Bebê de Garuva é batizado por adeptos de quatro denominações religiosas

Das avós católica e espírita às tias evangélica e umbandista, o menino recebeu as bênçãos de cada fé presente em sua família

O pequeno Iago Kulkamp Cristofolini, de três meses, recebeu no final da tarde de sábado (16) as bênçãos da família em um batizado ao ar livre nos fundos do Lar de Apoio Espirital Alvorada, localizado no bairro Vila Verde, em Garuva.  Mas, diferente das demais cerimônias que seguem específicos rituais de acordo com as vertentes cristãs, o menino foi apresentado e abençoado por quatro membros da família com diferentes denominações religiosas.

Padrinhos abençoaram o menino com água, óleo aromático e um ramo de alecrim.
Foto: Herison Schorr

Das avós católica e espírita às tias evangélica e umbandista, cada uma delas discursou sobre sua fé particular e como cada vertente ajudaria na jornada do menino. Em suas mãos, seguravam símbolos que materializaram cada dogma, deixados nos quatro cantos do espaço criado para o rito, representando o alicerce que Iago terá na vida; de suas bocas, dedicavam ao pequeno membro da família os melhores desejos para seu futuro.

Segundo o autônomo Fernando Cristofolini, 31 anos, e a professora Luciana Kulkamp Cristofolini, 30 anos, pais do menino e adeptos do espiritismo, a ideia de fazer uma celebração ecumênica para o batismo do filho foi uma inspiração sugerida por seus mentores que conduziram a preparação da cerimônia em cada detalhe. Segundo a mãe, a intenção da espiritualidade é mostrar ao filho a importância que cada denominação terá em sua vida, assim como os familiares que as representam. “O Iago não vai ser de um lugar só, ele será de vários lugares e a gente precisa passar isso pra ele”, afirma. 

Pais e irmão do pequeno Iago. Foto: Herison Schorr

De acordo com o pai, este é o mesmo ensinamento dado ao outro filho que frequenta tanto a missa com a avó materna, quando às sessões espíritas com a avó paterna e ressalta que dará total liberdade para os filhos escolherem qual religião seguir ou até mesmo a descrença por todas elas, desde que tenham como princípio os valores do amor e do respeito.

“Uma pessoa de bem, uma pessoa que ajuda o próximo tem muito mais valia do que alguém que está assiduamente na igreja ou um centro espírita todo os dias, mas que é vazia”, afirma.  

A partir do momento que as pessoas compreenderem que as religiões são mais parecidas do que elas pensam, acabará um pouco do medo, como sugere Luciana. Para ela, o temor à crença do outro é responsável pelo afastamento entre os adeptos de vertentes diferentes, afirmando que também já sentiu medo quando foi convidada, pela primeira vez, para participar de uma sessão espírita. Com o gesto de apresentar aos filhos os encantos de cada denominação, os pais almejam criar homens que respeitam as escolhas alheias, a medida que eles também estarão livres para fazerem as suas. 

“O que sempre tem que prevalecer é o amor, o respeito, a caridade. Se ele vai seguir ou não uma religião, será literalmente a escolha dele, assim como seguir sua orientação sexual, religiosa, opção de trabalho, política”, diz a mãe.

A avó paterna de Iago, a supervisora Eliane Nagel Cristofolini, 52 anos, representante da comunidade espírita, revela que o batizado não foi apenas um sacramento, mas, sim, a representação de várias crenças e fés no mesmo criador que atende a todos. “Está na hora de nós deixarmos esta segregação de lado, está na hora de juntarmos forças em torno de um só Deus, de uma única causa que é o amor e a caridade”, sugere.

A avó paterna de Iago destacou a importância do respeito às crenças de todos os familiares. Foto: Herison Schorr

A espírita afirma que a abertura para cada membro da família expôr sua crença na cerimônia foi uma forma de reafirmar a união familiar, onde todos são acolhidos e amados mesmo com diferentes opiniões. Para ela, Deus não escolhe o indivíduo pela crença, mas abraçando a todos. “Você faz isso com seu filhos?”, instiga a avó que levou: purpurina, representando a luz que emana durante o passe; o livro de Allan Kardec; pedras simbolizando os Chakras e dois colares de suas avós falecidas para representar a ancestralidade e o dom da reencarnação.   

