Itapoá: Quando uma mãe com dois filhos autistas é tocada pela depressão

A depressão em mães com filhos autistas torna-se recorrente à medida que tanto ela quanto o filho são abandonados pelo círculo familiar que, de forma subjetiva, e até objetiva, rejeitam a criança, por não suprir as expectativas que também criaram em torno dela

O coração de uma mãe em gestação é um oceano de expectativas. Nele há cada passo que um dia aquele que virá em seguida poderá seguir, entre tantos os caminhos; os mais seguros, com as orientações de sua gestora. Mas, mesmo que os caminhos ainda são elementos criados por nós, há aqueles que, abruptamente, surgem do canto da estrada, e a vida é levada para um novo sentido. E o sentido ganha um nova expectativa, agora, incerta. E tudo que é incerto inconscientemente causa o medo, pelo desconhecido.

Talvez, assim, consiga traduzir os sentimentos de uma mãe que recebe o diagnóstico de autismo do um filho, tendo como parâmetro as tantas histórias que já ouvi até aqui. Muitas são aquelas que revelam um sentimento de luto com os exames na mão, após serem lidos. E esse sentimento gera a culpa, a culpa de se sentir incapaz de imaginar, de primeiro momento, um futuro seguro e ideal para eles; quando menos se espera, ela chega e torna-se um elemento a mais na nova rotina da família, causando, também, culpa.

A depressão em mães com filhos autistas torna-se recorrente à medida que tanto ela quanto o filho são abandonados pelo círculo familiar que, de forma subjetiva, e até objetiva, rejeitam a criança, por ela não suprir as expectativas que também criaram em torno dela e em sua genitora, instigando uma culpa à ela, principalmente quando o filho se desenvolve em suas limitações e passa a causar, na visão delas, um desconforto com suas características. E os convites aos aniversários dos priminhos não são enviados, “pois a criança faz muita bagunça”, dizem. E os corações que antes eram oceanos se dilaceram.

A morte de uma mãe para o renascimento de outra

Há cerca de quatro anos, a dona de casa Christiane Aparecida Schmekel, 37 anos, moradora do bairro Itapema do Norte, em Itapoá, buscou por especialistas após observar os comportamentos atípicos de seus dois únicos filhos que tinham na época três e dois anos e três meses. “O Luan tinha problema de comportamento na creche e o Lucas em casa, pois não se socializava, só comigo, então fomos buscar ajuda por causa disso”, conta a mãe que, naquele mesmo dia, descobriu que os dois únicos filhos eram autistas. Ela conta que foi tomada pelo luto com a morte inconsciente dos “filhos perfeitos” que um dia construiu.

Christiane com os filhos Luan e Lucas. Foto: Acervo

A psicóloga Ana Luiza Valente de Oliveira, 58 anos, que trabalha com o tratamento de mães de autistas conta que elas costumam identificar as diferenças de seus filhos, que destoam do que é dito como normal, desde o berço, e quando elas recebem o diagnóstico do autismo é uma confirmação das suspeitas que, desde o início, desconstruía a noção de perfeição que elas haviam imaginado no início da concepção da ideia de casar e ter filhos. “Está selado, o meu nenezinho não é aquele que esperei durante a minha vida toda”, sugere a psicóloga. Com o choque da realidade, é hora, agora, de construir uma nova mãe.

“O trabalho do psicólogo é fazer a mãe morrer simbolicamente como a mãe do filho que estava construído; agora, como sendo mãe de uma criança diferente daquela que ela imaginava, para se reconstruir como mãe de uma criança autista”, ressalta.

Psicóloga Ana Luiza Valente de Oliveira

Outra questão apresentada pela psicóloga é que não são todas as mães que desenvolvem a depressão após os diagnósticos dos filhos; porém, o luto, nesses casos, torna-se recorrente com a morte da construção imaginária do “filho perfeito”, com a constatação de síndromes adversas que tiram dela a expectativa que contraíram sobre as crianças, e também, com a consciência da sociedade atual, que tem dificuldades de lidar e aceitar as diferenças.

