

Muitos idosos amantes de flores são esquecidos o ano inteiro, mas lembrados após sua partida, quando as flores que poderiam alegrar suas vidas são dedicadas em memória de suas mortes

Ainda lembro da história contada sobre uma bondosa senhora chamada de dona Senhorinha, que era apaixonada pelas flores. Com o dinheiro meio escasso para embelezar seu pequeno jardim, o que restava à dona Senhorinha era contemplar a beleza dos jardins da vizinhança por onde caminhava, enchendo os olhos com aquilo que sempre sonhou para sua casa de madeira lilás. Seus olhos também se enchiam de suspiros de pesar, pois dificilmente era lembrada pelos filhos e netos que, de visitas, também eram escassas.

Era como ganhar uma pepita de ouro raro quando ouvia a famosa frase: “A senhora quer uma mudinha?” Para os outros, podia ser apenas uma planta, mas, para ela, era um singelo símbolo de vivacidade que era dedicado-a, transformada em raízes, caules, folhas e pétalas postas em suas estantes, ao lado de um pato de cerâmica; em cima do fogão, sobre um pano de prato com dizeres bíblicos; ao lado de um criado-mudo, feito com caixotes de frutas da estação.

Mesmo com as lembrancinhas verdíneas das vizinhanças, dona Senhorinha olhava amoada para as plantinhas, pois sabia que nenhuma delas eram presentes dos seus tão ocupados filhos e netos com suas rotinas de estudos e trabalhos. Mesmo assim, eram imensamente amados e estavam em todas as suas orações. Aí ela foi se despedaçando aos poucos. Era inverno. Foi assim de uns dias em diante, murchando-se como as próprias plantinhas que cultivava. Até que a última pétala se despediu.

Em seu funeral, como forma de homenageá-la, a família fez questão de comprar 13 coroas de flores e dúzias de vasos com margaridas. Era nítido o remorso que sentiam ao observarem a imensidão de flores adornando alguém que tanto às amava, mas não estava mais presente para apreciá-las. Em silêncio, seguiram ao cortejo do repouso final de dona Senhorinha. Olhavam-se procurando uma forma de justificar aquilo que nunca fizeram por ela em vida. Na casa dela, encontraram um pequeno envelope debaixo da bíblia com recortes de fotos de flores que um dia ela queria ter, ao lado de fotografias deles que, hoje, ainda rezam para que, aonde ela estivesse, encontrasse o jardim que nunca a deram.

São histórias que ouvimos assim que nos fazem refletir das quantas vezes que fomos ao cemitério florescer os túmulos daqueles que, em vida, dificilmente lembramos pela rotina da vida, principalmente os avós que sempre esperaram aquela visita adiada; o café com bolo esperando; as flores que os encheriam de mais vida e lembranças, mesmo que últimas, de mais uma primavera sendo amados e lembrados. Todos conhecem aqueles que cultivam flores e um amor imenso por nós. Aproveite, ainda há tempo. Floresça a casa deles com ternura, carinho, margaridas, orquídeas, lembranças coloridas… E veja os sorrisos de gratidão brotarem novamente.

Texto: Herison Schorr

Jornalista formado pela Faculdade Bom Jesus Ielusc

Seja o primeiro a comentar

Deixe um comentário

Seu email não será publicado


*