Danieli Aparecida de Faria Kulkamp, 33 anos, estudante de educação especial e tia de Iago, levou uma pequena escultura de anjo da guarda e, em uma cestinha de vime, as ervas que são utilizadas pelos pretos velhos, pretas velhas, caboclos e índios para tratar as mazelas daqueles que procuram na umbanda a cura das feridas do corpo e da alma. Danieli conta que a escolha do anjo foi para representar uma entidade que é presente em todas as denominações religiosas, assim como nos terreiros que possuem o ponto do anjo da guarda: “Anjo da guarda, protetor meu”, cantou ao lembrar da canção umbandista referente aos seres protetores.  

Proteção do anjo da guarda e a cura pelas ervas foram as representações da comunidade umbandista apresentada por Danieli. Foto: Herison Schorr

Para Danieli, que tornou-se umbandista a pouco tempo, todas as denominações religiosas são importantes para ela, pois, cada uma delas, desperta em seu interior algo diferente. “Isso vai te agregando conhecimento e você vai se expandindo, como uma grande árvore que um dia foi uma semente”, conta. Sobre a cerimônia, a tia conta que, mesmo sendo simples, foi um momento inesquecível. “Só precisou de uma simples vela, a água, a natureza, as pessoas e o amor. Aí que tá, o amor, não tem nada mais belo que ele”, destaca.

A Igreja Católica estava simbolizada pela imagem de Nossa Senhora Aparecida e pela representação do Espírito Santo em uma pequena escultura de uma pomba branca. A imagem estava nas mãos entrelaçadas com um terço segurado por Araci Rodrigues da Silva Kulkamp, 54 anos, dona de casa e avó materna de Iago. “Quando Jesus se batizou, apareceu no céu uma pombinha, abriu-se o céu, veio a voz, e ela surgiu”, conta a avó católica sobre a passagem bíblica presente no Novo Testamento.

A avó materna de Iago deixou para o neto a devoção por Nossa Senhora Aparecida e o amor que ela transmite a todos os seus filhos. Foto: Herison Schorr.

Araci revela que, mesmo sendo frequentadora das missas e devota a todos os santos católicos – em especial à padroeira do Brasil-, é aberta para receber todos aqueles que querem lhe ensinar a palavra de Deus, como pastores que costumam lhe visitar. “Não desfaço de religião nenhuma”, destaca. Segundo Araci, já participou de muitos batismos em casa e utilizou as experiências adquiridas em cada cerimônia para ajudar nas bênçãos ao neto. 

A enfermeira Celimoniz Casa, tia de Iago, trouxe a bíblia e a voz para cantar a música “Herança” da cantora gospel Rebeca Nemer, dedicando para seu sobrinho cada bênção descrita na melodia que refere-se à apresentação que os evangélicos fazem de seus bebês a Deus, diante de toda a comunidade. A canção simbolizou os louvores presentes nos cultos evangélicos.  

Segundo Celimoniz, sua infância foi marcada por um conflito familiar entre uma mãe evangélica e um pai católico que, ao longo dos anos, aprenderam a respeitar um o espaço do outro e é este sentimento de tolerância que quer deixar ao sobrinho, assim como faz com seus filhos que frequentam missas, cultos e sessões mediúnicas, acompanhados pelos avós.

A tia do menino cantou durante a cerimônia realizada final da tarde de sábado.
Foto: Herison Schorr

Sobre a falta de requinte da cerimônia, feita quase sem custos, com cachorro quente e bolo de fubá servidos em seguida, os pais de Iago referem-se a vivência espírita que orienta, de acordo com a família, do valor ao ambiente dado pela energia que transmite, mesmo sendo simples, como o campinho de futebol que também é usado como pasto para cavalos, onde o batismo do filho foi realizado.

A cerimônia foi realizada ao ar livre e com poucos convidados, seguindo as recomendações do Ministério da Saúde. Foto: Herison Schorr

 

Herison Schorr
Herison Schorr

Escritor e jornalista formado pela Faculdade Bom Jesus Ielusc

Input your search keywords and press Enter.