A vida solitária da mãe de autista

Christiane revela que após o “luto”, a depressão acabou ficando, pois devido as dificuldades em casa, viu-se deprimida e desmotivada em relação àquela nova vida. “Foi bem frustrante, eu me sentia culpada, que podia ser comigo por eles terem nascido assim, me senti muito triste. Muitas vezes, queria aceitar; muitas vezes, não. Olhava pra eles e ficava imaginando como seria e como vai ser”, conta.

Luan e Lucas com a prima no período que foram diagnosticados como autistas. Foto: Acervo

A mãe passou a evitar sair de casa, com a intenção de preservar os filhos do preconceito, isolando-se do mundo. “É uma vida solitária, às vezes, você se vê rodeada de gente, e aí todo mundo se afasta por não entender; é uma vida bem triste”, afirma. Em momentos de solidão e desespero, a mãe recorre a outras duas: Nossa Senhora Aparecida, a quem é devota, e a sua mãe que, ao lado do marido, padrasto de Christiane, foram as únicas pessoas da família que não se afastaram da mãe solitária e dos filhos.

Outra questão que contribuiu para desenvolver seu quadro depressivo foi, segundo ela, a recorrência de seu marido pela bebida alcoólica, para fugir da realidade dos diagnósticos dos filhos que ainda tem dificuldades para aceitar. Ele acabou se afastando do trabalho para, ao lado da esposa, buscar por apoio psicológico com a intenção de amenizar a depressão.

Como forma de auxiliar as mães de autistas, a psicóloga sugere o apoio da família em geral, que é fundamental para aquela mãe que, muitas vezes, é incumbida de gerir sozinha pelo filho. “A criança autista é membro de uma família e não de uma mãe só”, enfatiza. Mas, recorrente, o que a mãe observa é o afastamento da família, que olha para a criança com sentimento de “coitadismo”, “porque cada um rejeitou a criança em seu imaginário e essa mãe é quem ficou com a principal incumbência de reconstruir essa criança, sozinha muitas vezes”, conta a profissional destacando que é nesse processo que a depressão pode se desenvolver.

Mãe e filho: em busca da autonomia

Ana destaca que, em uma das reuniões, uma das mães assistas por ela afirmou que buscava com profissionais estímulos para seu filho tornar-se mais autônomo e, com isso, dar um pouco mais de liberdade para ela que via-se voltada 100 % para a criança, pois, com o afastamento da família, não havia outra pessoa para ajudar com os cuidados do filho.

A psicóloga ressalta que essa busca por apoio para estimular a autonomia do filho é importante para ambos, mas, “sem querer ultrapassar e desconsiderar os limites que ele tem, porque quem vai sofrer é a própria criança”, enfatiza. A profissional alerta que esse processo pode ser frustante e agravar ainda mais o quadro depressivo da gestora, tendo em vista que cada autista se desenvolverá de forma diferente e em até certo ponto.

Meninos ao lado da avó, mãe de Christiane. Foto: Acervo

Com a terapia, Christiane afirma que foi conhecendo melhor a condição do autista, lendo livros sobre o assunto e conhecendo outras mães que já haviam passado por essa fase. Aos poucos, conseguia lidar melhor com a depressão, assim que passou a aceitar mais as condições dos filhos. “Quando consegui sair desse luto, consegui ajudar meus filhos, que começaram a progredir”, conta a mãe que observa, aos poucos, a evolução dos meninos hoje com nove e sete anos.

Para o futuro, Christiane tinha como plano o retorno à sala de aula, por ser professora, mas como os filhos precisam de cuidados constantes, como as medicações que precisam tomar em horários regrados, tem consciência que terá que trabalhar em casa, para assisti-los. ” Às vezes, faço coxinha, ou outra coisa e vendo. Sempre estou me virando com alguma coisa”, conta. Uma das sugestões para trabalhar em casa, é a vontade de ter uma máquina de costura e trabalhar com alfaiataria, mas não possui condições de comprá-la. Mesmo com as dificuldades, a mãe conta que está confiante com a progressão dos filhos que, atualmente, fazem até aulas de Muay thai e recebem amigos em casa para brincar.

Para os leitores que quiserem doar uma máquina de costura para a família de Christiane, entre em contato pelo telefone: 47 997037315

Texto: Herison Schorr

Jornalista formado pela Faculdade Bom Jesus Ielusc

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