Itapoá: para dar conforto à filha com paralisia, mãe vende pães assados com forno emprestado do vizinho

Sem ter condições de comprar um fogão novo, Sonia recebe apoio de moradores próximos para produzir as massas e sustentar a filha de 31 anos que teve meningite na infância

Em alguns dias da semana, a varanda de Sonia Maria dos Santos, de 58 anos, torna-se perfumada com os as fornadas de pães que são assados naquele ambiente, localizado na rua Leopoldo Sprenger, em Itapoá; o sabor das massas? Impecável segundo clientes assíduos; a história de quem os produz; uma vontade imensa de saborear pães sovados por mãos que também amparam, que também acolhem e que, muitas vezes, já machucaram-se para dar a filha de 31 anos, com sequelas de uma meningite, toda a felicidade que está em seus alcances, no plural, mesmo, pois são incontáveis as formas que a mãe encontra para ver sua filha, ao menos, respirar quietinha, como gosta de ficar em sua cadeira de rodas.

Foto/Divulgação

No verão, faz geladinho; faz massa de macarrão e bolo quando sobra dinheiro para comprar os ingredientes. Aí Sonia sai com a filha pelas estradas de Itapoá, em dia de sol; em dias não tão secos assim. “Se tiver chovendo, eu coloco um saco nas perninhas dela e vou com guarda-chuva”, conta a mãe que orgulha-se por não deixar, em nenhum momento, a filha sozinha ou com um desconhecido, por não conhecer quase ninguém no município.

Seria estranho de se entender porque uma mulher assa pães justamente na varanda, em uma casa que um dia foi pousada. Mas toda estranheza sempre acaba escondendo uma questão, e a questão oculta é que Sonia não tem dinheiro suficiente para comprar nem mesmo um fogão novo. “Então eu empresto do vizinho, aí tiro o meu gás e levo na varanda pra assar os pães”, revela sobre seu velho forno não funciona a parte de assar. 

Mesmo com este, para ela, mínimo desafio, a moradora de Itapoá é grata por muitas coisas. Pela solidariedade dos vizinhos, pelas pessoas que compram e dão até mais do valor do pão,  que é R$ 6 reais – “dão até  50” –  mas, principalmente, é grata pela vida da filha. 

“Não tem dia nenhum que seja ruim pra mim, eu estando com ela é uma bênção de Deus, só me dói por dentro não poder dar uma assistência melhor para minha filha”, emociona-se.

Aí ela conta da dor e logo vem choro, escondida em outro quarto para sua filha não sentir seu desmoronar. “Tem dias que eu olho pra ela e choro às escondidas”, diz sobre o sonho de reverter o destino daquela menina de cinco anos que entrou andando e conversando em um hospital de Curitiba, mas saiu entre a vida e a morte, amparada por aparelhos respiratórios desconhecidos por aquela mãe que pouco entendia o ocorrido. 

Devido a meningite, Daiane Pricila Toledo perdeu, aos poucos, a visão, a voz e a mobilidade; aos 15, quase partiu após uma cirurgia na coluna, onde deixou de andar de vez. “É muito difícil pra gente, pois, quando ela está com dor, eu sofro também, pois ela não sabe falar e eu tenho que adivinhar o que ela tem. Eu dou remedinho para alguma coisa ou outra”, afirma a mãe que precisa de ajuda para identificar as medicações por não saber ler nem escrever.

Foto:Divulgação

O sonho de um dia sair do aluguel, hoje, em R$ 550 reais, pagos com a metade do benefício da filha, cerca de um salário mínimo, ficou mais distante com a pandemia da Covid-19. A drástica queda de clientes e uma lesão dos braços, causada pelos trabalhos da vida, fez Sonia apelar para a ajuda dos outros dois filhos e de clientes próximos, mesmo constrangida em pedir. Todos ajudam-na, pois são gratos pela mãe que criou os filhos e pela perseverança de uma mulher.

Toda a ajuda que chega em sua casa é para dar o melhor à Daiane. Um iogurte, um danoninho, “aquelas comidinhas de bebê”; fraldas, medicamentos e até lenço umedecido para higienizar a filha que precisa passar por lavagem para evacuar, pois não consegue fazê-lo naturalmente.

Sonia agradece a Deus e Jesus pela companhia da filha que, mesmo depois de tantas perdas, ainda está ali, do ladinho dela, ouvindo a mãe bater com força a massa na mesa; cheirando o perfume de uma comida que ela nem pode provar; sentindo a mãe entrelaçar seus cabelos, desde menina; sabendo que é daquele ser que beija, que alimenta, que nina no colo, é dali que vem o primordial que o mundo pode lhe dar.

Infelizmente, com o analfabetismo de Sonia, que dificulta a vida dela e a de 11,3 milhões de brasileiros, segundo dados do IBGE de 2018, não decifrará nem mesmo as palavras que construíram, nesta reportagem, a sua história e não entenderá as mensagens escritas e enviadas para seu apoio nas vendas, por isso, lembrem-se de mandarem áudios, da mesma forma como ela nos contou sua vida.

Para quem quiser comprar os pães de Sonia, entrem em contato pelo WhatsApp: (41) 99585-0157

Herison Schorr
Herison Schorr

Jornalista e escritor formado pela Faculdade Bom Jesus Ielusc

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