O REI (Netflix, 2019) – CRÍTICA

O Rei é bom filme, aquele qual você não perde tempo assistindo. É divertido. Não lhe incomoda, nem deixa pontas soltas e ainda possui um padrão de qualidade. É uma obra importante para um catálogo de streaming. Nem todos os longas-metragens serão grandes obras de arte, deveriam então ser bons entretenimentos, pois isso compensa o investimento. Desse modo, nem público, nem produtores saem decepcionados. A Netflix poderia melhorar seu catálogo com esse tipo de produção, pois isso lhe garantiria uma fatia importante do mercado.

O Rei, dirigido por David Michôd é um filme de qualidade padrão da Netflix. Entrega o que promete. Não é uma obra que brilha e ganha destaque, mas pode iluminar a fuga de noites entediantes de muitas pessoas. A trama narra a história da passagem de trono entre os reis da Inglaterra, mas não se caracteriza como um filme histórico. A guerra e as intrigas da monarquia são pano de fundo para narrar a passagem da adolescência para a vida adulta.

Receituário padrão

O roteiro segue um receituário já utilizado por outras obras. O jovem Hal, interpretado por Timothée Chalamet, odeia o pai por ter provocado intrigas no reino e ter sido uma personalidade opressiva em sua vida. O jovem monarca vive com os plebeus e sempre está bêbado. Ele só assume a coroa devido a um evento traumático. É algo comum em histórias épicas o herói negar seu destino e ser empurrado até ele.

O ponto alto aqui não é o filme trilhar um caminho já feito, mas em como ele o utiliza de modo eficiente. Hal não queria assumir um trono e era tido pelos homens da corte e nobres como um jovem irresponsável. Essa percepção começa mudar quando desafia o líder de outro exército para um combate individual. A coragem do herói impressiona a todos e atrai a atenção do reino. Momentos como esse no filme são muito bem posicionados de forma a demonstrar o crescimento do personagem.

Hal deixa de ser um jovem bêbado e mimado para se dedicar ao reino, enquanto seu amigo Falstaff, interpretado por Joel Edgerton, deixa de ser um ex-militar que vive como lúmpem para se tornar um grande herói de guerra. Apesar de Hal ser o personagem principal, esses dois personagens dividem o protagonismo do filme. Falstaff não é apenas comandante do Rei, mas a figura paterna e mestre do monarca. É a pessoa que o jovem Henrique V sempre pode confiar.

Timothée Chalamet interpreta Henrique V
Timothée Chalamet interpreta Henrique V

A Guerra

Diante da guerra, os dois demonstram incomodo ao serem empurrados para conflito. Hal por não querer ser igual ao pai, Falstaff pelos traumas de batalhas passadas. A guerra é uma ação irracional, sem nobreza alguma. A violência na batalha da França não mostra heroísmo, apenas crueldade e agonia. A primeira cena do filme, qual o nobre mata um homem ferido que rasteja no chão, demonstra o quão covarde poder ser um soldado a serviço do reino.

É interessante notar como o discurso de unidade e defesa da pátria são quebrados durante a obra. Hal descobre não ser um jovem, como descobre, que mesmo como rei, não pode confiar em ninguém. Suas decisões serão sempre solitárias e as consequências podem levar a morte milhares de pessoas. A bondade quase inocente que ele prega parece não ser uma qualidade útil ao rei.

Ao fim, nos é entregue um filme sobre crescimento pessoal, uma obra sobre a ingenuidade política que pode não nos surpreender, mas nos diverte e nos prende atenção pelas duas horas.

João Diego é jornalista formado no Bom Jesus Ielusc, em joinville. Especialista em cinema pela Universidade Tuiuti do Paraná e escreve sobre cinema há três anos No blog Clube de Cinema Outubro e agora colabora para portal semanalmente e quando dá vontade.

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