Coração de estudante: alunas irmãs doam seus cabelos para diretora em tratamento com quimioterapia

Tem um sino que começa a tocar lá pelas 7h30, despertando os sonolentos e apressando os atrasados para adentrar ao Pré-escolar Dente de Leite do município de Garuva, Santa Catarina. Na entrada, perto deste sino, há uma diretora, seu nome é Denise Romanzini da Silva. Ela já foi professora e aluna também. Seus movimentos na entrada da escola até parecem valsa, embalada pelos pequenos que passavam pela barra de seus incontáveis vestidos coloridos; eles flutuavam com a leveza da primeira infância. Quem sabe, tentasse contar quantos já passaram por ali, somando aqueles que lhe apertam a cintura, com aqueles que se despedem de seus pequenos, pois um dia foram seus alunos, também.

Dentre as alunas que já passaram ao redor da diretora, três irmãs: Eloísa Henz, 6 anos; Camila Henz, 8; Ana Júlia Henz, 11, e uma prima Pietra Henz de 8, resguardavam, em seus corações de estudante, uma admiração especial à grande mulher protetora, que sempre foi um espelho às meninas que sonham em ser um pouco de Denise.

Irmãs exibiam orgulhosas seus longos cabelos, mas, após descobrirem sobre a campanha da diretora, decidiram doá-los. Foto: Simone Henz

Tantos outros sinos tocaram naquela mesma creche, e as alunas não passaram mais pelos abraços da diretora, assim como seus colegas. Foram convidadas para uma nova jornada, na vida que só começava. Denise despediu de seus alunos e lançou-os ao mundo, com aquela dorzinha no peito, mas com a certeza de que os ensinou a voar.

Em um novo ciclo que trouxe novos rostinhos, Denise seguia sua rotina de décadas, até que precisou se ausentar por um breve momento. Os alunos sentiram a falta de seus afagos, e muitos se perguntaram onde ela estaria. Em uma manhã, a diretora retornou, com o mesmo vestido longo; com os mesmos colares, e os mesmos sorrisos e beijinhos; com aquela sua impecável energia. Porém, faltava um grande detalhe: seus cabelos não estavam mais presentes. Alguns alunos sabiam o que isso significava, e a diretora tratou de acalmar a todos.

“A ‘prof’ teve câncer, mas já está curada”, disse aos pequenos.

Denise conta que descobriu o câncer na mama direita durante uma terapia com Reiki, após ser avisada por sua terapeuta de que havia uma alteração na mama. Fez os exames no mesmo dia que confirmaram a doença. “Uma semana depois, fiz a cirurgia para tirá-lo”, conta. Após ser operada, os exames constataram que a diretora estava livre do câncer e que ele não havia risco de voltar, mas, por um protocolo da medicina, ela deveria fazer o tratamento com quimioterapia e, após, com a radioterapia. “De primeiro momento, levei um susto quando descobri que ia perder os cabelos, mas, no minuto seguinte, já concordava com a ideia”, afirma.

Durante as primeiras sessões de quimioterapia, no Hospital São José, em Joinville, Denise descobriu uma campanha de arrecadação de cabelos para confeccionar perucas às mulheres em tratamento. No mesmo momento, pensou na dedicação que tinha com os seus fios e na positividade que as perucas tratiram para as pacientes carecas. “Iniciei uma campanha de arrecadação de cabelo pela internet. Não queria para mim, minha careca era o reflexo de minha luta particular, mas, sentia que era preciso fazer pelas demais”, conta. A campanha ganhou tamanha proporção nas redes sociais, que chegou aos ouvidos das ex-alunas; elas dicidiram reagir.

Um ano antes, Pietra sentiu um desejo em seu coração. Dediciu cortar suas longas madeixas para doá-las, além de alguns de seus brinquedos. Como não encontrou ninguém para fazer a doação, sua mãe Elizandra Silva Batista, 41, guardou a mecha em um porta jóias, como preciosidade que era. Ao saber da campanha da diretora Denise, Pietra soube que aquele era o momento exato de despedir, de vez, de seus cabelos. “Foi uma alegria imensa quando a Pietra descobriu que poderia ajudar a ‘dire’ Denise”, conta, Elizandra.

