Juventus FC: futebol feminino amador de Itapoá conquista título e dribla preconceito

Foto: Ludieri Graça

O futebol feminino vem conquistando espaço tanto dentro quanto fora das quatro linhas. Após receber cartão vermelho durante a Ditadura Militar, quando todos os times de futebol feminino foram suspensos, as equipes se recriaram e, atualmente, não medem esforços para driblarem o preconceito. 

Embora o futebol feminino ainda seja visto com maus olhos em muitas regiões do país, em Itapoá a história tem tomado rumos diferentes. Na tarde de ontem (1), as meninas do Juventus Futebol Clube, time amador de Itapoá, fizeram bonito e, nos pênaltis, venceram o Campeonato Suíço de Futebol Feminino de Itapoá. Além deste título, as meninas vêm vencendo muitas barreiras quando se trata de ocupar espaços e lutar pela igualdade no esporte. 

A maioria do time do Juventus é composto por esposas e mães. Roberta Gomes, de 40 anos,  tem dois filhos já adultos e, sempre que possível, os convida para estar na torcida, além da mãe, irmãs e sobrinhos. Mas nem sempre foi assim, diz Roberta. Quando era casada, o marido a proibia de entrar em campo. 

Roberta Gomes, zagueira da Juventus FC. Foto: Ludieri Graça

“Não havia um entendimento entre a gente, sempre que eu falava que ia jogar, começava uma discussão. Ele tinha que me apoiar, eu estava apenas praticando um esporte”, conta. 

Roberta, que atua como zagueira no time, começou a praticar o esporte com 12 anos, casou-se aos 19 e, após constituir família, teve de dar um tempo no futebol. 

“No começo, por respeito a meu marido, parei de jogar, porém, com o tempo, percebi que não valia a pena e voltei a campo”, diz. 

Já com Jhenifer Böge Adriano, de 28 anos, a goleira menos vazada da competição, a história é diferente. Segundo ela, desde os seis meses, nos braços do pai, Luiz, a filhinha Giovanna sempre esteve à beira do gramado, vendo a mãe atuar em campo. 

Goleira Jhenifer com marido e a filha. Foto: Ludieri Graça

“Estou há mais de dois meses sem parar em casa nos finais de semana por conta dos jogos, e meu marido sempre me ajuda e me apoia no que pode”, conta. 

Giovanna, atualmente com 7 anos, pede para assistir a todos os jogos, tanto da mãe quanto do pai, que também é jogador amador. A menina gosta de futebol e até arrisca uns passes. Se vai ser jogadora de futebol também, só o tempo dirá, mas, por enquanto, atua na parte de fora do gramado, dançando e cantando ou atenta, esperando o apito final para ser a primeira a correr e abraçar os pais, independente do resultado. 

A zagueira Roberta enfatiza a importância da participação da comunidade nesses eventos e acredita que o apoio ao futebol feminino só tende a crescer. 

“A maioria dos maridos frequentam os jogos e cuidam dos filhos enquanto as esposas estão em campo. Isso é bem importante para nós, mulheres, que às vezes deixamos de participar por não ter com quem deixar as crianças ou por sermos proibidas.”

Camila de Oliveira Lopes, de 19 anos, meia da equipe, sempre foi apaixonada por futebol e começou a praticar o esporte ainda na escola. A meia-campista explica que as meninas da Juventus têm sofrido pouco com machismo e assédio nas partidas que disputam, mas sempre tem um ‘engraçadinho’ na arquibancada. 

Camila com troféu conquistado. Foto: Ludieri Graça

“Às vezes a gente escuta: ‘aquela ali joga igual a um homem’, como se mulher não pudesse jogar bem”, defende. 

Para Camila, que concilia os estudos em educação física, estágio na área e o esporte, o futebol feminino cresce cada vez mais e a luta dessas esportistas a serve como inspiração. 

“O que me inspira é ver e poder fazer parte dessa luta do futebol feminino, que só vem crescendo cada vez mais”, se orgulha. 

A equipe

Foto: Ludieri Graça

A equipe da Juventus FC foi fundada por Tcheslley Cabral Vieira de Azevedo, 32 anos, em fevereiro de 2005. De acordo com o fundador e atual técnico da Juventus, o nome do clube veio pelo gosto que tem pela Juve da Itália e a ideia de montar um time veio pelo gosto que tem pelo futebol. 

Atualmente, a maioria das 18 meninas que compõem a equipe são de Itapoá. Tcheslley diz que nunca sofreu nenhum tipo de preconceito por treinar meninas, mas que comercialmente elas precisam ainda de muito apoio. 

“A maioria das pessoas nos apoia, mas ainda precisamos muito de apoio financeiro e, principalmente de mais campeonatos para disputarmos, porque quanto mais nos veem, mais espaço conquistamos”, explica. 

A equipe de futebol amador, que também disputa as modalidades de areia e futsal, é Decacampeã de Futsal, Tricampeã de Futebol de Areia, Bicampeã de Futebol de campo e campeã da Copa Itapoá de Futebol, além de campeã Municipal de Futebol Suíço, título conquistado no último domingo. Na soma total, a equipe principal possui 17 troféus.

A partida

Após 40 minutos de bola rolando, com a partida empatada em 1×1, a disputa foi para os pênaltis entre as equipes da Juventus e Ajaf. O time do Juventus não errou nenhum chute a gol e sagrou-se campeão da competição invicto, com seis vitórias, um empate e apenas um gol sofrido. 

Foram 19 partidas disputadas e seis equipes participantes no campeonato. As equipes do Entre Elas e Aliança ocuparam os terceiro e quarto lugar, respectivamente. De acordo com Valdir Gomes Graminho, diretor de esportes do município, a competição não teve nenhum cartão vermelho, uma marca histórica para o torneio. 

Sabrina Quariniri
Sabrina Quariniri

Jornalista


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