Crítica – River (Netflix, 2015)

A minissérie River, disponível internacionalmente pela Netflix e produzida pela BBC trata sobre como investigador interpretado por Stellan Skarsgård tenta descobrir quem assassinou sua parceira. Sem amigos, ele luta para não ser afastado do trabalho, o único refugio que lhe resta. River é um imigrante da Suécia, que foi abandonado pela mãe com a avó. Isso provocou muitos traumas e mudou a vida dele para sempre.

O abandono na infância pode provocar muitos traumas, mas o maior deles é com certeza o sentimento de não pertencimento, a sensação de nunca ter um lugar, nem fazer parte de nada. É um permanente sentimento de estranhamento diante do mundo. A série River trata sobre isso de uma forma sutil. O motor da trama é a investigação de crimes e assassinatos, mas o centro da narrativa é o sentimento perda, o vazio e o não pertencimento do personagem principal.

Um roteiro impecável de Abi Morgan e uma atuação memorável de Stellan Skarsgård. River é uma das melhores produções disponível na Netflix.
Série River é produzida pela BBC e disponível internacional pela Netflix

Como Meursault, no livro O Estrangeiro de Albert Camus, River não consegue se encaixar nos padrões da sociedade. O personagem de Camus é indiferente a moral social e isso lhe tornava insensível aos olhos nativos e uma ameaça ao cinismo das autoridades. Se com Meursault o problema é a insensibilidade diante da morte da mãe e dos sentimentos da namorada, em River o problema é o isolamento social, um certo afastamento das pessoas. Como sua chefe diz, os resultados dele são melhores, mesmo com os problemas.

Fantasmas

Além disso, River fala sozinho e isso aumenta o estranhamento. Ele nunca superou o trauma de ser abandonado, nunca conseguiu se encaixar em lugar algum. Por isso, desde a infância criou seu próprio mundo. Os fantasmas que o assombram não são espíritos, nem seres sobrenaturais são seus sentimentos, dúvidas e angustia. Quando Thomas Neill Cream, interpretado por Eddie Marsan, aparece diante de seus olhos, ele não fala sobre si, fala sobre o que River leu e sente. O mesmo com todas vítimas, elas nunca dão pistas, nunca revelam nada, caso contrário ele descobriria tudo sem investigar.

Um dos pontos altos do roteiro de Abi Morgan são os diálogos com os fantasmas. Demoramos um pouco a percebê-los como manifestações das emoções e pensamentos de River, não como seres sobrenaturais. Ele os vê como quem está tendo uma ideia, pensando sobre algo ou quando uma situação provoca lembranças. As aparições são sinais de alerta, pensamentos, medos e reflexões.

Jackie ‘Stevie’ Stevenson, interpretada por Nicola Walker, mantinha River sobre o controle, era sua ancora, mas quando foi assassinada o deixou à deriva. O sentimento de impotência e a dor aumentou as visões. Os fantasmas que lhe ajudavam a resolver os crimes, agora prejudicam seu discernimento sobre a realidade. Com Stevie ele tinha um vinculo com a realidade, alguém para lhe por os pés no chão, mas agora sem ela, River se volta unicamente para os fantasmas.

Empatia

Diferente de outros investigadores da ficção, River é empático. É honesto com as vitimas e com os criminosos. O personagem não é um idiota egocêntrico como House, por exemplo, nem um serial killer em potencial como Will Graham, interpretado por Hugh Dancy, em Hannibal. Enquanto House , interpretado por Hugh Laurie, acredita que todos mente e Graham mergulha na cabeça dos assassinos, River conversa com as vítimas.

House é quase um super-herói com sua capacidade de investigar doenças, Graham quase incorpora os assassinos. A estranheza dos dois não os torna melhores ou mais humanos, ela os afasta da realidade. Eles podem fazer o que podem porque seus defeitos, deformações psicológicas e doenças lhe concederam um superpoder.

Os filmes e séries americanas utilizam um tipo de personagem genial, mas individualista, egocêntrico e com doses de loucura. Como se para salvar vidas e ajudar os outros, precisássemos abandonar nossa humanidade. Eles agem como um mal necessário. Em River, esse tipo de personagem existe, mas com a diferença de ele não parecer superpoderoso. Os crimes resolvidos por ele, diferentes das curas para doenças em House não são feitos em passe de mágica. River encontra cada peça do quebra-cabeça e os fantasmas apenas transmitem seus pensamentos.

Semelhante a House e Graham ele também é estranho, também é antissocial, mas não é egocêntrico, nem individualista. River é movido por amor e empatia junto a todas as contradições provocadas pela dor e os traumas.

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João Diego é jornalista formado no Bom Jesus Ielusc, em joinville. Especialista em cinema pela Universidade Tuiuti do Paraná e escreve sobre cinema há três anos No blog Clube de Cinema Outubro

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