Indústria Americana — Crítica — (Netflix, 2019)

Indústria América venceu o Oscar de melhor Documentário no Oscar 2020

Ao receber o prêmio de melhor Filme Documentário por Indústria Americana, Julia Reichert citou Karl Marx e Friedrich Engels: “trabalhadores do mundo uni-vos”. A frase dos fundadores do comunismo, talvez decepcione os que torceram contra Democracia em Vertigem (crítica aqui) por ser um filme da “esquerda”. O longa dirigido conjuntamente com Steven Bognar trata sobre o que aconteceu em 2014, quando a Fuyao, empresa chinesa de vidros, reativou uma antiga fábrica da General Motors na periferia de Dayton, Ohio.

O Documentário não utiliza narração off, nem cenas de arquivo, toda a obra é narrada a partir da montagem com imagens captadas pelos próprios cineastas. Os personagens falam e o montador costura. É como se todos falassem em sequência e a narrativa fosse única. Isso passa uma impressão de neutralidade, como se não houvesse intervenção dos produtores no direcionamento das ações dos personagens ou em suas respostas.

Todavia, quem assiste Indústria americana com um pouco mais de atenção, percebe não apenas uma denúncia da exploração dos trabalhadores, mas uma defesa do modo de vida americano. De fato, existe crítica a China, entretanto, carregada de frases sobre um passado dourado, quando os americanos não eram “tão explorados” e os patrões tinham “respeito” pelos funcionários. É interessante observar que as críticas feitas pelos operários de Ohio é a mesma feita por trabalhadores latinos sobre empresas americanas.

Ironia

Soa um tanto irônico quando um brasileiro assiste, afinal as empresas americanas quando instaladas em nosso solo recebem incentivo dos governos, não respeitam nossas leis trabalhistas, poluem a natureza e também não querem permitir a liberdade das organizações sindicais. Toda a exploração e abuso denunciado pelos documentários cometidos pelos empresários chineses é certamente parte do cotidiano de qualquer operário empregado de uma empresa americana, no México ou no Brasil.

Antes de mais nada, é preciso entender que o olhar focado pelos documentaristas expõe apenas a “selvageria” dos empresários chineses. Isso os coloca na mira dos ataques. Essa forma de filmar e contar a história também não permite interpretação dos fatos. Inegavelmente a china possui hoje condições de trabalho análogas a trabalho escravo e isso não era um problema até a lei americana perceber que as empresas chinesas querem aplicar o mesmo método de trabalho em seu território.

Ponto de vista

Esse é o grande plot do documentário, pois após mostrar os chineses reerguendo uma empresa falida, em lugar conhecido como cinturão da ferrugem mostra eles tentando burla as leis e impedir os trabalhadores organizarem um sindicato. Aqui o filme cai em uma dicotomia, as viagens à China e a diferenciação do trabalhador chinês e do trabalhador americano, mostram a diferença entre uma democracia liberal e um estado ditatorial. 

Ou seja, aqui existe liberdade e lá não. O discurso do filme parece uma tomada de consciência por parte de um setor da elite norte-americana da precarização do trabalho. Desde que a crise de Wall Street em 2008 explodiu, os capitalistas e investidores empurram o salário dos trabalhadores para baixo. O custo brasil tem os salários e direitos como um dos grandes “entraves” para o “crescimento”.

Os trabalhadores americanos, mais qualificados e com maior acesso a tecnologia, não estão livres desse achatamento salarial. Uma fala constante no documentário é quanto o salário em seus antigos empregos era maior. Enfim, o sentimento passado pelo filme é uma empatia por todos que sofrem com as mudanças chinesas. Todos são vistos sob o mesmo ponto de vista.

Quando colocamos todos no mesmo patamar, os eximimos de culpa e responsabilidade. Todos parecem vítimas do sistema. Esse tom Downton Abbey ao filme, como disseram os cineastas, explica o interesse do casal Obama na obra. O discurso marxista fica para as premiações, entrevistas, mas não para o filme que parece defender um estado de bem-estar social em contraste com a barbárie chinesa

Julia Reichert e Steven Bognar vencedores do oscar de melhor documentário 2020
Os cineastas Julia Reichert e Steven Bognar recebendo a premiação no Oscar 2020 por Indústria Americana

Casal Obama & Indústria americana

A ironia aumenta quando descobrimos que uma das empresas produtoras do documentário é a Higher Ground de propriedade do casal Obama. O filme leva o selo do ex-presidente americano, mesmo sem ter participado da criação ou produção do filme. De acordo Reichert e Bognar, em entrevista ao HUFFPOST, Indústria Americana já estava pronto quando eles foram procurados pela Netflix e a empresa dos Obama.

Entre a citação de Marx e o selo dos Obama propõe a solução para resolver os problemas dos trabalhadores:

“Nosso filme é de Ohio e da China, mas podia ser de qualquer lugar do mundo, onde as pessoas colocam uniforme e batem o ponto para dar o melhor para sua família. As coisas vão melhorar quando todos os trabalhadores, independente de que país sejam, se unirem. Obrigado à Academia e todos que confiaram na gente, obrigado também à Netflix”, concluiu .

João Diego Leite
João Diego Leite

É jornalista formado no Bom Jesus Ielusc, em Joinville. Especialista em cinema pela Universidade Tuiuti do Paraná e escreve sobre cinema há quatro anos No blog Clube de Cinema Outubro

Seja o primeiro a comentar

Deixe um comentário

Seu email não será publicado


*