Princesa Mononoke – crítica –

Princesa Mononoke e o lobo-deus

A relação do ser humano com a natureza nunca foi pacífica. Sempre tivemos que lutar para sobreviver. Quanto mais batalhas eram vencidas, mais a luta por sobrevivência se transformava em uma luta por poder. Nosso domínio e força extinguiu espécies, devastou florestas e poluiu rios. A natureza perdeu, conseguimos dominar e manipular quase todos os seus recursos, mas nós também perdemos. O mundo retratado em Princesa Mononoke tenta mostrar exatamente isso, as vitórias do homem sobre a natureza. A destruição de um velho mundo e o nascimento de um novo.  

O choque

O filme começa com a tribo Aino sendo atacada por um demônio-deus da floresta. O príncipe Ashitaka mata o demônio, mas é vítima de uma maldição. Ele então é expulso da tribo e vai rumo ao sul para descobrir uma cura. Em sua viagem, Ashitaka chega em Tataraba, uma vila que sobrevive da extração do ferro desmatando a Floresta dos Antigos Deuses-Animais. Ele  encontra então um novo mundo em choque com o antigo. 

Diferente da maioria dos heróis, Ashitaka não nega seu destino, nem busca um mestre ou  precisa ser convencido a fazer o certo. Os anciões o expulsam, ele aceita e vai em busca de uma cura, sem questionar. Quando descobre que sua maldição é motivada pela guerra entre humanos e Deuses, ele decide intervir. Diferente dos outros personagens, o Príncipe deseja parar a destruição. Ele quer encontrar uma forma de conciliar os interesses dos homens com a natureza.  

Interesses que entram em colisão com San, a Princesa Mononoke, órfã criada por lobos-deuses e Eboshi, a líder da vila que constrói armas com o ferro extraído. Mononoke representa aqueles que veem a espécie humana como a origem da destruição do meio ambiente. Para princesa, a solução é o extermínio de todos os seres humanos. Eboshi, vê na capacidade de suas armas matarem deuses-animais a vitória da evolução humana. A líder da vila pretende conquistar todo o poder sobre homens e deuses. 

É interessante notar, os animais-deuses eram invencíveis até Eboshi desenvolver as armas. A arma, no filme é o símbolo da destruição da magia e do conhecimento antigo. Quando os seres humanos matam os deuses, eles o transforma em demônio que deseja apenas a destruição. De certa forma, o filme mostra o caos de um mundo que não só perde seus deuses, mas seu espírito. 

Metáfora

Ao fim, Princesa Mononoke cria metáforas para falar da relação da humanidade com a natureza. Tudo de um ponto de vista trágico. Vemos o progresso da humanidade, vemos ela se distanciando de uma relação harmoniosa com a natureza e o perigo da destruição. Moralmente, o filme possui um sentido de alerta, mas em nenhum momento isso atrapalha o desenvolvimento dramático da obra. Ashitaka deseja a conciliação, mas ele sabe que o mundo não voltará a ser o que foi, talvez por isso aceite seu destino. 

Hayao Miyazaki, fundador do Studio Ghibli e diretor do filme, criou uma obra maravilhosa com um sentido político trágico, mas também com esperança. O filme mostra personagens imperfeitos, com desejos conflituosos, mas também mostra capacidade de crescimento e compreensão. Como Ashitaka, Miyazaki parece acreditar na esperança da humanidade… 

Leia a crítica do filme O Poço.

João Diego Leite
João Diego Leite

É jornalista formado no Bom Jesus Ielusc, em Joinville. Especialista em cinema pela Universidade Tuiuti do Paraná e escreve sobre cinema há quatro anos No blog Clube de Cinema Outubro

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