Crítica— Democracia em Vertigem (Netflix, 2019)

Filme Democracia em Vertigem
Cena do filme Democracia em vertigem de Petra Costa

No filme Democracia em Vertigem, a cineasta Petra Costa escolhe falar de sua família, de seus pais e avôs. Abre sua intimidade ao público, mas faz isso de um jeito ameno, em tom de lamentação e um excessivo respeito. Neta de empreiteiros e filha de militantes políticos, Petra conta a história recente do Brasil como uma crônica familiar. Utiliza o envolvimento político e econômico de sua família para contar a história do país a partir de ponto de vista íntimo, de pessoas que, de alguma forma, lutaram e sonharam por um país melhor.

Assunto de Família

Esse tom pessoal pode ser notado logo nas primeiras cenas, quando Petra diz ter a mesma idade da Democracia. Quando mostra cenas dela votando ou quando mostra imagens de sua mãe e pai. O ponto de vista escolhido pela cineasta é corajoso, pois exige estar disposto a confrontar membros da própria família e muitas vezes atingir pessoas sem envolvimento direto com os fatos.

Isso explica, em partes, as dezenas de críticas feitas ao documentário por não ter contado “toda a história” de sua família. Os pais dela, por exemplo, não viveram na “clandestinidade”, eles ficaram em stand-by. Seu pai foi secretário de Aécio Neves, o avô era amigo de JK e por isso ajudou a construir Brasília. Nem sempre meias verdades formam uma mentira inteira, mas também não ajudam a construir uma versão mais correta. Contudo, precisamos lembrar que em nenhum momento ela esconde ser neta de empreiteiros, ela fala isso várias vezes durante o filme, também fala da ligação da mãe e pai com a política.

Não há um caso de falta de honestidade, mas um excesso, talvez, de dramaticidade para quem pensa no documentário apenas como jornalismo, um documento. O documentário pode ser arte ou jornalismo. Poucos conseguem ser os dois ao mesmo tempo. Olmo e a Gaivota, documentário anterior de Petra com a Lea Glob é uma obra maravilhosa sobre ser mãe e a arte, mas não sei até que ponto o que é mostrado é totalmente “verdadeiro”.

Sem confronto

O interesse da cineasta aqui não me parece confrontar os fatos, mas em falar de sonhos, em despertar os sentimentos que seus pais sentiram ao ver tudo que sucedeu no país. Não busquemos jornalismo em uma obra qual o objetivo não é ser jornalística e mesmo buscando, não existe neutralidade, não existe imparcialidade. Petra escolheu os entrevistados, escolheu as cenas, participou dos atos, manifestações, ninguém faria isso de uma forma totalmente neutra e imparcial.

Esse é o grande valor do documentário de Petra, costurar a grande quantidade de imagens e cenas de arquivos e montar o filme. Diferente de outras obras, como O Processo, que se ateve muito as cenas de reuniões e as imagens internas, Democracia em Vertigem consegue balancear tudo com uma grande quantidade de cenas de bastidores. Um acesso que somente alguém com intimidade com os entrevistados conseguiria.

Dilma e a Mãe de Petra Costa, Marília de Andrade
Dilma e a Mãe de Petra Costa, Marília de Andrade / Foto: Democracia em Vertigem

Antes de julgar a voz off de Petra e todas as lamentações de quem esperava algo mais “imparcial”, assista o filme e preste a atenção nas falas de cada personagem. Lula diz várias vezes não querer fazer revolução, de confiar na justiça e respeitar a democracia. Dilma também faz o mesmo, diz estar decepcionada com as pessoas que eram aliadas e votaram favoráveis ao seu impedimento. O documentário não esconde as relações com empreiteiras, fala das alianças e, em certo momento, as justifica.

Tímida autocrítica

Petra, apesar de não ser militante petista até onde me consta, faz uma tímida autocrítica do PT, mas uma autocrítica de quem acredita nos governos de Lula e Dilma, como os “melhores” e mais “revolucionários”. A cineasta trata o partido como trata sua família, fala dos erros, fala de algumas traições, mas não confronta, não expõe totalmente as feridas. Em nenhum momento ela cita o fato de Lula nunca ter dito o “Fora Temer” e ter se negado a puxar o grito. Não fala das repressões no governo Dilma, dos ministros oferecendo as forças de Segurança Nacional para reprimir manifestantes.

Ao fim, o filme não faz uma interpretação ou explicação da realidade, mas mostra a visão de alguém com uma relação umbilical com a política brasileira. Alguém que deseja relacionar a derrota petista nas urnas como uma tragédia de todos. Alguém, que tenta, apesar dos erros e equívocos, mostrar que eles tentaram fazer o melhor. Um documentário que fará os mais ilusionados nas “maravilhas” do governo petista e na nossa democracia chorar.  

Leia também nossa crítica sobre Dois Papas (crítica aqui), filme concorre ao Oscar de melhor ator com Jonathan Pryce, pela interpretação do Papa Francisco, Anthony Hopkins como melhor ator coadjuvante pela interpretação de Papa Bento VI e melhor roteiro adaptado com Anthony McCarten.

João Diego Leite
João Diego Leite

João Diego é jornalista formado no Bom Jesus Ielusc, em Joinville. Especialista em cinema pela Universidade Tuiuti do Paraná e escreve sobre cinema há três anos No blog Clube de Cinema Outubro

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