Na família ao lado, suas três primas também souberam da campanha. E a iniciativa de cortar, partiu de Eloísa, a mais nova. “Fiquei com um pouco de receio, no começo, mas fui convencida”, lembra, Simone Henz, 32, mãe das meninas, que ficou surpresa com a resposta da filha.

“Mãe, tem que pensar que há crianças que não tem cabelo; o meu vai crescer de novo, e vou arrasar de cabelo curto”, disse, Eloísa.

Comovida com o interesse da filha, Simone aceitou a vontade não só da mais nova, mas de suas outras duas filhas, que também ficaram interessadas em doar seus cabelos para a campanha da diretora.

No dia de entregar as mechas, as três irmãs e a prima apareceram de supresa na casa de Denise, que reparou, logo que saíram do carro, que suas alunas estavam de cabelinhos curtos. “Me emocionei com a atitude das minhas aluninhas, eu sabia o quanto elas amavam seus cabelos“, afirma.

As alunas surpreenderam e emocionaram a diretora com a doação.
Foto: Denise Romanzini da Silva

Pietra conta que pretende deixar o cabelo crescer, novamente, para doar mais vezes, além de roupas e brinquedos que não usa mais. “Para ajudar as pessoas que tem câncer, eu gosto de ajudar”, afirma. Assim como a prima, as irmãs Henz também afirmaram a vontade de continuar a doação de cabelos, como contam em um vídeo que enviaram à redação do site Folha Norte SC.

Irmãs contam a experiência de participarem da campanha. Gravação: Simone Henz

De acordo com a diretora, 34 mechas de cabelo já foram doadas por meninas e mulheres. “Até os meninos estão me procurando para doarem também”, revela. Com a campanha ainda em andamento, disponibilizou o telefone: 47997615402 para os que tiverem interesse em fazer a doação de seus cabelos.

Denise deixando as mechas adquiridas pela campanha na ala de oncologia do Hospital São José.
Foto: Denise Romanzini da Silva

Tem um sino que toca no Hospital São José que anuncia a cura, definitiva, de um câncer. Ele é balançado por quem se despede, com seu badalar, de todas as dores e lutas, anunciando o renascimento de um novo despertar. Denise, agora, está cada vez mais perto de tocar este sino, com a certeza de que as rotinas de sinos que ainda ouve no ambiente escolar, o qual, permaneceu trabalhando, mesclados com as gargalhadas e conversações dos alunos, foram essenciais para sua cura, assim como sua fé à Nossa Senhora Aparecida, a quem prometeu uma visita, em Aparecida. Em seu momento de badalar o sino, dedicará as batidas a todos que passaram por seu redor e retonaram para lembrá-la de que sempre foi amada.

Denise fala sobre sua experiência de vida com o tratamento e da emoção com a campanha.
Gravação: Herison Schorr

Ainda lembro do sino tocar e ela aparecer, pelo corredor, com os cabelos cheios de tic tac, no meu primeiro dia de aula, da segunda série; lembro das incontáveis vezes que, também, passei pelas barras de seus vestidos coloridos, e dos beijinhos que recebi na bochecha, hoje, cheia de barba falhada. Infelizmente, meus cabelos são curtos demais para serem doados à diretora Denise, de quem, um dia, fui aluno; mas dedico cada palavra que aprendi com ela, ao longo das minhas primeiras séries, para contar a sua história.

Professora Denise com seus alunos da E.E.B. Carmem Seara Leite há, aproximadamente, 18 anos atrás.
Foto: Denise Romanzini da Silva

Herison Schorr
Herison Schorr

Escritor e jornalista formado pela faculdade Bom Jesus IELUSC.

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